
Lançado em 2004, Isso Vai Dar Repercussão marca o encontro entre a poesia crua de Itamar Assumpção e a arquitetura percussiva de Naná Vasconcelos. Gestado nos últimos anos de vida de Itamar e concluído após o seu falecimento, em 2003, o álbum ganhou edição em vinil em 2022, pelo Noize Record Club.
A produção musical ficou a cargo do baixista Paulo LePetit, parceiro de longa data na banda Isca de Polícia. Entre violões, batuques, sambas e xotes, Paulo LePetit detalha os bastidores de gravação e compartilha as memórias que deram forma a faixa por faixa do álbum:
"Leonor"
Foi a primeira música que trabalhamos. É a que mais teve a convivência das pessoas, porque estava aquele clima de festa, o Naná colocou a galera para participar com as palmas. Ele orientou as cantoras - Tata Fernandes, Vange Milliet e Claudia Missura - a como gravarem e foi realmente uma festa dentro do estúdio.
A “Leonor” é uma reunião de sambas. Dentro dela, tem samba de roda, samba afro, maxixe e chorinho. Nessa junção da sonoridade do Naná com o Itamar fica difícil você separar o que é reggae, o que é rock, é uma mistura. Mesmo quando há uma tendência maior é uma mistura de várias coisas. Acho que ela é a mais popular do disco, o Itamar sempre disse que era um compositor popular, mas um popular sofisticado não é para qualquer um. Essa música me lembra o Adoniran Barbosa, parece que poderia ter sido feita por ele. Seria bacana se os Demônios da Garoa gravarem essa faixa, ficaria um resultado bem curioso.
"Cabelo Duro"
Como disse sobre a questão da mistura, nenhuma faixa tem uma coisa pura. É curioso que o Itamar não sugeriu que essa música fosse um xote, mas o Naná enxergou isso nela. Aliás, nesse processo, o Itamar nunca deu sugestão, deixava o Naná livre para criar durante as gravações.
Então, “Cabelo Duro” saiu com essa essência de xote, mas um bem esquisito, no melhor sentido da palavra. Lembrei que ela me causou uma grande saia justa. Tem um parte que é cantada pelo Naná (“sushi com chuchu misturo/quibebe com raviole/chopp claro com escuro/empada com rocambole”) que entrou no disco porque o Pro Tools deu um bug e sumiu com a gravação do Itamar cantando esse pedaço. A gente teve que encontrar a letra, e eu pensei em chamar a Zélia Duncan para gravar, porque além de grande fã, ela divulgou muito o trabalho do Itamar, tanto que ela participou dos shows de lançamento desse álbum. Quando eu falei para o Naná, ele disse que achava que ele deveria cantar a parte perdida e, claro, fazia todo o sentido. Acabou que eu desconvidei a Zélia, que ficou um pouco chateada, mas entendeu a situação.
"Na Próxima Encarnação"
Aqui a gente começa a entrar nas faixas que foram desenvolvidas mais separadamente. Tínhamos esse processo: o Itamar gravava primeiro a voz e violão, depois o Naná cobria com as percussões, mas eu só fui trabalhar nas músicas depois da morte do Itamar. Eu não tenho grandes lembranças dela exatamente, mas me parece um epitáfio bem-humorado. Tem um verso pequeno que parece uma humildade que o Itamar não tinha em relação ao trabalho dele, em que ele fala que não queria ser “replay de formiga” e sim “nascer cigarra, Tom Zé, Jamelão”. Eu acho que é uma brincadeira porque ele foi uma grande cigarra, e com certeza um Tom Zé, um Jamelão, um Duke Ellington.
Tem frases muito boas que eles diziam no estúdio e que foram parar no encarte do disco. Tem uma do Itamar, por exemplo, que ele dizia: “Minhas estrofes são coloridas”. Fiquei pensando que elas são coloridas, mas também são muito pretas e brancas, sem enrolação, são diretas. Em quatro versos ele mata, não fica se estendendo, dando voltas, assim como o Naná na percussão, que fazia o essencial e dizia que não precisava de mais do que aquilo.
"Fim de Festa"
É outra nesse sentido de ser direta. Para mim, é uma das músicas românticas mais sintéticas de todos os tempos. Diz tudo em quatro versos, parece o pé na bunda mais elegante que já ouvi. Tem essa coisa de: “acabou, mas espera o dia amanhecer, não precisa ir embora já”. É muito concisa. O meu arranjo foi o que chamei de “orquestra sampler”, tem cello, oboé, mas tudo feito no sampler do teclado. Eu considero o melhor arranjo que eu já fiz, porque é muito delicado, sutil, e só entra a partir de um determinado momento, tenho muito carinho por ela. A percussão do Naná também é interessante porque é praticamente feita só com a voz percussiva, que era uma característica muito forte na obra dele. Ele inventava uns sons com a boca, que acabam sendo cantáveis, quase como um solo do George Harrison, é muito definitivo.
"Justo Você Berenice"
Um samba ancestral, principalmente por causa dos instrumentos que o Naná usou. Era uma panelaria, ele botava várias panelas e penicos no chão. Ele usou isso em muitos trabalhos e gostava sempre de falar sobre, porque é completamente fora do comum. Ele espalhava tudo pelo chão e taca-lhe pau. Acho que deu uma liga ali, fiz um groove mais funkeado para combinar com as frases dissonantes do trombone do Bocato. Há uma levada quase pop, mesmo sem a bateria tradicional.
"Aculturado"
É uma descrição bem matadora do brasileiro, bem ácida. Fui pesquisar esse termo, a gente fica com essa sensação de que “aculturado” seria o contrário de “culturado”, mas não é. Aculturado é o cara que sofre uma influência de uma outra cultura e incorpora isso, porque quem não tem cultura é o “desaculturado”. O que o Itamar está dizendo é que o brasileiro tem influências de sírio, árabe, de todo o mundo. Isso resume essa coisa dos dois tocando juntos, é o que Naná falou: “O som dos dois foi modificado pelo som dos dois”. Cada um foi aculturado pelo outro, sofreu a influência do outro e se modificou. O Bocato pegou esse espírito, colocou uma citação de “Aquarela do Brasil”, que também descreve o brasileiro, ainda mais agora que o brasileiro está culturalmente confuso. Tem também uma levada pop que o Naná fez, parece uma bateria moderna, mas na verdade eram os instrumentos dele, o jeito dele fazer uma levada de bateria com a percussão.
"Assim Naná Ensina"
No começo, o Naná ficou até meio constrangido de tocar em uma música em homenagem a ele mesmo. Mas depois ele entendeu a coisa e fez exatamente o que o Itamar estava falando na letra, aquilo é uma aula de como fazer, sem a pretensão de ensinar. É uma puta construção de percussão, ele vai colocando elementos, editando na cabeça dele e já sabe a partir de onde ele precisa entrar com outro elemento. Uma aula de como ser criativo sem apelar para o virtuosismo.
O Naná não procurava isso, ele era virtuoso nessa construção, no simples. Sendo o mais simples possível ele virava um virtuose da simplicidade. Tem uma curiosidade: todo mundo acha que ele fala “acabou”, mas muitos anos depois, quando estávamos fazendo o disco Café No Bule (2015), ele me contou que na verdade diz “atábo”, uma palavra de origem africana. A sonoridade de “acabou” ficou perfeita, mas o Naná não sabia que seria a última música. Na gravação, eu chamei a Anelis Assumpção, que também participou dos shows de lançamento. É interessante que o disco começa e termina da mesma forma: com os dois tocando. Os outros instrumentos aparecem depois, no final está só o violão do Itamar e os caxixis do Naná, então passa essa sensação, de começo e fim.








