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Jéssica Falchi lança EP solo e fala sobre inspirar meninas a tocar guitarra


Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação/César Ovalle

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Não é exagero dizer que Jéssica Falchi é uma das maiores guitarristas da atualidade. Seu talento é reconhecido internacionalmente — um vídeo dela tocando "One", do Metallica, chegou até a banda, que republicou em suas redes sociais, além de ela ter participado de um show do Tool, convidada pessoalmente pelo guitarrista, Adam Jones (só para citar alguns exemplos).

Após passar pelo Crypta, banda feminina expoente do death metal, Jéssica agora alça novos voos. Resolveu explorar outros estilos ainda no espectro do metal e investir num projeto próprio e instrumental, batizado de Falchi. O primeiro EP, Solace, foi lançado em janeiro.

Ser protagonista da própria carreira — que agora leva seu sobrenome — aumenta a responsabilidade, mas Jéssica sabe onde está pisando. Sua trajetória não começou ontem: teve início ainda na pré-adolescência, quando ouviu pela primeira vez Steve Vai e Joe Satriani, apresentados pelo seu professor de guitarra, e decidiu que seguiria a carreira dos ídolos.

Hoje, aos 31 anos, pavimentou seu caminho no metal e segue inspirando outras meninas. É patrocinada pela marca de guitarras ESP, reconhecida e respeitada no meio musical. Tudo isso mostra a segurança ao entregar o primeiro projeto solo, que transita fácil entre o death metal e a psicodelia. Ainda conta com o guitarrista Aaron Marshal (Intervals) solando com ela na faixa "Sweetchasm" Pt. 1.

Ainda assim, ela não anda só: na nova banda, divide o palco com João Pedro Castro no baixo e Luigi Paraventi na bateria. A estreia do power trio nos palcos será abrindo para o Katatonia, no dia 21 de março, em São Paulo [saiba mais abaixo].

Batemos um papo com Jéssica sobre a versatilidade do Solace — as faixas foram concebidas com identidades visuais e cores distintas, inspiradas na fauna brasileira —, sobre a influência dela para outras meninas — ponto que a emociona muito, já que ela mesma não teve tantas referências femininas no início da carreira — e as expectativas para os novos rumos da carreira. Horas depois da nossa conversa, ela já embarcaria para os Estados Unidos como convidada da NANN, a maior feira da indústria musical. É o primeiro passo de um ano de recomeços para a instrumentista.

Esse projeto solo marca um novo momento da sua carreira. Sempre foi um desejo ter um projeto próprio ou isso foi acontecendo aos poucos?

Na verdade, nunca foi uma ambição minha ter um projeto com o meu nome, ou algo assim. Tanto que não é “Jéssica Falchi”, é só Falchi, justamente para que as pessoas que não me conhecem associem o nome à banda...

As coisas foram acontecendo de forma muito natural. No ano passado, quando eu estava na NANN, um dos meus patrocinadores me convidou para gravar um episódio do podcast deles. Eu precisava apresentar uma música, tinha só uma demo, e comentei isso com um amigo guitarrista, o Jean [Patton]. Ele disse: “vamos, eu te ajudo!” e a gente começou a finalizar essa faixa juntos. Ele assinou a produção.

No fim, acabei nem participando do podcast [risos] porque surgiu um convite para tocar com o Tool [no Lollapalooza Brasil do ano passado], mas o processo foi tão legal que decidimos seguir compondo. Uma música virou quatro, e aí nasceu o EP. Começamos a pensar em quem ia somar na mixagem, na masterização, os músicos. Quando vi, o projeto já estava acontecendo.

E estamos aqui hoje, sabe? Também pensei, é o meu primeiro trabalho, sei lá, já tô velha [risos], tenho 31 anos. Não vou fazer um negócio mais ou menos, quero fazer o melhor possível, porque, querendo ou não, o projeto leva meu sobrenome.

Falando no Tool, como foi o convite pra tocar com eles? Aconteceu tudo muito rápido, né?

Foi bem inesperado! Eu já tinha contato com o Adam Jones pelo Instagram — a gente se conheceu após um show em que ele ficou do meu lado, fez vídeos, comentou da minha guitarra. Aí, a gente manteve contato.

No ano passado, nos encontramos e ele comentou que teria um show pequeno do Tool dois dias depois, perguntou se a gente queria ir. Fomos, encontramos ele no backstage, e a conversa foi fluindo. Ele disse que eu precisava conhecer a família dele, a esposa, os filhos. Me chamou pra almoçar na casa dele… eu brinquei: "peraí, deixa eu ver na minha agenda [risos].

Nesse almoço, ele comentou que o Tool ia tocar no Brasil e disse que seria legal se eu tocasse com eles. Eu fiquei, “ah, tá bom” [risos]. Achei que fosse da boca pra fora, né? Mas depois ele mandou mensagem de verdade — e não só para tocar, mas para fazer um solo antes do solo dele. Foi a maior pressão.

E eu fui toda inocente, pensei: será que vou na van com eles? [risos]. Do nada, um carro blindado buscou a gente no hotel [risos]. É uma realidade totalmente diferente, né? Eu senti que ele quis me passar essa experiência.

No dia, foi tudo muito intenso. Quinze minutos antes de entrar no palco, ele ainda sugeriu que eu dobrasse o solo dele. Pensei, fodeu [risos], tenho 15 minutos pra tirar esse solo e ainda dobrar! Fiz tudo ali, no celular, em cima da hora. Estava muito nervosa, mas quando comecei a tocar, tudo desapareceu. Mal vi a multidão na minha frente. Foi aquele momento de certeza de que é isso que eu amo fazer.

Legal demais! E, sobre o EP, ele tem um conceito quase sinestésico, porque cada música tem uma cor, um estilo. Queria entender como foi essa “viagem” [risos] enquanto vocês estavam no processo criativo.

Como é meu primeiro trabalho, queria que cada música representasse uma vertente diferente das coisas que eu gosto. O rock e o metal são universos muito amplos, né? Com muitos subgêneros. E eu sempre ouvi coisas bem diferentes nisso tudo.

Por isso, as músicas são bem diferentes entre si. A primeira tem um pezinho no metal mais moderno, com breakdown. A segunda já é uma vibe mais progressiva, porque eu gosto muito de Pink Floyd — o David Gilmour é uma grande referência pra mim — e eu sentia que as pessoas não me associavam a esse tipo de som, já que meu último trabalho foi numa banda de death metal. Quis mostrar esse outro lado, mais calmo, com timbres menos saturados, mais viajado.

A terceira, “Suicide Squad Part 2”, é um thrash metal, algo que muita gente esperava, porque me associa muito a esse estilo. Achei interessante a ordem do lançamento, porque ela veio depois, foi uma coisa tipo: “caramba, ela realmente lançou um trash metal!” [risos].

A quarta faixa volta para uma vibe mais progressiva, com referências mais modernas. No fim, cada música acaba mostrando uma faceta diferente minha.

Você disse que o EP tem referências brasileiras. Quais são suas principais influências?

Poxa, sim! Eu cresci ouvindo música brasileira. Roupa Nova marcou muito a minha infância, porque minha mãe ouvia bastante. Depois, mais velha, passei a ouvir muito Nando Reis, acompanhei shows, gosto muito do trabalho dele.

Essa influência aparece de forma sutil, em pequenas passagens sonoras, mas também no visual. Na capa, por exemplo, tem animais brasileiros.

Eu queria que tivesse essa presença do Brasil como uma forma de levar a nossa cultura para quem estiver ouvindo lá fora. No metal, as pessoas olham muito para o que o Brasil faz, então, acho importante carregar essas referências. É uma forma de dizer: “isso aqui é a nossa casa”.

Você lembra da primeira vez em que se sentiu representada ao ver uma mulher tocando guitarra?

Eu comecei a tocar guitarra muito por influência do meu professor. Na minha família, só meu avô tocava violão, era autodidata. Minhas referências vinham muito das aulas e das revistas da época.

Lembro muito bem quando meu professor me apresentou a Orianthi [guitarrista australiana]. Ela tinha uma guitarra signature da PRS, vermelha, cheia de glitter — aquilo me marcou demais. Foi a primeira mulher guitarrista que realmente me chamou atenção.

Mas não era um lance de “ela é mulher, então me representa”. Era mais no sentido de: ela estava ali no mesmo nível que qualquer outro guitarrista que eu admirava. Sempre coloquei todo mundo no mesmo pacote.

Hoje você virou referência para outras meninas e jovens guitarristas. Como é lidar com isso?

Isso é um negócio que me pega, me emociona demais. Não tem dinheiro que pague. Esses dias repostei um vídeo de duas meninas tocando uma música minha e pensei: “isso é muito maior do que qualquer coisa”. [Nessa hora, Jessica se emociona].

Às vezes a gente está no show preocupada com retorno som, problemas técnicos, e, no final, vem um pai dizer que a filha começou a fazer aula de guitarra por sua causa. Isso muda tudo. É maior do que qualquer dificuldade. Eu fico muito, muito feliz com isso.

Para fechar: o que o público pode esperar dos shows do EP?

Ainda não temos uma turnê fechada, mas temos mais datas para anunciar. Estamos muito felizes em abrir o show da Katatonia no Cine Joia, uma banda que eu admiro muito.

Já começamos os ensaios, vamos tocar o EP na íntegra e queremos tocar bastante este ano. Ano passado participamos do Amplifica Fest, foi nossa primeira vez ao vivo, e agora a ideia é colocar o projeto na estrada, pegar estrada, ônibus, tudo.

É perrengue, né? Mas é o perrengue que a gente ama.

Katatonia em SP - abertura com Falchi

21 de março, 18h

Cine Joia - Praça Carlos Gomes, 82, São Paulo (SP)

Ingressos aqui

Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação/César Ovalle

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