Galo de Luta fala sobre rap nacional, consciência de classe e ativismo no Brasil
Por:
André Maleronka
Fotos: Ariel Fagundes
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Com poucos dois anos de atuação política - ele começou seu ativismo em 2020, no dia do aniversário de 31 anos - Galo de Luta pixou seu vulgo na violenta história do Brasil recente.
Da mobilização de entregadores de aplicativos à queima da estátua do sanguinário Borba Gato, de uma prisão bizarra ao palco dos Racionais, Paulo Roberto da Silva Lima se vê como o efeito colateral que o Sistema fez.
Neste “Brasil: um tremendo sucesso”, como escreveu o professor Luiz Antonio Simas, está aí porque tem que reforçar: as ruas não são como a Disneylândia. A culpa é do rap nacional.
No disco RPA3 (2017), do Don L, tem três momentos: passado, presente e futuro. Quero falar contigo dessas coisas. Do passado, o que é interessante é saber de onde vem sua formação. Sei que você já falou disso em vários lugares, mas é uma coisa que tem faltado muito no rap, então acho interessante contar da tua caminhada.
Mano, minha caminhada começa indo pro hip hop porque eu queria respeito. Meu pai e minha mãe são floristas. Na época, o trampo era ir no meio do mato, extrair as plantas e vender no Ceasa. Veio um gringo fazer um decoração e eles cataram um dinheiro daora, até em dólar mesmo. Aí, fomos curtir uma churrascaria e, lá, teve um caso de racismo com o meu coroa. Não quiseram servir a carne, meu pai subiu na mesa, começou a sambar, sapatear, deu maior briga. Começaram a servir depois do show.
Umas duas semanas pra frente, a polícia tirou meu pai do carro e começou a bater nele, porque ele se recusou a colocar a mão pra trás. Essas duas cenas mexeram comigo, e meu pai sempre me falava assim: que eu tinha que buscar ser respeitado. Isso ficou marcado pra mim.
Comecei a buscar referência de respeito, e na minha quebrada era o crime - todo mundo respeita, os caras tinham o que eu queria ter, as roupas, as correntes, os carros, as motos. Tanto que meu nome é Galo por causa da moto 7 Galo [apelido da Honda CBX 750F]. O único problema nos caras é que a polícia chegava e coloca os caras pra correr. Aí, comecei a ouvir uns raps na rádio e os caras xingavam a polícia, falavam o nome dos bairros que moravam...
Era a 105 FM ou a comunitária?
Eu escutava mais a 105. Tinha a comunitária também, que era a Rádio RCP. Fui atrás de quem manjava [rap], comecei, na escola, a perguntar, encontrei o Neto, que era amigo do DuGueto Shabazz - ele tinha um grupo que chamava Extremamente e uma música que chamava “Epidemia”. Neto colocou essa música pra mim, achei a música foda e pedi pro Neto me apresentar pro DuGueto. Perguntei pra ele como que fazia pra escrever rap, e ele falou que tinha que ler, e começou a me dar uns livros.
Comecei a ler e mostrar uns raps pra ele, ele dizia quando estava melhorando, me dando mais livro, fui caindo cada vez mais pra dentro do rap. Achando que ler ia me fazer virar o bandido da rádio, até descobrir que rap e crime não tinha nada a ver. Não é que não tinha nada a ver, quando eu descobri que cara do rap não era bandido, já tinha lido livro pra caralho, e era tarde demais.
Então, você viu procura por respeito e força em uma postura de confronto que você via no rap?
É. Eu estava atrás dessa agressividade. O mundo ao redor era agressivo, a impressão que eu tinha era que você tinha que ser mais agressivo que o agressivo pra conquistar o respeito. O rap tinha essa agressividade, então meio que me hackeou. Achei que estava no caminho de ser bandido, achava que o Mano Brown era o bandido mais foda do mundo e que os caras da minha quebrada eram bunda moles, bandido mesmo era o Brown, o Ndee Naldinho, os caras do Sistema Negro.
Mas, quando vi o Dugueto cantando um rap com uma qualidade muito próxima da dos caras da rádio, pensei que era com esse mano que eu tinha que ficar. E aí, pra aumentar essa mística, o Dugueto me apresentou pro Gato Preto. Aí o Gato Preto era o crime, era o rap, estava tocando na rádio… Foi quando descobri que o cara do rap não era necessariamente bandido, apesar de o Gato ser. O Gato virou meu professor, Dugueto também, tive acesso ao Don [L] nessa época, Costa a Costa chegou pra mim nessa época. Chegou o Clã Nordestino, todos esses bagulhos foda, políticos.
“Os caras eram muito políticos e comecei a andar com eles. Quando me levaram à Cooperifa, vi que não eram respeitados pela agressividade, mas pela poesia, pela intelectualidade. Até aí, achava que ser inteligente não era coisa pra nós. Inteligente era uma pessoa branca, de jaleco, um cientista, um professor. Cara do rap era corajoso. Aí me toquei que o Mano Brown era respeitado porque é inteligente pra caralho.”
O Gato Preto foi um cara muito importante na vida do Don, do DuGueto. Quando eu ia conhecê-lo, mataram ele. A gente tava fazendo o RPA3, ele ia se envolver, e Don sempre dizia que ele mandava uns áudios foda. E ele me mostrou aquele áudio dizendo: “Esse foi o último áudio que o Gato Preto me mandou”.
Aquele que tá em “Ferramentas”? Achei muito louco, fiquei muito feliz quando ouvi ele no final dessa música. Gato gostava do Don pra caralho.
De tudo que você está falando, nada é individual.
Tudo é uma roda de gente trocando ideia e uma criança virgem das ideias chegando ali e bebendo das ideias. Muitas vezes, não é nem você colocar nada na cabeça da pessoa, é você criar um ambiente, uma atmosfera. Eu participei da posse [de hip hop] Sindicato Urbano de Atitude (SUAT). Eu venho de posse, e lá tinha essa atmosfera de luta, de política. Ali, estavam sendo debatidos temas que ninguém debatia, na época, onde eu morava.
Quando eu li o Malcolm [X], eu virei outra pessoa.
Você sente uma diferença na organização entre quem veio e quem não veio de posses?
Sinto. É uma parada que tomo cuidado pra falar, pra não soar um reacionário. Mas eu sinto falta, tanto que tô tentando resgatar isso. Por exemplo: no bagulho do Borba Gato, 70% dos manos que estavam ali são de batalha de rap. [Obs: No dia 28 de julho de 2021, Galo foi preso por ser um dos autores do ato político que culminou no incêndio da estátua do bandeirante Borba Gato. Sua esposa, Gessica D’Paulla, também foi detida quando o casal foi voluntariamente prestar depoimento no 11º Distrito Policial de Santo Amaro, em São Paulo. Ambos passaram 14 dias presos. Durante esse período, viralizou nas redes sociais a hashtag #LiberdadeParaGalo e a pauta recebeu apoio de juristas, políticos, ativistas e artistas como Mano Brown, Criolo, Emicida, Rashid, Don L, Daniel Ganjaman e MC Hariel].
Na posse, não tem só o mano que canta o rap, é o mano que grafita, que é DJ. E, hoje em dia, tem beatmaker, quem faz foto, as artes visuais, poetas que participam de slams. Hoje, é mais amplo, eu, que sou um militante político, me insiro, faço a formação, os estudos de marxismo. O conhecimento já era um elemento, naquela época a gente já falava que rap do Brasil não é “Ritmo E Poesia” [referindo-se ao termo original em inglês, “Rhythm And Poetry”], é “Revolução Através das Palavras”. Teve uma época que ninguém queria fazer ritmo e poesia, pessoal só queria as ideias, parecia que eram mais importantes. Não acho isso, a musicalidade é importante também, Don faz isso muito bem.
Essa é uma lição do Racionais, não acha? Eles têm muita ideia e também fisgam pela música.
Isso. E o Racionais foi um dos grupos que mais lutou contra essa coisa reacionária que paira dentro do rap. Tinha época em que o rap era muito: “Não pode pintar o cabelo de amarelo”, “não pode rebolar, irmão''... E se você pegar os discos do Racionais, o primeiro é uma ideia; o segundo, outra. Eles nunca repetiram, a narrativa deles sempre foi evoluindo.
Toda vez que sai um disco, todo mundo primeiro fica meio assim, depois abraça. Dá dois anos, todo mundo copia.
Racionais é bom nisso. Os caras geram um choque.
Aquela do Sabotage: “Racionais passear no parque / 95 abalou, apavorou cidade”. Porque fica todo mundo naquelas: “É assim que faz agora?”. E o tempo todo, o que os caras tão falando é: “Não, mano. É assim que a gente faz”.
É sempre um evento. Tanto que, uma época, parecia que era obrigação engrossar a voz, usar touca e bigode. Você ligava a 105 e era isso. Nada Como Um Dia (2002) não tem nada a ver com Sobrevivendo no Inferno (1997), que não tem nada a ver com o Raio X (1993), que não tem nada a ver com o Cores e Valores (2014). Acho isso importante, caminhar pra frente.
Foi tua vivência que te fez tentar organizar os trabalhadores de aplicativo?
No começo, o que veio pra mim foi a consciência racial. O Gato perguntou: “Você é preto?”. Disse que não. Ele: “Então, você é o quê, branco? Igual o Reynaldo Gianecchini?”. “Não, o Gianecchini é um branco bonito, eu sou um branco feio”. “Branco feio, mano? Como assim?”. “É, ele é bonito, de televisão, eu sou da periferia, pobre”. “Mas por que sua boca é mais larga que a dele?”. “Ehh…”. “Por que seu nariz não é tão fino igual ao dele?” “Ehh…”. “Por que sua pele é um pouco mais escura que a dele? Então, você tá falando que, quanto mais se parecer comigo, mais feio você é? Seu pai é preto?”. “É”. “Sua família é preta? No seu bairro, a maioria é preta?”. “É”. “Você vive vida de preto, come comida de preto, mora no bairro de preto, canta rap, que é coisa de preto, tem isso no sangue, e tá falando isso por quê? Tá com vergonha? Você é preto! A gente precisa se unir. Talvez você não seja retinto igual a mim, e não vai passar pelas mesmas coisas que eu passo”.
Quando o Gato falou isso, eu me senti abraçado. Um moleque pardo, da periferia, quando começa a desenvolver esse barato de mundo…
Uma coisa é você estar no gueto. Não tem noção do mundo, abre a janela de casa e tá de cara pra uma parede. Não é um prédio, que você vê e sabe que o mundo é grande. Demora pra nós passarmos da ponte, só atravessamos quando vamos atrás de emprego, já com 15, 16, 17.
Quando comecei a estudar Malcom X, os Panteras Negras, Patrice Lumumba,Toussaint L'Ouverture, a história de Zumbi, Luiz Gama, virei muçulmano. Quando tive essa noção de mundo, senti necessidade de fazer parte de um povo.
Só fui ativar a consciência de classe quando eu virei motoboy. E não era tão forjada, fui entender os conceitos agora, faz uns dois anos. Mas o bagulho dos aplicativos era o absurdo do absurdo. Hoje, tenho noção de que raça e classe não são dois assuntos diferentes. No Brasil é a mesma fita.
Isso que o Gato fez contigo foi um luta histórica do movimento negro no Brasil, de fazer os pardos se reconhecerem como negros.
Gato era pra frente já, tanto ele como Dugueto. A gente era criança, tinha 14 anos, Gato já tinha uns 22, 23… Dugueto também. A consciência de classe foi no susto. Porque eu falei que a gente não era empreendedor, era força de trabalho, e aí veio um mundo inteiro me fazer um monte de perguntas. E eu sou um cara malandro, você me faz a pergunta, eu vou atrás. Fui e descobri essas paradas todas.
Por mais que o hip hop sempre estivesse ali, de forma indireta. O grupo que mais me trouxe consciência de classe, na época, era um só, o Clã Nordestino. O rap não usava as palavras gatilho, que acho importante não usar. “Luta de classes” era: “A gente não gosta dos boy”. Entendeu? “Sistema”, a gente era contra o Sistema, o que, hoje, eu acho problemático. O hip hop tem que andar pra frente. Não dá pra falar só isso. Do Sistema, os bolsonaristas também não gostam.
Como foi a parada do Islã? Sei que o Dugueto era envolvido.
Todo mundo estava lendo Malcolm, era a bíblia do rap. Dugueto apareceu com o Alcorão debaixo do braço. Quando foi ver, a gente estava andando numa banca cabulosa: eu, Lelê…
Trouxemos o Fred Hampton Jr. [ativista norte-americano, filho de Fred Hampton, um dos líderes do Partido dos Panteras Negras, morto em uma batida policial, em 1969] para cá. O Panteras Negras era outra bíblia. Foi a primeira vez que tive contato direto com o [Mano] Brown. Fiz a segurança dele e do Hampton Jr no palco na [ONG] Ação Educativa [em evento realizado no dia 19 de novembro de 2007].
O Islã foi o momento em que mais saí do gueto. Eu entrava em uma mesquita e, ali, tinha um argelino, um marroquino, um libanês, um inglês… Parecia o mundo inteiro naquela sala.
Já vi você falando que, quando começou a pensar em organizar os entregadores, teve muita resistência. Inclusive, conseguiu apoio primeiro entre o pessoal de bicicleta, que tem um ativismo mais antigo. Como foi e como está agora?
No começo, quando fui bloqueado, queria me vingar do app. Eu fui na porta da Globo, ninguém me ouviu. Aí, no Instagram, perguntei se alguém tinha contato de jornalista. Minha amiga Pamelloza Carvalho, que também é do rap, me passou contato do Jornalistas Livres e do The Intercept.
O mundo vai se ampliando. Olha como nós somos guetizados, acha que o único lugar pra fazer uma denúncia é na Globo. Os vídeos viralizaram, e fui atrás dos entregadores. Eu percebi que fazer essa luta sozinho não ia funcionar. Primeiro, fiz um abaixo-assinado. Rodou, deu outras mídias, mas os entregadores me falavam: “Você está humilhando a gente, está pedindo comida. Temos que ganhar melhor”.
Aí, eu me liguei que os caras não estavam se sentindo trabalhadores injustiçados, estavam se sentindo empreendedores. Você ouvir “vai pra Cuba” de um motoboy é o fim do mundo. Com o pessoal das bikes, o discurso pegou. Foi quando o Entregadores Antifascistas surgiu. Chegou a ter 350 pessoas em 11 estados, depois foi caindo. A palavra “antifascistas” atraiu muito mais entregadores que estavam na academia, que já eram comunistas ou anarquistas.
O Brasil é um problema organizado contra o moleque da periferia.
É louco, porque o cara da lógica empreendedora é politizado, mas jura que não, que são só os outros.
Isso acontece no rap também. A hora que o cara fala “pretos no topo”, ele também não está na lógica de empreendedor? Lógica liberal? Tá politizado e não sabe. Acontece em tudo que é lugar.
Tem um pessoal iludido achando que o cooperativismo é a solução, e realmente é uma ferramenta foda. Mas tem que estudar, e todas [cooperativas] aqui no Brasil tiveram problema. A gente teve a Flaskô, interior de São Paulo, que era foda, era pra ter sido um soviete brasileiro. Teve cooperativas de leite, foram pro saco. Porque é uma lógica anticapitalista dentro do capitalismo.
Acredito mais em colocar o capitalismo contra o capitalismo. Muita gente deve fazer cara de nojo pra isso. “Como você vai apresentar uma alternativa se ela tá cercada? Vai virar uma ilha e ser esmagada”. Tento estudar a configuração. Por exemplo, o moleque de uma quebrada compra uma moto. Antes disso, ninguém sabe o nome dele, e então ele vira o “João da Hornet”. O cara está apegado à Hornet ou ao João? Se ele estivesse apegado à moto, ele ia fazer ela correr. Mas ele tá apegado ao nome, a moto fez ele existir na quebrada. Ele tira o capacete, fica sem camisa…
O capitalismo não é autossustentável, ele precisa subtrair coisas. Você tem que colocar coisas que o capitalismo não digere direito. Hoje, meu maior norte são as cooperativas do MST. Mas uma cooperativa dos entregadores, pra funcionar, precisa antes da consciência de classe dos trabalhadores. Se não, não vai superar uma fase crucial, que é da autoexploração consciente, quando a cooperativa fica mal das pernas e o pessoal entende que é luta.
Fazer um aplicativo nosso pra bater de frente com o mercado? Os caras cheios de gordura. O hipster da Vila Madalena fala: “Ah, eu acredito na proposta dos Entregadores Antifascistas”. O aplicativo vai lá, coloca cerveja artesanal a R$1, aí já era, acabou, irmão. Quem é o garoto-propaganda da iFood? O Gil do Vigor. Por quê? Porque a esquerda ama o cara.
Acredito hoje muito mais em uma empresa de anti-marketing do que em um aplicativo.
Não que o app não seja importante, vamos fazer essa caminhada. Mas fazer, antes, comerciais contra o iFood. Se eles vão lá e colocam o entregador pedalando, na chuva, em um comercial preto e branco, a gente acredita no comercial verdadeiro: colocar uma criança trabalhando no aplicativo.
No iFood, tem níveis do um ao quatro. O cliente que pontua. No nosso, ele vai passar pro nível dois se participar das assembléias. Pro três, são assembléias e os breques. Pro quatro assembléias, breques e cursos de marxismo. Aí, começa a ganhar capacete, troca de óleo. “Mas isso não é esfolar o cara?”. É, mas não tem outro jeito. É colocar o capitalismo contra o próprio capitalismo.
Todo mundo que tá organizado tem tarefas.
É isso. O MTST tem os pontinhos, e é isso.
Racionais colocou você no palco deles, no dia 14 de dezembro de 2021, na live que fizeram em projeto em parceria com o YouTube Music e Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Vocês cantaram “Vida Loka Pt. 2” juntos. O que você acha que eles quiseram dizer com isso?
Em um primeiro momento, não consegui entender e nem acreditar. E até hoje, quando eu penso em mim, olho e fico desconfiado em acreditar que foi comigo, de tão foda que é. Mas, analisando de forma mais madura, consegui entender que aquilo era o Racionais sendo o Racionais, dizendo: “Periferia, vocês estão de parabéns, parça. Tanto tempo passou e ainda estamos de olho em vocês. Tá vendo o que o Galo fez? Foi lá, queimou a estátua, tomou cadeia. É isso aí, sentimos orgulho de vocês”.
Basicamente, era um recado deles pra periferia. Longe de mim querer ser representante da periferia, que é muito pra mim, mas foi um recado para os jovens da periferia. Por que eu descolei isso? Porque foi mais de um que chegou em mim falando: “Caralho, parecia que era eu cantando lá, truta! Fiquei emocionado, chorei”. E vagabundo, pra falar que chorou, é foda.
Sobre o episódio do Borba Gato, antes de saber que era você, achei uma ação de grande imaginação, uma ação de criatividade, acima de tudo. Me fala de futuro.
Então, pra nós aquele barato é arte. Muitas pessoas não veem assim porque não foi o Banksy quem fez, eu enxergo. O Brown me ensinou isso, vi ele falando: “O rap é a arte do blefe. O que nós temos? Magrelo, fraco, da periferia, o que a gente podia fazer contra o Sistema se não blefar? E funcionou! O próprio Sistema acreditou que a gente tinha um bagulho na mão”.
Fico imaginando o que acontece no coração do moleque de 14 anos de idade, que tá curtindo um rap agora, escuta música do Djonga que fala “fogo nos racistas”, mas não se aprofunda. Uma coisa é escutar uma frase de impacto, outra é se aprofundar nesse impacto. Malcom X, Gandhi, Lennon, Marvin Gaye, eu queria saber quem eram os manos. E o moleque que talvez esteja na superfície e veja uma fita dessa, certeza que a primeira reação é: “Por que que o mano fez isso? A esposa do mano foi presa! Deixa eu entender”. Aí, vai descobrir. Garanto que qualquer moleque da periferia que for atrás de descobrir quem foi o Borba Gato não para só nele.
Ele vai descobrir que o Brasil é um problema organizado contra ele. E aí, só o futuro vai poder dizer o que ele vai ser.