
Vida e encenação se entrelaçam com naturalidade no trabalho da multi-artista mineira Josiane Lopes da Silva, conhecida artisticamente como Josy.Anne. Nascida no bairro Goiânia, em Belo Horizonte, e hoje radicada na capital paulista, a cantora e compositora acumula duas décadas de estrada conectando música, corpo e artes cênicas. O apelido que ganhou nas coxias de teatro, Mozamba (2022) — uma referência direta às tradições de Moçambique —, batizou seu elogiado álbum de estreia.
Sua pesquisa dedica-se às tradições da música afro-mineira, com foco nos ritmos do Congado, manifestação também conhecida como Reinado. “Criei personagens para apresentar o território da diáspora africana. A música afro-mineira é tão importante quanto a baiana, a maranhense e a recifense. Ela existe há muito tempo e eu sou só mais um braço dessa tradição”, reflete. Durante o desenvolvimento do repertório, em diálogo com a diretora artística Maré de Matos, a artista estruturou seu conceito a partir do que batizou de "negra ressonância mineira", trazendo para o centro elementos simbólicos como o tambor, o bastão e o chapéu de reinadeiro. “A negritude mineira tem muitas reverberações e ressonâncias, não há apenas um tipo. A gente precisa ter espaço para apresentar o que somos”, pontua.
Com apoio do Fundo Municipal de Cultura, Josy.Anne buscou compreender o Congado sob a ótica feminina, estabelecendo trocas com lideranças tradicionais como a Capitã Pedrina de Lourdes, do Reinado de Leonídios, em Oliveira (MG). Esse mergulho guiou a concepção de uma trilogia dedicada à ancestralidade afro-diaspórica. A continuidade dessa jornada materializa-se no álbum Bateia, produzido em parceria com Curumim. “A bateia é um instrumento chamado de patangome no Congado, mas também uma ferramenta usada para tirar ouro da mina. O segundo disco é mais dançante e parte do desejo de refletir poeticamente e empiricamente sobre esse símbolo”, explica.

Antes de se consolidar na percussão, o primeiro instrumento de Josy.Anne foi a própria voz, exercitada ainda na juventude no coral do Sesi Minas, onde moldou a escuta em meio a um repertório barroco e clássico em alemão e francês. Na mesma época, ingressou no projeto Tambor Mineiro, idealizado por Maurício Tizumba. Ao lado de Júlia Tizumba, fez sua estreia nos palcos em 2008 ao integrar o elenco do espetáculo O Negro, a Flor e o Rosário, permanecendo em cartaz por quatro anos enquanto dividia a rotina entre o trabalho como trancista e os estudos no Teatro Universitário da UFMG.
Foi no ambiente acadêmico e na vivência teatral que a compositora refinou sua consciência artística e política. “O teatro me ensinou a falar sobre mim, saber de onde eu vim e quem eu era. Ele veio me sustentando, me dando régua e compasso da vida”, afirma. Enxergando o palco e o estúdio como linguagens complementares, essa versatilidade abriu portas para papéis de destaque em grandes montagens do circuito comercial brasileiro, com passagens pelos musicais O Rei Leão (2013), Mudança de Hábito (2015) e Ghost (2016). “Foi uma experiência importante para ter entendimento do meu corpo. Musical é a arte da repetição, então foi assim que consegui ter domínio do meu corpo e da minha voz”, finaliza.





