LENINE_1_CREDITO SIDARTA

“Faço música como se faz cinema”: Lenine fala sobre “Eita”, Kleber Mendonça e Recife


Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação/Gilda Midani, Malu Freire, Sidarta

COMPARTILHE:

Após 10 anos sem lançar um álbum próprio, Lenine vive uma fase de intensa criatividade: em novembro do ano passado, trouxe ao mundo Eita, disco que se desdobra em um filme. O cantor define o projeto como uma homenagem à cultura nordestina, que nos deu presentes como Dominguinhos, Hermeto Pascoal e Naná Vasconcelos — para não citar o próprio Lenine.

O projeto conta com participações de Maria Bethânia (em "Foto de Família"), Maria Gadú ("O Rumo do Fogo"), Siba ("Malassombro") e Gabriel Ventura ("Beira"), com produção de Bruno Giorgi, filho do cantor e parceiro desde o projeto Rizoma.

Já os arranjos, fiéis à musicalidade de Lenine e sua maestria no violão, são assinados por Carlos Malta, Henrique Albino e Martin Fondse, sob direção artística do próprio cantor. Este é o 9º álbum de Lenine, pavimentando uma carreira consolidada na música brasileira contemporânea desde o sucesso de Olho de Peixe (1993), em parceria com Marcos Suzano.

Música e cinema

O disco veio com um projeto audiovisual, disponível no canal do Youtube do cantor, costurando cada canção em plano-sequência. Gravado entre Recife, Rio e São Paulo, o média-metragem tem direção do próprio cantor, em parceria com Kabé Pinheiro e Laís Branco.

O vídeo é uma oportunidade para ouvir o álbum completo com escuta atenta —  hábito cada vez mais negligenciado entre os diversos lançamentos de singles e playlists nas plataformas de streaming.

O ritual que envolve a audição de um álbum, para Lenine, é sagrado — assim como a sétima arte. Para além de ouvir música em CDs e vinis, Lenine nos contou que cresceu entre os cinemas São Luís e Art-Palácio, no centro de Recife, cenários que também foram fundamentais para o diretor da vez, seu conterrâneo Kleber Mendonça Filho. Durante o papo com Lenine, o músico revelou como o cinema impacta seu trabalho.

Coube até uma referência a Retratos Fantasmas (2023), documentário que Kleber lançou antes de vir ao mundo O Agente Secreto (2025), indicado ao Oscar deste ano. 

O bate-papo com Lenine rolou no final do ano passado, por videochamada. Confira abaixo:

Após quase dez anos sem lançar um álbum de estúdio, como nasce esse novo disco? Ele já estava em maturação há um tempo?

Um pouquinho antes da pandemia, senti o desejo de fazer um projeto novo. Mas aí fomos atropelados pela pandemia e pelo fascismo, simultaneamente. A gente tirou do nosso passado dois anos, isso foi um dos motivos do nosso hiato. Depois veio o nascimento do Otto, filho do Bruno, que nasceu prematuro, ficou três meses internado, foi um período muito angustiante pra toda família. O Bruno [Giorgi] é o produtor de Eita!, então isso impactou diretamente o processo.

Teve também um momento em que fiquei depressivo... Isso abalou meu desejo de fazer música. Eu tenho outras paixões [como a botânica] e pensei: “não quero”.

O Bruno foi fundamental para eu fazer as pazes comigo mesmo. Durante esse tempo, eu nunca deixei de participar de projetos diversos — sou convidado pra muitos tipos de expressões diversas, de Angra a Anavitória passando por Tuyo ou Far From Alaska  —, mas evitei fazer shows e pensar num trabalho autoral novo.

Até que o Bruno propôs: vamos nos encontrar no estúdio toda quarta-feira. No primeiro encontro, ele mostrou um esqueleto do que começamos a fazer. Já era um proto-Eita [risos]. Por causa disso, voltei a fazer show, fizemos o Rizoma [duo formado por Lenine e Bruno em 2022]. Tudo isso me trouxe até aqui. Também juntei pessoas com quem sempre quis trabalhar, pessoas muito especiais.

Eu estava muito solitário, e ainda não queria dividir essa solidão com muita gente [risos]. Esse disco me jogou de novo no universo do desejo.

E como é seu processo criativo?

Eu nunca penso música por música. Para mim, tudo começa pelo título. O título cria uma imagem, e a partir dela eu vou descobrindo a história. As músicas vão surgindo quase simultaneamente a essa narrativa.

No caso, essa interjeição — eita — já estava no meu baú de palavras [risos] há muito tempo, sabe?

E é uma palavra muito boa!

Tem muitas camadas de significado, dependendo da entonação. Isso me atraiu muito. Tudo funciona como capítulos de uma mesma história. E as músicas vão acontecendo meio que simultaneamente a essa história que a gente vai desenvolvendo. Que, no fim das contas, tem muita importância só para mim [risos].

LENINE_GILDA MIDANI_0215-2 (1)

Mas isso é muito perceptível ao ouvir o disco! Essa conexão entre as canções não só temática, mas harmônica também.

Pois é! O Bruno também criou paisagens sonoras interligando canções e discursos. Elas dialogam com o desenvolvimento das músicas, costuram tudo. E isso me deixou muito feliz, porque o disco é exatamente isso: íntimo, muito pessoal.

Todo mundo que está envolvido em todas as etapas do processo — do disco ao filme, e tudo o que gira em torno dele — são pessoas com quem tenho intimidade, admiração. Existe uma química coletiva muito forte, e isso é incrível.

Isso faz com que pareça simples, faz com que pareça fácil. Mas não é simples [risos] não é fácil, mas é leve.

Também achei interessante lançar o disco com um filme, para reafirmar essa necessidade de imersão que o ser humano deveria ter nos dias de hoje: dedicar um tempo para ouvir e ver uma história. São pouco menos de 30 minutos. Por que não dar ao ineditismo essa chance?

Falando nisso, estive pensando... nos últimos anos, muito se falou sobre a “morte” do videoclipe. Em 2025 mesmo, vimos o encerramento da MTV Brasil e de outras ao redor do mundo. A Anitta já disse que não faz mais sentido investir em um videoclipe. Ao mesmo tempo, surgem plataformas, como o YouTube, que permitem pensar o lançamento musical de outra forma, inclusive como um filme. Se existisse apenas a lógica da antiga MTV, talvez não houvesse espaço para uma obra de 30 minutos como a que acompanha Eita!, né. Como você vê esse momento de transição e essas novas possibilidades para o audiovisual na música?

Importante você falar isso. Pra mim, sempre foi muito incômodo gravar videoclipe [risos]. Eu nunca gostei muito, e isso tem a ver com a ideia de ter que representar o que é esse videoclipe. Em geral, você precisa atuar, dublando uma música que já foi gravada... E geralmente, esse personagem não fui eu que criei.

O vídeo que acompanha Eita! não tem nada a ver com isso, porque basicamente, sou eu na tela o tempo todo. Sou eu sem filtro. Isso facilitou muito, inclusive no sentido da atuação — entre aspas — porque não se tratava de interpretar algo, mas simplesmente de ser quem eu sou. Isso fez uma diferença tremenda.

Acho que tudo isso também se conecta às transformações constantes da indústria do áudio. Mudanças sempre aconteceram, mas agora elas vêm acompanhadas de uma urgência muito grande. Hoje, você lança um single, faz um grande clipe e concentra toda a energia em uma única faixa, apostando nos primeiros 15 segundos para capturar a atenção de quem está ouvindo. Caso contrário, a pessoa simplesmente pula.

De certa maneira, talvez seja um pouco de anacronismo da minha parte insistir no álbum. Por exemplo, eu ouço vinil em casa, e CD no carro — e são experiências completamente diferentes. Em casa, existe um tempo, um mergulho. Esse ritual, para mim, continua fundamental.

E como surgiu a ideia do projeto audiovisual?

O filme surge quase como uma extensão natural disso. É como uma ópera ou uma grande suíte sonora. O protagonista é o próprio álbum.

Quando você estava compondo, já existia uma imagem do filme na sua cabeça? Por exemplo, o fato de começar no Teatro Santa Isabel [em Recife]?

Não. Isso aconteceu a partir do encontro com o Jorge Moura, o autor. Eu assisti Guerreiros do Sol [série da Globoplay] e pirei. É um grande romance do cangaço no Nordeste. E o personagem se chama Josué. Josué de Castro é uma das células centrais do Eita, com sua obra, Geopolítica da Fome.

Isso me aproximou do Jorge, falei: rapaz, que coisa linda! Me ajuda a fazer um filme do meu disco novo, nessa pegada? Ele topou, e uma das primeiras coisas que ele disse foi que a primeira cena deveria ser no Teatro Santa Isabel.

Porque, quando o filme termina em mim e eu salto para a minha cabeça — que é essa caixa-preta —, continua acontecendo, em tempo real, o percurso que fizemos do Teatro Santa Isabel até o Marco Zero da cidade do Recife. É ali que está a Rosa dos Ventos, cuja paleta de cores usamos no filme.

Você cita o cinema como parte da sua formação. Que lugar ele ocupa na sua trajetória?

Então, eu sempre trabalhei música como se fosse cinema. O processo de fazer um álbum é muito parecido… A minha formação está muito ali, em Retratos Fantasmas, do Kleber Mendonça Filho. Você assistiu?

Sim! Meu favorito dele. Este documentário é incrível.

Pois é! Aquilo ali foi a minha universidade. Eu frequentei as sessões de arte do Trianon, do Moderno, do Art Palácio, do São Luís, do Boa Vista. Esses cinemas foram o meu cenário, formadores para mim. Então, o cinema esteve ali o tempo todo.

Vejo uma conexão legal nisso, pois ambos os trabalhos, seu e do Kleber, homenageiam Recife. 

Exato! Eu ainda não o conheço, mas lembro que, na época em que lancei O Chão (2011), o Kleber estava lançando O Som ao Redor (2012), percebo essas consonâncias. Em ambos os casos, o protagonismo é do ambiente. Cidade, memória, som — tudo isso se cruza.

Houve um momento em que o filme quase não aconteceu, né. Como foi essa decisão de insistir nele?

Todo mundo dizia que, para fazer um filme, eu precisava de seis meses. Pelo menos! O disco já estava pronto, mixado e masterizado, e eu não aguentava mais segurar [risos]. Isso me frustrou.

Mas o Bruno e o Bernardo disseram: “Você passou a vida inteira falando disso. Vamos fazer”. A gente tinha só dois meses para produzir, filmar e lançar tudo junto com o disco.

Foi um mergulho intenso, desafiador e muito prazeroso. Lançar o vídeo e o disco simultaneamente, com som masterizado em Dolby Atmos, foi muito especial.

Depois de todo esse processo, como foi ver esse projeto materializado?

Foi recompensador. Depois veio uma ressaca boa, de olhar para aquilo tudo e pensar: “Que coisa bonita que a gente fez”. Foi tudo tão veloz que, no momento, não deu tempo de perceber.

Depois você vê e ouve com outra tridimensionalidade, cercado por aquilo tudo. Foi realmente impactante.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação/Gilda Midani, Malu Freire, Sidarta

COMPARTILHE:

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.