
Com seis álbuns no currículo, Giovani Cidreira é um dos principais representantes da nova MPB. Da estreia em 2015 com o disco homônimo até Coração Disparado (2026), seu último álbum produzido por Benke Ferraz (Boogarins), o baiano mostrou que sua principal característica é a versatilidade.
“Eu sou uma pessoa que pouco olha para trás. Gosto de me esquecer um pouco do que fui para encontrar novos personagens, novas formas de viver”, diz, em entrevista à Noize. Depois de trazer canções populares, ritmos afro-brasileiros, pop e eletrônico, que renderam presença nas listas da APCA, ele inverte as lógicas de criação com álbum inédito e ao vivo.
Essa busca pelo desconhecido também explica sua decisão pelo formato, cercado pelos riscos e imprevisibilidades da performance. “Quanto mais elementos de risco, mais eu vou gostar”, diz. Para ele, é justamente a possibilidade de algo sair errado que mantém o processo artístico vivo. “Isso me dá a sensação real do palco. A partir de agora, tudo pode dar errado — e é isso que interessa.”
Gravado na Casa de Francisca, em São Paulo, Coração Disparado chegou às plataformas em 6/5, com nove faixas, já o show teve 16 canções, que devem entrar na segunda parte do trabalho, ainda sem data de lançamento. No trabalho voz e violão, Giovani se reencontrou.
“Fui reencontrar o Gi do início, quando comecei a tocar e compor”, explica. Mas não apenas isso. Segundo ele, o processo também trouxe maneiras novas de escrever e se colocar artisticamente. “Algumas músicas me fizeram perceber que eu nunca tinha pensado a composição daquele jeito, uma forma mais simples”, afirma ele.
Em entrevista à Noize, Giovani fala sobre a importância do palco, processos criativos, parcerias, participação no Tiny Desk e o que ainda faz seu “coração disparar” na música. Confira na íntegra:
O que este disco representa em sua caminhada de mais de uma década na música? Você sente que esse projeto é um balanço da sua carreira?
É mais um disco, né? Mais uma faceta minha, mais uma história, um ano de vida, um ciclo que se fecha, mas que abre outro também. Acho que, depois que você tem anos fazendo a coisa, você começa a perceber que é mais um tijolo nessa construção, mais um pilar da estrutura, que dá outros sentidos e que faz muito sentido com o resto, sabe?
Mais de 10 anos de carreira, sete discos lançados e incontáveis reinvenções depois, mas continuo enxergando cada novo trabalho como “mais um tijolo” em uma construção que nunca para. Aos 35 anos, a sensação já não é mais a de provar algo, mas de continuar descobrindo novas formas de existir dentro da música.
O que você aprendeu de mais significativo na música e diria para alguém que está começando?
A coisa mais importante que a música me deu, na verdade, foram todas as amizades. Os amigos, as relações que eu criei, tudo foi por causa da música. A música tem esse poder de abrir caminhos e não te deixar tão só.
E, para todo mundo que está começando: quando todo mundo ao redor disser que não é um caminho, que não é uma boa ideia, geralmente é uma boa hora para você seguir seus instintos e o coração, né? Na verdade, a estrada tem que valer a viagem, porque o destino é incerto, como diria Tom Hanks [risos].
O álbum foi todo gravado ao vivo. Como foi a gravação? Teve alguma troca ali com o público que te marcou?
Muito louco! Porque eu e o Bank — ele produziu comigo, né? — e o Gorky fez a direção artística junto com a Gatá. A gente tinha planos de ensaiar bastante, fazer uma turnê e, a partir disso, montar o show. Só que aconteceu o contrário. A gente ensaiou muito pouco e decidiu gravar mesmo assim. “Vamos gravar e ver o que acontece. Se der errado, grava de novo”, mas era quase uma mentira que a gente contava para si mesmo, porque a quantidade de pessoas envolvidas numa gravação dessas é enorme.
A gente repetiu muito pouca coisa. Acho que “Tempero” e “Denga” foram as únicas músicas que gravamos duas vezes, e ainda assim na sequência. Muita música ficou de fora. A gente gravou umas 16 músicas e entraram só nove.
Mas esse sentimento também faz parte do palco, né? Toda vez que eu subo para tocar, penso: “Agora não tem mais volta”. E foi muito importante ter o público junto, porque são as pessoas que dão o tom do show, a cara do show. Existe uma troca de energia ali.
Eu tenho um canal de transmissão em que converso diretamente com quem acompanha meu trabalho. Lá eu compartilho coisas antes de lançar, mando vídeos, troco fotos. E eu gosto muito dessa proximidade. Quando acaba o show, geralmente eu quero sair com as pessoas, jantar, conversar, ficar até de manhã trocando ideia.
Porque eu acredito que a conversa não pode acabar na música. Não é possível que a pessoa vá ao show só para dançar. A gente está ali para transformar alguma coisa, para acabar com essa palhaçada toda, para transformar o país numa coisa mais parecida com a gente. O que me interessa mesmo é o que acontece depois do show também. E foi muito assim na Casa de Francisca. Estava todo mundo muito disposto a viver isso junto, a pensar em mudança de realidade, a ouvir as músicas novas.
O projeto nasceu no palco, e não o contrário, como é esperado. Como foi inverter a lógica de criação? E o que o formato ao vivo consegue acionar que o estúdio não consegue?
Olha, isso foi uma grande maluquice, na verdade. Porque geralmente você tem um tempo para entender a produção no estúdio, né? Você conhece as músicas, toca elas ao vivo, e cada vez que toca, a música surge diferente para você. Ela vai se mostrando de outro jeito, até para quem faz. E quando as pessoas começam a cantar aquilo, a música volta diferente também.
Teve música minha de que eu nem gostava tanto. “Última Vez” mesmo, eu jamais imaginaria que seria uma das músicas mais ouvidas de um disco meu. As pessoas deram um significado para ela. Elas ouviram tanto, gostaram tanto, que até eu gosto da música hoje. Antes eu não gostava.
E com esse disco foi uma coisa meio medrosa, muito louca. Porque a gente tinha que confiar que as pessoas iam gostar daquelas músicas na hora, entendeu? E rolou muito isso. Eu lembro de as pessoas já estarem cantando “Denga” na segunda vez que eu toquei.
Talvez por serem músicas mais amorosas, mais carinhosas, músicas que chamam as pessoas para perto, isso acabou acontecendo naturalmente. Também queria mostrar uma faceta minha que talvez parte do público não conhecesse. O Zé Pedro mesmo já falou isso para mim. Ele foi a um show e disse: “Pô, mas você toca violão e canta assim?”. E eu respondi: “Como assim você não sabia?”. Mas entendo. Para muita gente eu era associado à Mixtape, àquela coisa mais eletrônica.
Então comecei a perceber que talvez as pessoas não imaginassem que eu também sou esse cara do voz e violão. E não acho que isso seja simples. Fazer um show só com voz e violão exige um outro lugar de entrega.
Quando eu estou só com o instrumento, abre um canal muito visceral em mim. Quem acompanha meus shows já sabe disso. É um lugar em que eu me solto talvez até mais do que com banda e eletrônica. Acho que tenho mais controle do descontrole ali. Eu queria que o álbum captasse essa coisa nervosa, perigosa, viva. E quando ouvi depois, achei que conseguiu.
Sobre voltar para esse lugar do cancioneiro e do violão, isso começou lá atrás, no Japanese Food. Naquela época, as pessoas queriam me colocar sentado num banquinho com um violão. E eu fiz o contrário: quebrei o violão e fui tocar sampler.
Sempre tive essa vontade de me colocar em lugares diferentes do esperado. Mas depois de um tempo comecei a pensar que talvez existissem coisas minhas que eu podia revisitar. Eu tinha acabado de gravar o disco do Aderaldo Gentil, estava compondo para outras pessoas — Liniker, Urias, Melli, Russo Passapusso — mas fazia tempo que eu não me conectava com uma nova poética minha.
E quando eu componho, normalmente nem uso instrumento, porque não sou um grande instrumentista. Os instrumentos me limitam, me fazem repetir caminhos. Só que dessa vez eu pensei justamente o contrário: talvez voltar para os poucos acordes que eu sei fosse o caminho para conseguir escrever de novo.
Foi muito estranho como isso virou algo natural. Eu peguei o violão e não consegui mais largar. Acho que a aproximação com o Rodrigo Gorky ajudou muito nisso também. Ele me mostrou vários covers, várias referências, para eu encontrar um caminho mais simples de composição. E foi como andar de bicicleta. As músicas estavam ali o tempo inteiro, dentro de mim.
Também sempre começo meus textos pelo final, engraçado como os processos criativos se repetem em várias áreas, né? [risos] É um álbum muito apaixonado, como você chegou nesse eu lírico romântico? Tem muito de você e das suas próprias experiências ou foi uma criação?
Me dei mal para caramba, né? Sofri. Acabaram comigo, como sempre, como acontece com todo mundo.
Não tem outro jeito de fazer um disco de amor sem tomar paulada, né? Sendo traído, sendo enganado. Já dizia Marília Mendonça, nossa rainha da sofrência.
Mas também sendo amado, sendo rejeitado, sendo amado por outras pessoas. Vivi tudo isso com muita intensidade nas relações que tive. E teve uma relação muito longa que terminou, então tudo isso acabou virando esse disco. Não tem jeito. Você faz essas coisas sofrendo muito e amando muito também.
E tem uma coisa desse disco que talvez eu esteja até me adiantando em falar, mas é importante dizer: o nome dele é Coração Disparado. Só que a música “Coração Disparado” ainda vai ser lançada depois. Porque esse projeto é dividido em duas partes. Essa primeira foi gravada ao vivo, mas a segunda parte vai ser feita em estúdio. A gente começa a gravar agora e a previsão é lançar no começo do ano que vem, no primeiro semestre.
Mas ainda este ano vão sair outras coisas também, porque esse projeto inaugura uma série de desdobramentos. Além do álbum ao vivo, a gente vai lançar fitas cassete com demos e gravações da pré-produção, até chegar num compacto que também sai no fim do ano. Então Coração Disparado meio que começa a disparar e não para mais. São várias histórias dentro desse mesmo universo. É quase como um robozinho crescendo, tomando forma aos poucos.
Você comentou que tem o costume de compor sozinho. A composição parte de um lugar bem pessoal, mas, neste disco, parece bem coletivo. Como que foram as parcerias?
O Gorky me ajudou muito no repertório. Eu tinha uma série de músicas, e ele me influenciou muito no tipo de composição que eu podia fazer a partir de exercícios que me passava. Tipo pegar um cover do Nando Reis e da Preta Gil e fazer aquilo parecer meu, me destravou para um tipo de composição em que eu tinha certa dificuldade. Eu estava muito preso ao meu jeito de fazer as coisas e não queria tentar de outro jeito.
Os exercícios me ensinaram esse lugar de uma música mais direta, menos pretensiosa. Acho que eu cheguei num ponto em que estava com muita pretensão para escrever, pensando: “Ah, vou ter que falar de um jeito super elaborado”. E aí veio esse pensamento de: “Cara, corta isso. Fala uma besteira, fala uma coisa simples”. Porque, no fim, as pessoas se identificam com as coisas normais do dia a dia.
Depois veio o Benke Ferraz. A gente já era amigo há muito tempo, mas nunca tinha composto junto de fato. E olha que ele já tinha tentado. As pessoas tentam fazer música comigo, mas eu sou um pouco difícil nesse processo [risos].
A primeira música que a gente compôs junto foi justamente “Coração Disparado”, que ainda nem saiu. Ele mandou um versinho e foi a partir dali que comecei a deixar ele entrar completamente no meu universo. Até na produção musical eu era muito fechado antigamente. Com o Benke eu aprendi a largar na mão dele. Hoje eu literalmente digo: “Resolve aí”. Nem vejo mixagem, nem acompanho detalhes técnicos.
Só vou ouvir quando está pronto. E funciona muito bem porque a gente é muito diferente. Acho que onde ele não iria sozinho eu já estou, e vice-versa. Tem um encaixe muito forte. Esse disco nasceu muito desse entendimento de que eu não estava fazendo aquilo sozinho. Na verdade, nenhum disco é feito sozinho, mas esse especialmente foi muito coletivo desde a origem. As músicas já surgiam quase como produto final, e a gente conduziu tudo junto: eu, Benke e o Gorky, em encontros, conversas, trocas.
Aproveitando que você falou da Josyara, vamos falar sobre “Farol”. Esta é uma música antiga, que ela já gravou, como foi revisitar a música para o projeto? Como que ela entra neste álbum?
Eu gravei ela com a Josyara porque ela gosta muito dessa música. Na época em que eu estava gravando o disco, como era uma canção que eu sempre tocava para amigos em casa, acabou virando quase uma piada interna.
As pessoas até brincam comigo, porque a música é meio um agradecimento. Toda vez eu falava algo tipo: “Quero agradecer a você porque você é muito especial, vou tocar uma música aqui”. Acho que em algum momento fiz isso com a Josyara, e ela gostou muito. Sempre pedia para cantar.
É uma música que eu sempre usei muito nos shows de voz e violão. Porque ela me ajuda a sentir o ambiente. É quase como passar um som, sabe? Eu começo tocando violão, vou entendendo o clima do público, consigo perceber tudo que está acontecendo, testar o microfone, sentir o espaço. A gente nem sabia se ela entraria no disco, mas sabia que tinha que abrir o show. Foi por isso que ela entrou no disco e também por isso que escolhi abrir com ela o Tiny Desk
Agora aproveitando o gancho do Tiny Desk. Ficou maravilhosa sua participação, como foi viver essa experiência?
Foi muito louco! A gente gosta de música, né? De muita boa música, esse programa é demais, por isso que todo mundo gosta de assistir.
Fiquei muito, mas muito feliz mesmo, porque eu vim da periferia de Salvador, não estudei no colégio de ninguém, então, você fica sempre sem esperar essas oportunidades. O que aconteceu, aconteceu, e sempre colocam as mesmas pessoas que, não é que não tem talento, mas os espaços são sempre ocupados pelas pessoas da mesma classe.
Infelizmente, isso acontece, mas agora outros corpos chegam, o espaço da MPB — deixa eu dizer, essa MPB estranha — ainda é um espaço branco, um espaço elitista, né? Então, eu não esperava, foi uma surpresa boa, me deu uma injeção de ânimo. Uma certeza de que o trabalho está sendo feito, apesar de todas as dificuldades, todas as placas de ‘pare’, todas as barreiras que eu tenho só por ser quem eu sou mesmo, transitando no meio em que eu trânsito. Está muito difícil para todo mundo, mas isso me deu uma certeza de que o meu trabalho tem mais a ver com consistência e caminho do que com momento, né?
Depois de tantos anos de carreira, o que ainda faz seu coração disparar na música?
Queria que parasse, viu, meu coração. Mas ele não para, é uma agonia. Eu acho que a música… eu espero continuar tendo vontade, como eu tenho, e desejo pelas coisas todas que aparecem, pelos artistas que aparecem todo dia, pela garotada fazendo música nova.
Eu acho que essa certeza de que meninas e meninos, nos seus quartinhos da favela, podem modificar a própria realidade a partir de uma música — e podem mudar a realidade deles, da família toda, da tia, do tio, da avó — com outra ideia de realidade, me deixa imensamente feliz.
Lembro de uma vez em que eu estava com um amigo meu, Jarbas, na época envolvido com criminalidade. E aí um professor ligou para a gente e falou assim: “Pô, vocês podiam se inscrever num curso de teatro’. A gente olhou um para o outro e falou: “Existe curso de teatro?”. Nossa, esse curso de teatro mudou a vida desse cara de um jeito… Hoje ele é ator, psicólogo, psicanalista, trabalha com pessoas em situação de risco.
Isso me faz continuar e acreditar que o que a gente faz tem esse poder de tirar as pessoas de certas armadilhas, eu sei porque sou fruto disso também, de ver outra vida. Não a que impuseram para a gente, mas a vida que a gente merece mesmo. Apesar de tudo, acordar todo dia com a certeza de que a gente não está aqui só de passagem. Nem a passeio.
Você é um artista super versátil. Falamos muito hoje sobre você não gostar de se repetir nos trabalhos, o que você ainda quer explorar?
Eu quero fazer tudo! Algo que estou pensando muito agora e, que talvez já aconteça no próximo disco, é brincar com percussão nordestina, que é muito usado no forró, aboio e queixada, surdo virado, mas gostaria de usar eles não de uma forma tipicamente regional, sabe? Mas ir além. Também tem um disco de orquestra todo anotado por aqui, com um repertório bem grande, quem sabe vem aí logo mais.
Tenho vontade de produzir outras pessoas também, não só com música minha, mas música dos outros, já faço minhas músicas, mas tenho muita vontade de fazer com outras pessoas. Tem trilha sonora, tem uma série de coisas em que eu fico envolvido e metido de um jeito ou de outro. A música… há várias coisas para a gente fazer nela, né? Mas é isso, o que pintar eu tenho vontade de fazer.







