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Com Don L e Ebony, festival conecta gerações do hip-hop em Brasília


Por:

Damy Coelho

Fotos: Beatriz Braga, Gabriela Pires, Tatiana Reis Samuel PH/Divulgação

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Enquanto as atenções estavam voltadas para o Rock in Rio, outros festivais seguiram fomentando cenas locais e recebendo grandes atrações num cenário fora do eixo — é o caso do Elemento em Movimento, que rolou entre os dias 02 e 06 de setembro em Ceilândia, a 30 km de Brasília. Este ano, calcado na cultura hip-hop e periférica, a oitava edição do evento — que teve como tema “Sem Perder a Ternura” —  levou para o DF nomes como Emicida, Don L, KL Jay, Thaíde e Ebony, além de valorizar as pratas da casa como Puro Suco, Câmbio Negro, Pratanes e Isa Marques.

O festival promoveu a união de diferentes gerações do hip hop na Praça do Trabalhador. Nomes como Thaíde e Câmbio Negro representam os primórdios do movimento — uma história que se desenvolveu em São Paulo ao mesmo tempo em que o rap ganhava força em outras parte do Brasil, como é o caso do DF. Em paralelo, Don L, N.I.N.A e Jotapê  representam gerações mais recentes, mostrando como esse movimento continua se renovando.

Destaque para a distribuição dos horários do line, que intercalava atrações nacionais e locais com o mesmo prestígio. No sábado, os Pacificadores botaram muita gente pra cantar junto antes da Ebony, uma das atrações mais esperadas da noite.

Quando ela entrou no palco, furor absoluto. Era bonito de ver as várias meninas muito novas na grade, cantando junto, numa catarse que remete ao riot grrrl do “Girls to the Front”, mostrando que o presente e futuro do hip hop é mesmo delas. Enquanto isso, atrações como KL Jay movimentavam a tenda dedicada às discotecagens. Don L foi o responsável por fechar a noite, ocupando o palco com sucessos e faixas do trabalho mais recente, o bem-recebido CARO Vapor II – qual a forma de pagamento? (2025).

Já no domingo, passou pelo palco principal o Puro Suco, que agitou o público do início ao fim, enquanto a música de Kirá e a Candangaria exaltava a cultura do cerrado. Pratanes veio na sequência, também representando a cena local com sua mistura fina de estilos sob uma chuva fraca. Depois, foi a vez do showzaço do Câmbio Negro, que convidou Thaíde e Zé Brown, do Faces do Subúrbio, em uma apresentação que aproximou diferentes momentos da história do rap nacional. Em paralelo, o Palco Baile recebeu nomes como Dandara, a Braba, e, no Palco Sesc, Negra Flow, outra representante do rap brasiliense. Para fechar a noite, Emicida subiu ao palco acompanhado de sua superbanda.

Um ponto interessante aqui: no final de semana seguinte, no Coala Festival, em São Paulo, Emicida chamou ao palco Puro Suco e Jotapê, que haviam se apresentado no Elemento — uma conexão entre artistas de diferentes territórios que o festival de Ceilândia já havia colocado em evidência.

Mesmo a chuva repentina que caiu pontualmente em Brasília no final de semana — atípica para o tempo seco de setembro — não afastou o público. Por onde se andava, entre os palcos, a área de alimentação ou a feira de vinil e artesanato local, viam-se muitos jovens, do rap ao metal, mostrando que o evento, de fato, movimenta diferentes cenas da cidade. 

Segundo Natália Botelho, diretora-geral do Elemento em Movimento, esse é um dos propósitos do festival: dialogar com o território e reunir artistas de diferentes gerações e linguagens, valorizando a cena do Distrito Federal e das periferias. “A curadoria parte, principalmente, desse diálogo com a nossa cena”, afirma.

Vivendo a música

Com programação gratuita, os três primeiros dias de Elemento em Movimento foram dedicados a painéis e rodas de conversa sobre formação cultural. Os Diálogos em Movimento levaram à Praça do Cidadão a jornalista e apresentadora Semayat Oliveira, a criadora de conteúdo Nath Finanças e artistas como Bixarte e Kirá, que também foram atrações do line. 

Nessa conversa, por exemplo, Bixarte e Kirá falaram sobre os desafios de se construir uma carreira artística fora do Rio e de São Paulo. Kirá difunde a cultura candanga do cerrado brasileiro em sua música, e produz sua arte no DF, enquanto Bixarte precisou sair da Paraíba para ver seu sonho artístico realizado. Ela conta que contribui para programas sociais voltados a jovens artistas locais, vislumbrando um futuro onde eles possam fazer arte em seus lugares de origem.

Em paralelo, as turmas do projeto Jovens de Expressão recebiam seus títulos na Praça do Cidadão. Essa é uma das partes mais legais do Elemento em Movimento: em parceria com o projeto, dezenas de jovens da comunidade local se especializaram ao longo de meses para se formarem em áreas culturais, da produção à assessoria de imprensa. O assessor do festival, Vinícius Remer, passou pelo projeto antes de se graduar em jornalismo, e hoje assume o posto no evento. Outro exemplo é o de Lorrane Melo, que participou da cobertura do festival. Para ela, a experiência no Jovem de Expressão mudou até a relação com o território onde vive.

“Por muitos anos, eu enxergava a Ceilândia como um lugar do qual eu queria me desvincular, não fazer parte, muito pelo que se retrata sobre a CEI nas grandes mídias. Hoje eu já enxergo como um território de muitas oportunidades e, para além disso, uma referência em criatividade e cultura que eu vou levar comigo em qualquer lugar em que eu esteja, com muito orgulho”, afirma.

Mais do que concentrar grandes nomes em uma programação fora do eixo, o Elemento em Movimento mostrou que a cena cultural de Ceilândia já tem seus próprios nomes e histórias para contar.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Beatriz Braga, Gabriela Pires, Tatiana Reis Samuel PH/Divulgação

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