
Na última quinta-feira (5/2), o clima chuvoso e cinzento da capital paulista não dava pistas de um Carnaval iminente. Pelo contrário: no entorno do Allianz Parque, via-se uma multidão vestida de preto, pronta para assistir ao primeiro show do My Chemical Romance no país em 18 anos. O evento atraiu, claro, muitos millennials que não conseguiram ver a banda ao vivo no auge, quando ainda eram adolescentes.
Mas o conceito de auge, para o My Chemical Romance, é um pouco nebuloso. Isso porque eles também são influentes para uma novíssima geração, assim como o emo e outros estilos musicais demasiadamente millennials, como o nu metal. Por exemplo, dados do TikTok mostram que as buscas sobre a banda ultrapassam a casa dos bilhões.
Por isso, não surpreendeu ver um público 30+ circulando pelo estádio entre adolescentes com maquiagem dramática, delineado preto e gravata vermelha, looks oficiais de Gerard Way (vocal), Frank Iero (guitarra), Mikey Way (baixo) e Ray Toro (guitarra) — o baterista, Jarrod Alexander, substitui Bob Bryar, que morreu em 2024.
O revival do MCR — como a banda é conhecida — e, consequentemente, do emocore, parece coerente. Afinal, o emo, como música, moda e lifestyle, abraça o sentimento de inadequação, a vontade de chorar e gritar de raiva e todas essas explosões típicas da adolescência. É uma questão, no fim, mais universal que geracional.
Na primeira das duas apresentações em São Paulo, Gerard Way entrou na brincadeira sobre o público diverso do My Chemical Romance. Lembrou que a banda não tocava no Brasil havia muito tempo e saudou tanto quem esteve no último show quanto quem ainda nem era nascido. “Se você nunca foi a um show nosso, seja bem-vindo!”, disse.
Teenagers
A turnê 2025-2026 My Chemical Romance, que hoje roda pela América Latina, funciona assim: a primeira metade é dedicada aos 20 anos (!) do The Black Parade (2006), a ópera-rock do grupo. Após o bis, na segunda metade, apresentam hits de outros álbuns, como Three Cheers for Sweet Revenge (2004), I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love (2002), Conventional Weapons (2013) e Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys (2010). Foram mais de duas horas de música para os fãs que esperaram por quase 20 anos por esse momento.
Mas antes…
Mas antes, o The Hives subiu ao palco para aquecer o público — coisa que os suecos fazem muito bem. Mesmo não sendo a atração que todos esperavam ver, entregaram um show de abertura animado, com direito ao vocalista Howlin’ Pelle Almqvist conversando o tempo todo em português (o tempo todo mesmo, ainda que com a ajuda de uma colinha).
O público reconheceu o esforço: as faixas do novíssimo álbum The Hives Forever, Forever The Hives (2025), que abriram e fecharam o show, foram recebidas com algum entusiasmo. Claro que os hits como “Hate to Say I Told You So” e “Main Offender” agitaram mais uma plateia ansiosa. Pelle brincava com a situação: volta e meia mandava um “e daqui a pouco... My Chemical Romance!” sob gritos do público, até emendar: “mas antes… o The Hives!”.
Não faltou energia e carisma. Em pouco mais de 40 minutos os suecos provaram, mais uma vez, por que são uma das melhores bandas pra assistir ao vivo, independentemente da ocasião.

Quando os Hives saíram do palco, era chegada a hora: as luzes baixaram e mensagens aparentemente ininteligíveis apareciam no telão. Eram frases escritas em Keposhka, idioma criado por Gerard especialmente para o espetáculo.
O show do MCR é, de fato, um espetáculo, que vai muito além do figurino punk-militar dos integrantes. O universo teatralizado de The Black Parade — álbum que aborda luto, guerra e as incertezas diante da morte — foi transportado para o palco em um novo capítulo.
20 anos depois, a banda revisita sua própria mitologia que se passa em um ambiente tirânico, onde a Black Parade é a banda oficial. O cenário ora parece um hospital, ora uma prisão. Há personagens autoritários e um "olho que tudo vê", provavelmente inspirado na vibe de 1984, de George Orwell. Tem música, mas também tem atuação e muitos efeitos visuais.

Todo esse universo saiu da mente inventiva do vocalista — Gerard cresceu vendo a mãe, cabeleireira e aficionada por filmes de terror, colecionar bonecas vitorianas, animais empalhados e outras excentricidades. Toda essa estética virou inspiração para ele criar seus primeiros desenhos. O talento o levou a estudar ilustração na faculdade e até a criar sua própria HQ anos depois, o The Umbrella Academy, em parceria com o brasileiro Gabriel Bá (que depois virou série da Netflix).
Welcome to The Black Parade
No primeiro ato do show, o The Black Parade é tocado na íntegra e na ordem das músicas. O ápice, claro, são hits como “Welcome to The Black Parade”, “Teenager” e “I Don’t Love You”, mas parte do público tinha todas as letras na ponta da língua.
Ao fim do The Black Parade, a banda voltou ao palco sem os figurinos, mais à vontade, vestindo camisas pretas. Era uma das horas mais aguardadas para o público que descobriu a banda pelo grande sucesso do álbum anterior no Brasil: faixas do Three Cheers for Sweet Revenge tocavam a exaustão nas rádios de rock e na MTV, como “I’m Not Okay” e o hit-mor, “Helena”.
Mais despojados, já fora dos personagens, os integrantes retribuíram o carinho do público: Gerard Way sorria vendo os fãs cantarem junto, mandava um “obrigado” — ao contrário dos Hives, ele assumiu que foi a única palavra em português que aprendeu — enquanto Frank Iero vestia um moletom do Sepultura.
O bis do Brasil — especialmente do primeiro dia — foi um presente para fãs. Quem esperava por mais hits do ...Sweet Revange, como “The Ghost of You”, precisou se contentar com set diferente dos shows na América do Norte. A banda mandou faixas mais inusitadas e queridas dos fãs, como “Thank You For The Venom” e “Cemetery Drive” — essa última dedicada a Gabriel Bá, a quem Gerard Way chamou de irmão.
I’m okay now
O My Chemical Romance, como se sabe, nasce de um trauma coletivo: em 11 de setembro de 2001, Gerard estava no carro, a caminho de um trabalho na Cartoon Network, quando viu o primeiro avião batendo nas Torres Gêmeas. Foi a deixa que o inspirou a compor a primeira música, "Skylines and Turnstiles".
Todo esse universo de trauma, morte, distopia e desesperança no futuro foi expurgado em forma de hardcore, ópera-rock e riffs quase metaleiros com o My Chemical Romance. As letras, o figurino, o apelo gráfico, tudo criava um universo dark que representava jovens desajustados e sem esperanças.
Os integrantes trabalhavam com esmero todo esse universo. Para eles, suas músicas não foram criadas para serem efêmeras. Em uma entrevista ao Alternative Press em 2006, durante o lançamento do The Black Parade, Ray Toro disse que o desejo era fazer um álbum que perdurasse.
Queríamos fazer algo clássico, que 20 anos depois, os pais pudessem ouvir com os filhos e dizer: ‘Isso é o que eu ouvia quando tinha a sua idade. Ouve aí. Continua incrível'.
No fim, 20 anos depois, não é que ele estava certo?
Além de unir gerações, o show do My Chemical Romance faz lembrar que nenhuma experiência é individual, ainda mais quando se fala de adolescência. Conversando com amigas e outros fãs no show, percebi como os caminhos de cada um levaram ao My Chemical Romance. Entre a solidão, o bullying ou os traumas, a música estava ali, fazendo companhia.
Pouco tempo depois, outros jovens desajustados se sentiram abraçados pelo que a banda representava. De frente para a tela de Windows, presos no quarto, esses adolescentes dos anos 2000 se sentiram um pouco menos solitários na companhia da música e de amigos que faziam em comunidades do Orkut. Eu fui uma delas. Quando o My Chemical Romance era a banda da minha vida, era uma adolescente assustada, que tinha passado por uma perda profunda. Foi esse senso de comunidade em torno da música que ajudou a me salvar.
Assistir a esse show 20 anos depois era mais que um presente que devia a um "eu" do passado — foi a satisfação de comprovar que não, nós não estávamos sozinhos. Pelo contrário: somos muitos, capazes de encher um estádio inteiro.








