
Camaleônica, Letrux gosta de se reinventar trabalho a trabalho. O mesmo acontece em SadSexySillySongs (2026), primeiro álbum pensado a partir de uma lógica mais crua, centrada na voz e no violão. “Depois de tantos discos com muitas camadas sonoras, tive o desejo de fazer uma coisa mais minimalista mesmo”, explica, em entrevista à Noize.
Mas o minimalismo aqui não significa simplicidade. O disco nasce de um jogo conceitual — triste, sexy e bobo — que, segundo ela, também funciona como um espelho da própria personalidade. “Eu sou uma pessoa triste, mas também sou engraçada, também sou sexy… eu sou tudo isso. Acho que existe uma unidade das coisas, uma harmonia”, reflete.
Essa ideia de mistura atravessa todo o álbum, que combina faixas em português e inglês e uma série de colaborações: Jadsa, Bruno Capinan, Mahmundi, Thiago Borges, Luiz Felipe Reis, Thiago Vivas, Yasmin Zoran e Gabriel Viegas (da banda Nouvella), Theo Machado, Leïlah Accioly e Arthur Braganti. A produção é assinada por Thiago Rebello, baixista de sua banda desde Noite de Climão (2017).
O resultado é um álbum que revisita diferentes fases da artista — do deboche de Letrux Como Mulher Girafa (2023) à intensidade de Letrux Aos Prantos (2020) — sem se prender a nenhuma delas. Para a cantora, mais do que um conceito fechado, o disco é um resumo sensível de quem ela é hoje: múltipla, contraditória e em movimento.
Assumidamente alternativa, ela também encara com naturalidade o lugar que ocupa na música brasileira. “Eu tenho um público fiel e sou muito grata. Acho que sou muito uma artista do boca a boca. E eu gosto dessa camisa, gosto de ser uma representante do alternativo”, afirma, citando referências como PJ Harvey e Kim Gordon.
Neste fim de semana (4 e 5/4), ela estreia o repertório ao vivo no Sesc Pinheiros [ingressos aqui] dando início a uma fase que promete ser uma das mais visuais de sua carreira, com clipes para quase todas as faixas. No estúdio do Coala Records, antes da audição, batemos um papo sobre processo criativo, próximos passos e como é ser a “musa das alternativas”.
Uma das coisas mais interessantes do seu trabalho é a capacidade de se transformar de uma produção para a outra, já que cada álbum surge com um conceito muito próprio. Como você define SadSexySillySongs?
Ai, que difícil… eu devia ter pensado nisso antes, né? [risos] Mas não pensei. O mais próximo de uma definição que eu cheguei foi durante a gravação do disco. Conversando com o Rebello, falei: “Amigo, olha que louco: Climão foi sexy, Aos Prantos foi triste e a Girafa foi silly”. Então, esse título também remete aos outros três trabalhos como Letrux. Parece que ele é uma mistura desses discos, claro que é outra coisa, mas tem resíduos deles. Então acho que não é exatamente um conceito, mas um resumo da minha personalidade.
Eu sou uma pessoa triste, mas também sou engraçada, também sou sexy… eu sou tudo isso. E parece meio banal falar assim, mas tem gente que é muito de um lugar só, ou muito triste, ou muito sexy, ou muito boba. E eu acho que os excessos me incomodam.
Na minha psicanálise, eu busco equilíbrio. Na vida também. Não quero ser só muito triste, nem só muito sexy, nem só muito boba. Acho que existe uma unidade das coisas, um equilíbrio… uma harmonia. Harmonia é uma palavra melhor do que equilíbrio.
Seus outros álbuns são muito explosivos, dançantes e cheios de camadas eletrônicas, enquanto SadSexySillySongs surge bem mais minimalista, com foco na voz e violão. Como você chegou neste lugar?
Depois de tantos discos com muitas camadas sonoras, tanto como Letuce quanto com Letrux, tive esse desejo de fazer uma coisa mais minimalista mesmo. Porque eu também tenho interesse nesse tipo de som, uma coisa mais voz e violão, mais crua.
Eu acho que a arte não pode ser utilitária. Eu sei que alguns discos meus tiveram mais sucesso do que outros, mas eu não tô aqui pra repetir nada, nem conseguiria [risos] nem quero. Não é o meu desejo. Eu sou uma pessoa obediente ao meu desejo. E ele me guiou pra focar em outra coisa, no violão, na voz.
Artista quer brincar, né? E aí eu quis brincar dessa brincadeira agora. Daqui a pouco eu posso voltar a brincar com banda, com mil camadas sonoras. Mas, nesse momento da vida, eu quis fazer uma coisa mais minimalista. E, ao mesmo tempo, é louco, porque a gente teve esse conceito — eu e o Rebello — de fazer um disco voz e violão, mas ele não é tão cru quanto parece. Ele tem muito foco na voz, muitos efeitos na voz.
O violão tem uma presença muito marcante, é quase um ator principal da coisa, tem peso. Então, apesar de ser um disco cru, ele tem um peso. Acho que quem for ouvir pensando “ah, é minimalista” pode se impressionar, pode se surpreender.
São três anos sem lançamento solo, mas que você não ficou nem um segundo parada! Teve parcerias com a Nouvella e outros shows como intérprete. Como é essa nova Letrux que chega depois de Mulher Girafa (2023)?
Desde que eu lancei “Mulher Girafa”, aconteceram tantas coisas na minha vida [risos]. Meu Deus… eu tive um tumor, tirei um ovário, fui mãe, fiz parcerias, criei outros shows, celebrei 20 anos, não de carreira, mas 20 anos desde que eu pisei num palco pela primeira vez…
E aí eu sou muito… tem uma expressão de uma amiga minha, Alessandra Colasanti, que fala: “Nós somos as emocionalistas, as que sentem, mas seguem”. Quando eu vi isso, falei: “Sou eu”. Eu não fico parada. Eu sinto tudo, até demais, mas eu sigo. Eu tenho uma capacidade muito forte e muita curiosidade de saber o que vem por aí. A paralisação, pra mim, é que é mais difícil.
Então eu sou muito isso: uma emocionalista, aquela que sente, mas segue. E agora eu tô seguindo. E continuarei seguindo, Oxalá, por muito tempo.
Você se dividiu na composição com um time de feras. Tem Jadsa, Mahmundi, o próprio pessoal da Nouvella, como você chegou nesses nomes?
Acho que como esse disco “é mais cru”, eu pensei: “preciso ter mais parcerias de composição”. Porque, na falta das milhões de camadas sonoras que eu estava acostumada com a banda, pensei: vamos brincar com outras pessoas. As pessoas vão ser uma camada sonora. Foi meio por aí e foi divertido. Eu sei que parece bobo categorizar as coisas, e eu até tento não fazer isso na minha vida, não gosto muito de gavetas, mas eu também não acho que os sentimentos sejam categorias fixas.
Às vezes é meio estranho você rotular as pessoas — tipo “fulano é isso”, “fulano é aquilo”… todo mundo é tudo, né? Todo mundo é piranha, todo mundo é santo [risos]. Então, com sentimento, eu vejo diferente. Existe uma atmosfera triste, uma atmosfera mais sexy, uma atmosfera mais boba em cada música, e isso me interessa mais.
Por isso eu quis chamar essas pessoas. Porque, na falta de outros instrumentos, os convidades viraram praticamente instrumentos também. Pensava: “Com a Mahmundi, quero fazer algo mais sexy”, com a Nouvella, perguntei: “E aí, tem alguma música mais triste pra mim?” E acho que foi uma soma muito legal. Eu adorei as parcerias.
Quando te entrevistei no ano passado sobre o 20 Anos Alternativa você falou algo muito bonito que me marcou. Disse que “escolheu ser alternativa para sempre”, acho que diz muito sobre você, seu trabalho e como se coloca na indústria. Um ano depois, você continua escolhendo ser alternativa?
Ai, não tem como… não tem como não ser alternativa. Eu tenho muita consciência de que certas coisas não vão acontecer na minha vida, sabe? Eu tenho 44 anos, é o século 21, a gente tá numa era de rapidez, de velocidade… não vai rolar uma virada pra mainstream na minha trajetória. E eu tenho paz com isso.
Eu tenho um público fiel — muito fiel, inclusive — e sou muito grata ao entusiasmo dos meus fãs. É sempre lindo quando chega mais uma pessoa, quando alguém descobre meu trabalho. Eu acho que sou muito uma artista do boca a boca. Do tipo: “você tem que ver o show da Letrux, você precisa ouvir Letrux”.
E eu acho que isso é ser alternativa. E eu gosto dessa camisa, gosto de ser uma representante do alternativo. Eu amo figuras alternativas, como tipo PJ Harvey, Kim Gordon… Claro, elas são muito mais famosas do que eu, mas têm essa aura alternativa, essa vibe alternativa. E isso me interessa.

Sendo também atriz, sua performance sempre foi muito teatral. Se tivesse que evocar uma cena, uma imagem que sintetize SadSexySillySongs, qual seria ela?
Eu tô gravando muito videoclipe pra esse disco. Esse, provavelmente, será meu álbum mais visual. Gravei clipe para quase todas as músicas. Então, se você me perguntar qual seria a imagem desse disco, é até difícil responder, porque eu explorei muitas possibilidades.
Não posso dar spoiler [risos] mas acho que esse disco é tão “resumo” que ele cabe em várias situações. Se você estiver numa montanha-russa ou no colo da sua avó, isso pode ser uma cena desse álbum. Se você estiver transando com alguém ou levando um fora do chefe, tudo isso pode ser uma cena desse universo. Eu acho que ele é uma grande caldeirada humana. Passeia por muitas cenas do cotidiano.
Assim como seus outros discos, SadSexySillySongs traz composições em inglês e português. Como foi o processo de composição?
O processo de criação é meio parecido, porque vem do que vem, né? Eu sou uma artista que depois elabora, edita, troca palavra, muda… mas tem um momento ali que é meio psicografado. Tem uma coisa que eu não censuro de primeira, eu deixo vir. Depois eu edito, jogo fora o que não funciona, mas num primeiro momento eu tento deixar fluir.
E eu não decido. Eu sou uma cadelinha da língua, da linguagem [risos] Se vem em inglês, eu vou em inglês. Se vem em português, eu vou em português. Eu sigo.
Não é uma coisa tipo “ah, vou fazer uma música em inglês”. Pra mim não funciona assim. Pra algumas pessoas pode funcionar, mas pra mim não. É meio um raio.
Por exemplo, a música que dá título ao disco, “Sad Sexy Silly Songs”, que é uma parceria com a Jadsa, eu escrevi a letra, mandei pra Jadsa, e ela me devolveu com uma música. Aí comecei a criar a melodia em cima da música dela. E ela virou uma música bilíngue, é a única bilíngue do disco.
Eu lembro que, quando comecei, pensei: “isso aqui é em inglês”. Fui tentando em inglês… mas não encaixava. Aí pensei: deixa eu testar em português. Também não dava certo. E eu fiquei nesse vai e volta, testando… até perceber que tinha uma coisa ali, uma intuição, uma língua interna que meio que me guiava. Existe uma linguagem interna, sabe? Que vai dizendo o caminho. E aí, no fim, eu só obedeço.
No início do ano, “Baliza” finalmente chegou às plataformas digitais. A música sempre foi um momento muito esperado nos shows, como foi revisitar a canção e parceria com Letuce depois de tantos anos?
Essa história de “Baliza” é muito louca. O Lucas ficou numa teimosia meio taurina, sabe? [risos] Porque a gente tinha uma gravação antiga, de quando a gente fez “Baliza”. Nessa versão, só a minha voz é atual. E ele ficava naquele perfeccionismo… às vezes o músico entra nisso, né? Amo o Lucas, acho ele uma das pessoas mais talentosas que eu conheço, mas ele foi bem teimoso ali, bem “planeta em Touro” mesmo.
E eu querendo colocar “Baliza”. Eu queria que essa música já tivesse saído antes, lá atrás, em outros momentos… mas, enfim, coisas da vida: a banda acabou. Só que a gente fez recentemente uma celebração de 15 anos do primeiro disco de Letuce, e aí a gente se olhou e falou: “vamos aproveitar esse momento, vamos pegar aquela gravação”.
Aí eu fui ouvir minha voz antiga e falei: “socorro, Deus!”. E tudo bem — as pessoas ouvem meus discos, gostam — mas eu não sou de me ouvir, então é difícil pra mim. Só que, pra lançar, eu tive que ouvir. Aí falei: “não, vamos gravar minha voz de novo rapidinho”.
Então a gente tirou a voz antiga e eu regravei. E “Baliza” é uma música muito bizarra, muito estranha, engraçada… Ela fala sobre uma metáfora — minhas letras normalmente são mais diretas, mais concretas — mas essa, por acaso, tem essa camada mais metafórica.
Tipo: a baliza… o que isso quer dizer? Estacionar? Parar? Quem sabe parar? E tem uma coisa engraçada: eu sou muito boa de baliza [risos] Se fizerem um teste na rua, com vários carros, vários flanelinhas olhando, as pessoas ficam tensas… eu não. Eu sou muito boa. Não sou boa em muita coisa, mas em baliza, eu sou ótima — não sei por quê. E isso virou música.
Fiquei curiosa de você falar que não se escuta! Porque?
Agora eu tô me escutando porque vai ter show, então é o momento de me escutar. Eu ando de bicicleta, tô na cozinha, lavo louça — e me escuto. Porque eu ainda não decorei minhas letras, são músicas novas, coisas novas. Então, agora, esse é o único momento em que eu me escuto. Depois, acabou.
Aí quando chega o vinil — geralmente meus projetos, ainda bem, têm vinil — tem esse momento também. As pessoas me marcam nos stories e eu ouço rapidinho, mas é isso. Eu acho que a maioria dos artistas não se escuta, posso estar enganada. Tipo, vou numa festa, alguém toca minha música, eu até faço uma festinha, mas não paro pra ficar pensando muito nisso.
Agora, por acaso, eu tô nesse momento de me escutar porque estou ensaiando. Mas é uma escuta menos crítica, porque a escuta crítica foi lá na época da mix. Ali você fica: “será que aumenta a voz?”, “será que bota esse efeito?”, “será que muda isso?”. Agora não — agora o resultado já existe, já tá pronto, vai subir daqui a três dias nas plataformas. Não tem nem como mudar.
Então eu não sofro. Tem muita gente que sofre, que queria ter feito diferente. Eu não — eu fiz o que eu tinha que fazer. Tá feito, não pode mudar. Eu sou muito de aceitar as coisas, a vida como ela é. Eu acredito muito em destino.
Tem coisas que você pode mudar, mas tem coisas que são destino — e esse disco é destino, ele aconteceu. Então eu me escuto mais pra ensaiar mesmo, sem ficar julgando. Não fico mais nessa de “ah, minha voz…”. Não — agora é o meu ofício. Eu preciso decorar, é essa a hora, e depois apresentar.













