Faixa a faixa | Ian Ramil disseca “Derivacivilização”

14/10/2015

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Ariel Fagundes

Por: Ariel Fagundes

Fotos: Ariel Fagundes

14/10/2015

Chegou ontem o segundo disco do Ian Ramil, Derivacivilização, um álbum para destruir certezas. Se comparado com a estreia, IAN (2014), o novo trabalho do artista soa mais perigoso e imprevisível, como uma granada de mão esperando seu play.

Esse é um disco envolto no arame farpado das críticas, mas o ouvinte que procurar bem encontrará entre espinhos o néctar doce de “Devagarinho”, uma espécie de “Samba e Amor” feita por Ian.

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– Eu me posiciono bastante no disco, mas não me posiciono por me posicionar, tô me posicionando em função do que eu venho refletindo há bastante tempo. Procurando não ser vazio nunca e nem leviano – explica o músico.

Indústria, política (partidária ou não), relações sexuais (amorosas ou não), tudo isso é questionado pelos versos dissonantes de Ian. Felipe Zancanaro (guitarrista da Apanhador Só), Guilherme Ceron (baixista), Martin Estevez (baterista do Quarto Sensorial) e Pedro Dom (clarinetista, pianista e membro da O.C.L.A.) formam o caldo que tempera com experimentalismo o som ácido de Ian Ramil. Filipe Catto, Alexandre Kumpinski e Gutcha Ramil são amigos e convidados que aparecem nas faixas “Derivacivilização”, “A Voz da Indústria” e “Artigo 5º”, respectivamente.

Vale lembrar que já foram divulgados dois shows gratuitos para lançar Derivacivilização: 24/10, Ian toca na Praça Coronel Pedro Osório, em Pelotas, às 17h; no dia 25/10, o show é em Porto Alegre, no Parque da Redenção, também às 17h. A turnê nacional com mais datas será divulgada em breve.

Ian comentou conosco cada uma das faixas do disco novo. Abaixo, você encontra esse faixa a faixa completo que serve de bússola para navegar nos mares revoltos de Derivacivilização.

COQUETEL MOLOTOV
Sempre pensei nela como uma bomba caseira e mesmo antes de ter escrito a letra já tinha o título. É uma música que vai se construindo calma e caseiramente, crescendo, até que lá pelas tantas sai pra rua, se acende e explode. Fiz ela lá no início de 2012, pré-blackblock-carnaval-carapintada. Fiquei uns meses tocando e cantando ela só com o primeiro verso letrado “Eu tô sentado em casa vendo qualquer merda na TV/ Há muito não entendo nada e sempre tenho o que dizer”, que pra mim resume muito essa postura histericamente “opiniática” e vazia que domina nossa geração rede-social. Uns meses depois, ainda em 2012, a letra veio numa sentada só, sem reflexão, sem raciocínio prévio; escrevi num jorro e só depois fui parar pra ler o que tava dizendo.

DERIVACIVILIZAÇÃO
É a música que motivou esse disco. Fiz o arpejo num ensaio e depois trabalhei em casa por uns dias, montando a melodia e escrevendo os versos. Muito mais pensada e menos cuspida que “Coquetel”. Gosto muito do uso do “cocar” nela: representa a cor, a nossa natureza exuberante e o pisoteamento de uma civilização que seguimos esmagando e desprezando em nome de progresso e tecnologia.

SALVO-CONDUTO
Parceria minha com o Poty Burch. Ele chegou com a melodia e um verso da letra. Escrevemos numa tarde aqui em casa, devaneando sobre os absurdos e inversões de valor nessa casa de espelhos distorcidos que é a humanidade.

CORPO VAZIO
A mais antiga do disco. Pra mim, faz um elo com “Coquetel” por meter o dedo na cara da falsa moral, da postura passiva que costumamos ter diante das imposições de valores por instituições massivas, como mídia, leis e religiões, que nos levam a distorcer e despersonalizar a maneira como nos relacionamos entre nós, como nos perdemos quadra após quadra atrás de coisas que nos vendem como fórmula de felicidade quando na verdade estão nos atirando num abismo irretornável de enganos e auto-enganos.

DEVAGARINHO
Sol, manhã, eu quero dormir até a hora que eu quiser. Quero que ela fique comigo, mas a cidade não deixa, o externo nos move e nos faz perder momentos, distorcer prioridades e correr ao dinheiro. Vai pra rua todo dia no mesmo horário quando deveria poder ficar na cama um pouco mais quando tivesse vontade. Todo mundo deveria poder arcar com suas responsabilidades mas ao mesmo tempo construir uma rotina mais saudável e menos mecanizada, com horários mais maleáveis. Mas essa música é sobre amor.

ARTIGO 5°
Parceria minha e do Leo Aprato com o pessoal do congresso de 1988. O Leo musicou o caput do Artigo 5° da Constituição e esboçou o refrão. Me mostrou a música, eu pirei na sacada dele e me meti de parceiro. Fiz um verso. Mas sempre digo pra ele que é 50% da letra, porque afinal de contas o resto foi o Ulisses Guimarães e os broder dele que fizeram.

A VOZ DA INDÚSTRIA
Parceria com Daniel Mã, baiano que mora em Sampa, quando ele veio passar uns dias em Porto há uns dois anos. Passamos uma tarde juntos e ele me mostrou um esboço de música que era lenta, melancólica. Eu falei que a gente tinha que fazer um axé ou algo do tipo, aí comecei a tocar aquela ideia dele com o violão bem ritmado e nos divertimos muito com aquilo. Escrevemos a letra numa tarde, nos propondo ao exercício de pensar a indústria como eu-lírico, olhando pra nós, magnânima e malvada falando através da sua ótica inescrupulosa de lucro e lixo.

QUIPROQUÓ
Minha coisa favorita nela é o contraponto entre uma melodia doce e palatável com uma letra ácida e desconfortável, que, já percebi, muitas vezes passa batida nas primeiras audições. Adoro quando as coisas não são percebidas, quando elas precisam de atenção. Nem tudo é um meme ou um filhote de cachorrinho. O mundo é mais e a gente acaba esquecendo disso muitas vezes nesse mar de informações. Tem muita coisa por trás. O bonitinho pode ser feio pra caralho.

RITA-CASSETE (A RE PAR TI ÇÃO)
É um delírio, a música mais rápida que já fiz. Cheguei um dia na casa do Ceron e ele tinha esse papelzinho atirado em cima da escrivaninha. Perguntei o que era e ele disse “uma bobagem que escrevi esses dias”. Botei na coxa, puxei o violão e cantei a letra. Do jeito que saiu ficou. Gravamos ao vivo e já tocamos muito em shows. Nunca o arranjo vai se repetir, nem se a gente quiser. É uma ode ao caos.

NÃO VOU SER CHÃO PROS TEUS PÉS
Disse que “Corpo Vazio” era a mais antiga, mas me dou conta agora que isso é parcialmente mentira. Essa música é muito velha. Ela tinha uma letra meio surrealista e non-sense e eu tava de saco cheio de como ela era, então ficou um tempão abandonada. Quando tava compondo o repertório do Derivacivilização me lembrei dela e achei que tinha tudo a ver, então peguei e reescrevi completamente a letra em cima da mesma prosódia, dizendo o que eu queria dizer. Única coisa que permaneceu da original foi o refrão e um verso ou outro.

Ouça Derivacivilização na íntegra:

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14/10/2015

Editor
Ariel Fagundes

Ariel Fagundes