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Jamah: do The Voice aos grandes palcos com Emicida e Jão


Por:

Damy Coelho

Fotos: Gustavo Paes/Divulgação

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A trajetória de Jamah guarda pontos de contato com a história de diversas vozes centrais da música preta brasileira. Criada em um lar humilde na periferia paulista, a cantora teve o primeiro contato com a arte dentro da igreja evangélica, onde o canto, inicialmente encarado como chamamento religioso, transformou-se em vocação e profissão.

Com o passar dos anos, o ecossistema sacro abriu espaço para o fascínio pelo hip-hop, pelo soul e pelo R&B contemporâneo. Em 2014, a artista integrou a banda do programa Altas Horas, da TV Globo. Como backing vocal, emprestou a extensão de seu alcance vocal a nomes centrais do mercado fonográfico, dividindo palcos com Matuê, Jão — na grandiosa Superturnê — e Emicida, com quem colabora de forma contínua desde o registro audiovisual 10 Anos de Triunfo (2018).

Paralelamente às grandes estruturas de turnê, Jamah testou sua versatilidade no reality show The Voice Brasil, onde integrou o time do sambista Péricles. Toda essa bagagem acumulada no backstage e no estúdio agora converge para o seu momento solo com o projeto Jamah Jam Rádio, onde interpreta releituras de clássicos de Arlindo Cruz e Elis Regina, enquanto arquiteta o lançamento de seu primeiro repertório 100% autoral.

Abaixo, a cantora reflete sobre suas origens, as lições do canto de apoio e o poder libertador da música.

Como nasce sua relação com a música?

Cantar é minha vida. Nasci em uma família muito humilde. Minha mãe é branca, meu pai era negro e tocava violão de ouvido, então nunca vi minha casa sem música. Meus pais eram muito religiosos e nos criaram dentro da igreja evangélica, onde aprendi a cantar. Minha mãe tocava violão, minha irmã mais velha tocava violino e meu irmão, bateria. Quando eu era bebê e não tinha com quem ficar, minha mãe me levava para os ensaios e me colocava debaixo da cadeira enquanto tocava na orquestra. A música sempre me salvou. Era onde eu me entendia e conseguia me ver como um ser dotado de uma habilidade.

Se você pudesse escolher um disco ou obra como divisor de águas na sua inspiração para o canto, qual seria?

A trilha sonora do filme Mudança de Hábito (1992). Como fui criada num reduto evangélico, não tinha muito contato com a música popular brasileira. Toda vez que cantarolava algo que não fosse religioso — como Djavan, Gilberto Gil ou trilhas de novela —, era repreendida. Por isso, comecei a me interessar por música internacional, porque ninguém em casa entendia as letras. Quando assisti ao filme com meus irmãos mais velhos — que estavam montando um coral na igreja —, aquilo me despertou uma curiosidade enorme ao ver jovens negros cantando lindamente em uma escola de freiras. Pedi ao meu pai para gravar uma fita cassete com a trilha e ouvia todos os dias. Foi ali que conheci Lauryn Hill, por exemplo. Aquilo me inspirou a querer ser como aquelas pessoas.

Como foi a sua experiência no The Voice Brasil?

O mais difícil foi encarar o desconhecido nos bastidores e aprender a lidar com toda aquela estrutura. Eu já estava acostumada com o palco e com o público, mas o ambiente de competição é diferente. No fim, me relacionei muito bem com todos, conhecendo artistas talentosos de diversas culturas. Estar exposta para o Brasil e colocar minha arte à prova foi um complemento maravilhoso. Mesmo não sendo a vencedora, saí de lá reconhecida como a Jamah artista e cantora. Esse respaldo do público foi um fruto muito positivo.

Foto da Jamah

Você é uma cantora que construiu uma carreira sólida como backing vocal. O que um artista precisa ter em mente ao exercer esse papel no palco?

O bom senso é o ponto principal ao acompanhar o trabalho de outro artista. É preciso entender que você não deve tentar sobressair ou querer ser mais artista do que quem está à frente do projeto. É um exercício de companheirismo e coletividade: você abraça a visão do outro porque ele é a peça central. Claro que há espaço para contribuições; em um ensaio, pode surgir uma ideia harmônica que parte de você. Mas o essencial é somar com sua identidade sem perder o respeito pelo conjunto. Quando a equipe está na mesma sintonia há muito tempo, vira um corpo só, e o espetáculo acontece de forma poética e natural.

Sua trajetória como backing vocal passa pelo rap, pelo samba e pelo pop de arena. Qual é o segredo para manter essa versatilidade?

Tive grandes professores ao longo da caminhada. Minha irmã, Abgail, foi uma das minhas primeiras inspirações; ela tinha um ouvido apuradíssimo para harmonias e afinação. Minha mãe sempre me cobrava dicção e articulação para que a mensagem da letra não se perdesse. No mercado, cantar em jingles me ensinou a usar a voz de forma mais limpa, e a experiência em bandas de baile foi uma escola gigante de adaptação de timbres. No hip-hop, você precisa transitar entre a doçura e a firmeza no tom. Quando recebi o convite para a Superturnê (2024-2025), do Jão, achei um desafio por ser uma estética distante do meu universo habitual, mas encarei como aprendizado. Cada projeto e cada artista com quem trabalho deixam algo que me faz evoluir.

Por:

Damy Coelho

Fotos: Gustavo Paes/Divulgação

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