“Fronteiras existem para serem quebradas”, diz Ney Matogrosso

26/01/2017

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Lucas Krüger

Por: Lucas Krüger

Fotos: Cecilia Saraiva

26/01/2017

Sábado passado, dia 21, ocorreu show de Ney Matogrosso, fazendo parte do Festival Pepsi Twist Land, em Atlântida. O festival, que começou no dia anterior e se encerra no dia 29 de janeiro, conta com várias atrações (saiba mais).

O show de Ney era o mais aguardado do dia e eu tive a felicidade de conversar um pouco com ele. Ney havia chegado direto de Porto Alegre para o show e tínhamos pouco tempo até ele se preparar para em seguida entrar no palco. Querido e receptivo, demonstrou que gostaria de continuar conversando, mas a realidade e o horário eram mais fortes…

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Antes de começarmos a entrevista, Ney comentou que não gosta de falar já com a maquiagem posta. Ainda que eu não tenha perguntado o porque, fica fácil de inferir o motivo ao assistir o seu show. O afetivo e tranquilo Ney que conversamos no camarim, no auge dos seus 75 anos, se transforma num gigante artista performático, cheio de adereços, abusando de sua voz única e de seu poder de expressão corporal. Alta performance.

Depois da entrevista, assistimos o grande show de um artista que foi ícone de expressão da sexualidade em um momento em que o Brasil vivia a repressão da ditadura. E ele continua ocupando esse lugar de expressão num momento em que a política brasileira é permeada por muitos interesses que envolvem (também) instituições evangélicas, onde muitas vezes são pregados valores mais repressivos, conservadores e intolerantes com as diferenças, incluindo aí a disseminação da homofobia. Ney é música, mas não só, como você lê abaixo.

Como está sendo esse momento da sua carreira? São mais de 50 anos de estrada e você atrai públicos de variadas idades. É a atemporalidade de um grande artista e grande obra?
Eu tenho observado a aproximação de um público mais jovem. Agora, por incrível que pareça, acho que boa parte desse público começou a se aproximar de mim quando eu fiz o Cartola. Eu não imaginava que iria acontecer uma coisas dessas… Eu vejo muitos jovens na plateia, mas acho normal… Eu sou aquele cara lá dos Secos & Molhados que eles estão descobrindo agora, não é isso? Deve haver uma curiosidade por causa disso, também. Por que eu sei que os discos do Secos & Molhados está atravessando gerações, né?!

Pois é, eu escrevi recentemente uma coluna sobre o Secos & Molhados e a poesia do Cassiano Ricardo. Justamente, uma das propostas do Secos & Molhados era de transformar em música, poemas que, até então, não tinham um formato de canção. Eu sei que “Rosa de Hiroshima”, escrita pelo Vinicius de Moraes, esteve mais tempo em seu repertório… E as outras canções?
Algumas eu canto. “Tem Gente Com Fome” eu regravei depois. Por que “Tem Gente Com Fome” foi proibida na época, não pôde ser lançada, e eu consegui que liberassem na década de 80. E aí, todo ano que eu ia gravar um disco, eu mandava “Tem Gente Com Fome” por que ela estava falando de uma realidade do Brasil que era atual e ainda é. Então, eu canto algumas músicas do repertório dos Secos & Molhados, eu não tenho nada contra. Eu não vou fazer o Secos & Molhados de novo, mas cantar aquele repertório me pertence também.

Fico curioso para saber como é sua conexão com a poesia escrita hoje.
Não, eu não leio poesia… Eu tenho dificuldade… Menos do que já tive. Antigamente eu não entendia, eu olhava aquilo e pensava, por quê? Agora entendo, mas não tenho o hábito. Leio muito, mas não poesia.

Recentemente, Bob Dylan ganhou o Nobel de Literatura e isso explicita fronteiras mais reconhecidamente abertas nas artes e seus variados tipos de expressão. Assim era nos primórdios, sem tantas diferenciações por categorias. Você é um artista que se expressa além da música, como você vê essa questão das fronteiras?
Eu acho que fronteiras existem para serem quebradas. Todas. Eu não acho que eu deva ter que me recolher, sabe? Por ser cantor, eu deveria só cantar? Não, eu faço tudo o que eu achar que eu posso, tudo que eu achar que me interessa. Eu já dirigi peça de teatro, já dirigi shows de outras pessoas. Sou ator de cinema… agora vou fazer um filme… Acho que tudo é uma coisa só, arte é onde tudo se toca, né?

O Festival Pepsi Twist Land continua nos dias 27, 28 e 29 de janeiro na praia de Atlântida e nos finais de semana de 2 à 4 e 9 à 11 de fevereiro, no Rio de Janeiro.

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26/01/2017

Na psicanálise e na poesia, respirar a metáfora máxima.
Lucas Krüger

Lucas Krüger