
Câmeras analógicas, livros físicos e iPods. A Geração Z — pessoas nascidas entre os anos de 1997 e 2010 — tem redescoberto algumas maneiras de desempenhar algumas atividades cotidianas longe do celular. Se por um lado essa parcela da sociedade já nasceu conectada à internet, por outro, o interesse cada vez mais crescente em aparelhos analógicos é uma tendência.
Um exemplo disso é a alta procura pela revenda de iPods. O aparelho, que tem como premissa básica e principal reproduzir música, tem voltado a ser um desejo para muitas pessoas e pode ser encontrado em suas variações por valores que variam entre R$190, 00 a R$800,00. Alguns modelos chegam a ultrapassar a faixa de R$1000,00.
A ideia de um aparelho que possa ser usado para ouvir música sem a interrupção de propagandas ou a interferência de algum algoritmo já foi captada pelo mercado, a exemplo da Meadow, empresa estadunidense que desenvolve gadgets minimalistas. Anunciado como “o primeiro dispositivo projetado para viver o momento presente”, o celular da marca, pode reproduzir músicas em streaming, mas não permite o uso de redes sociais ou navegação na internet.
O cantor e compositor Bruno Berle vendeu seu álbum mais recente em aparelhos de MP3. Ao anunciar a novidade, o artista escreveu em uma publicação no Instagram que o projeto estava sendo feito para ser curtido “fora do telefone” e o processo criativo não levava em conta as expectativas do mercado.
Outro exemplo disso foi a maneira como a cantora e compositora filipina-britânica Beabadoobee (lê-se "Bi-ba-du-bi") encontrou para mostrar aos fãs a canção “The Sun Is Set”. A artista enviou iPod Shuffles, o modelo mais minimalista do aparelho, que não conta nem com uma tela, com o arquivo.
Em conversa com a Noize, a analista de tendências e fundadora da Dezon, Iza Dezon explicou que tendências não brotam do nada. “A nostalgia como comportamento, é cíclica e, geralmente, está olhando uns 20 anos, duas gerações para trás.” A especialista entende que isso está também conectado a quem está ocupando cadeiras decisionais em determinados momentos.
Apesar de uma parcela significativa da GenZ não ter tido contato com aparelhos como iPods e câmeras analógicas ou digitais de primeira geração, o interesse por esses aparelhos tem se mostrado cada vez maior e Iza entende que podemos olhar para essa questão de duas maneiras.
“A nível de pragmatismo, essas crianças estão sendo bem instruídas a não usarem smartphone”, diz. “Então elas querem uma câmera, ou elas querem um iPod, ou um vinil, ou elas uma cassete.” Ela usa como exemplo a lei aprovada no Reino Unido que proíbe o uso autônomo das plataformas de redes sociais (Instagram, TikTok, YouTube, Facebook e X, antigo Twitter) para menores de 16 anos, com exceção de aplicativos de mensagens como WhatsApp e Signal.
Em segundo lugar, temos uma geração que conversa sobre saúde mental de outra maneira, explica a especialista. “A Geração Z abre portas para a Geração Alfa, falar sobre isso de outra forma, trazer isso como um assunto, uma pauta em letra de música, de um jeito menos velado.”
Minhas músicas, minhas regras
Se por um lado o algoritmo nos recomenda artistas similares aos que já conhecemos, ouvir canções sem estar condicionado a isso, dá total controle para o ouvinte. Esse também é um aspecto que pode ser atrativo para a GenZ.
Um exemplo disso foi o presente que o músico Questlove deu à Blue Ivy, filha de Jay-Z e Beyoncé, um iPod.
“O Questlove deu à Blue Ivy um iPod para, de acordo com ele, ampliar o gênero musical que ela escuta, para ela não ficar condicionada ao algoritmo”.
A analista reflete sobre como a criação de playlists em aparelhos desta natureza dá uma sensação de autoagenciamento sem a interferência, além da vantagem de não ser interrompida por propagandas ou não precisar pagar por uma mensalidade para que essa interrupção não aconteça.
Smartphone, o cigarro da próxima geração
Se as campanhas pelo antitabagismo abriu os olhos para os malefícios do cigarro e contribuiu para a diminuição do uso de tabaco em outras gerações, o celular pode ser o novo alvo de propagandas de conscientização. “a gente fumava no avião, no consultório médico, dentro da faculdade,” reflete Iza, que entende que as camadas mais jovens devem ser mais criteriosas em relação ao uso dos aparelhos.
Nesse sentido, a clássica vinheta da saudosa MTV Brasil "desligue a TV e vá ler um livro", pode ser adaptada para algo como “saia da internet e vá escutar música”.
Artistas como a islandesa Björk incentivam que seus fãs deixem o celular de lado para apreciar seu show e, mais recentemente, a estadunidense Phoebe Bridgers implementou uma medida mais radical: o uso de bolsas com travas magnéticas para proibir o uso dos aparelhos durante uma apresentação em Nova Iorque.
Nas próprias redes sociais, conteúdos que incentivam atividades fora do universo digital têm sido cada vez mais exibidos, como clubes de leitura, artesanatos e afins. Iza Dezon entende que esse tipo de iniciativa está diretamente ligada ao cuidado com a saúde mental e ao tão falado detox digital.
“Acho isso muito interessante da gente pensar que é possível ter contato com música, oferecer música para as novas gerações sem necessariamente ter os malefícios dessa hiperconexão, que a gente já sabe comprovadamente, que está deixando os jovens infelizes, deprimidos, se comparando demais, com questões de autoestima, de consumo”, finaliza.





