
Pedro Francisco é um multi-instrumentista, produtor, compositor e arranjador paraibano. Após fazer barulho na cena com o rock troncho da Papangu e excursionar nacional e internacionalmente (sempre aclamado pela crítica), o jovem de João Pessoa ainda conseguiu lançar um disco solo – mesmo em meio à turnê do Celeste, terceiro disco de estúdio da Papangu que saiu em agosto.
Via edital d’ A Casa da Música Brasileira – Petra Zuca, Pedro foi contemplado para concretizar seu projeto autoral Pedras Raras na categoria Petra Brasilidades. Sucessor do EP Rabiscando os Sons (2025), Pedras Raras evidencia o amplo espectro da musicalidade do artista.
Explorando seu vasto repertório que vai do forró ao jazz, o teor instrumental do projeto constrói climas e ambiências diferentes. Em alguns momentos, parece que estamos dentro de um jogo de Super Nintendo. Outras faixas soam como um arrasta-pé lo-fi. A produção do disco também é um pilar de destaque: o minimalismo do projeto é emoldurado com esmero por um tear de sintetizadores.
O resultado é um disco inclassificável aberto a experimentações, movido pela busca de novos sons, com toques Frippianos em “Fripperama” e homenagens às trilhas em 8 bits com “SNES”.
O projeto tem composição, arranjos e produção musical do próprio Pedro, masterização de Bullara no estúdio Poiesis e vídeos do cineasta Ivan Cordeiro.
A Noize conversou com o Pedro Francisco para discutir esse novo momento, referências, trajetória, formação acadêmica e trilhas sonoras de videogame. Acompanhe abaixo:
Pedrinho, queria que você repassasse um pouco sobre sua carreira como multi-instrumentista, as colaborações locais na cena de João Pessoa com o Vieira, por exemplo, o Papa mute [projeto com seu irmão Rodolfo Salgueiro], suas experimentações com o Bicho Grilo, estudo de músico aqui no Brasil e fora, e, claro, a Papangu.
Minha estrada começou no violão e emborcou na guitarra. Antes, brincava com uma gaitinha de meu pai e tateava o piano do meu irmão. O primeiro projeto mais audacioso foi o Papa Mute, com meu irmão Rodolfo Salgueiro [tecladista e vocalista da Papangu]. O disco foi dirigido artisticamente pelo renomado violonista e compositor, Toquinho.
Depois disso vieram as lisergias sonoras da Hajem Kunk (2016), fundada com meu amigo de infância Lucas Farias, Rafael Jordão e George Alexandria. Estava tudo formado antes mesmo da gente imaginar qualquer coisa.
Foi numa noite com Lucas e Rafael que descobrimos o barato da gravação. Daí que surgiu Bicho-grilo, uma espécie de alter ego pra registrar músicas minhas em português. Foi no meio disso tudo que surgiram os álbuns Asteroid2 (2017) e Bicho-grilo (2017). Durante várias tardes e noites aqui na minha casa, especificamente em meu quarto.
No momento em que entrei pra Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em 2017, tive várias outras vivências. Fiz o curso Sequencial em Música Brasileira (que já não existe mais) e emendei na Licenciatura, tudo voltado pra guitarra elétrica.
Tive várias práticas de instrumentos complementares, como acordeão, percussão, piano, flauta doce, flauta transversal, harpa. Isso abriu muito meu leque.
Dentre esses anos na universidade, o período pandêmico permitiu que eu fizesse cursos e oficinas à distância. Um deles foi com o maestro Itiberê Zwarg [baixista do grupo de Hermeto Pascoal]. Nossa relação foi se estreitando a ponto dele me convidar pra participar de sua estreia com a Itiberê Orquestra Família da França.
Esses meses de preparação pro evento lá em Paris foram tão especiais,que mandei confeccionar uns instrumentos com o mestre Maureliano Ribeiro, de Camaragibe, responsável por construir alfaias para o grupo Nação Zumbi em sua gênese, ainda com Chico Science.
Pra coroar tudo isso, eu e Rodolfo fomos convidados pra Papangu, que já conhecíamos desde a época do Capim. Depois desse rolê com a Orquestra Família, Marco entrou em contato pois precisava de um baixista pra circular com a Papangu aqui no Brasil [o disco Holoceno já estava sendo aclamado pelo público na internet e ele não podia tocar porque estava morando em Berlim]. O resto da história a gente tá escrevendo ainda [risos].
Queria que você comentasse sobre o Edital da Petra Zuca, compartilhando um pouco sobre o processo de composição e gravação dessas faixas. Creio que projetos que facilitem um aporte como esse são essenciais para o fomento da cena independente Brasil afora.
Quando vi o edital da Petra Zuca, lembrei dessas faixas que compus e gravei a partir do início da pandemia, mas só terminei de registrar por volta de 2025. Foi um período criativo muito fértil pra mim, que com certeza ainda terá desdobramentos.
A ideia inicial era de lançar um álbum maior, com músicas cantadas e instrumentais. Pedras Raras sairia em sequência, como uma espécie de lado B, que nem o Mac DeMarco faz com alguns lançamentos dele. O que se desenhou a partir disso foi algo bem na onda do Homeshake, King Krule, Thundercat…
Eu acho massa o edital pra quem tá precisando de um empurrãozinho. Não sei por quanto tempo esse projeto teria ficado encostado sem esse impulsionamento. A grande surpresa é que foi justo esse trabalho instrumental que ganhou um destaque no meio de tantos outros projetos que venho esboçando.
Pedro, por você ter diversas influências e referências, sempre ouvi seus projetos com curiosidade. Em Pedras Raras, me senti na tela de um videogame em diversos momentos. Queria que você comentasse sobre o impacto da cultura de 8 bits na sua linguagem musical, principalmente em termos de construção de ambientação/atmosfera e sobre a importância de figuras como Koji Kondo, compositor de clássicos da Nintendo.
Foi o videogame que despertou meu interesse por música, porque aqui em casa se tocava e tudo mais, mas eu me sentia um pouco distante disso. O que eu mais gostava quando pequeno era desenhar, porque eu era meio tímido, minhas brincadeiras eram estranhas e eu curtia passar o tempo sozinho.
O videogame tirava essa trava entre mim e a música, porque era aquela coisa lúdica, eu no meu mundinho e aqueles sons todos grudando em minha cabeça.
Além do Koji Kondo, claro, eu considero a Yoko Shimomura [Kingdom Hearts, Mario RPG] uma das mais importantes compositoras para jogos. Passei horas ouvindo essas trilhas que, hoje, marcam minha sonoridade.
Senti uma aproximação muito interessante com a música eletrônica. Acabei lembrando de discos contemporâneos de artistas como Justin Brown, Frederico Heliodoro, Pedro Martins. Queria que você comentasse sobre essa faceta do disco e se essa cena contemporânea de fato possui afinidades estéticas com a sua proposta.
Com certeza! Nessa leva de músicos que você mencionou, eu também citaria o Thundercat, pois é uma de minhas principais referências. Vejo que ele mistura muito bem o jazz com a linguagem dos videogames, dos animes, do cartoon e da cultura pop em geral.
Já Pedro Martins, com seu disco Rádio Mistério 2023), me deu norte pra fazer um som mais ousado. Eu gosto muito das harmonias dele e do Frederico Heliodoro. O Vox (2919), primeiro álbum do Pedro, é outro que ouvi de cabo a rabo. Lá esses dois (Pedro e Fred) tocaram juntos, além do Antônio Loureiro (baterista, compositor), com quem gravei duas músicas de meu próximo lançamento.
Ouvindo esse disco, fiquei imaginando as sessões e pensando em você trabalhando como um verdadeiro cientista em busca de sons, procurando caminhos com curiosidade. Queria que você falasse um pouco sobre essa busca e como você vai se guiando no feeling.
É bem por aí. Basta a ideia vir pra ela ser boa, porque sei que, deixando os horizontes abertos o suficiente, consigo desenhar algo novo com o som.
Eu penso muito em camadas, sobreposição, contrastes. O que mais gosto de registrar é aquilo que me vem no devaneio. Minha cabeça é muito agitada, então as ideias vêm em lampejos, aos quais eu realmente me agarro com afinco.
Quase cem por cento das vezes, minha música parte desse lugar mais abstrato e depois vai tomando forma.
Pedro, queria agradecer pela música, pelo seu tempo e atenção. Queria que você comentasse um pouco sobre a importância de pensar o disco e a sequência das faixas como um verdadeiro storytelling. Achei interessante a ordenação do Pedras Raras e quando terminou, apesar de instrumental, parece que sussurraram uma história no meu ouvido.
Eu tento mesmo conversar com as faixas, pergunto coisas a elas e espero que elas me respondam de volta. Quando não tenho um prazo, costuma ser um processo longo, pois ordeno e reordeno tudo até finalmente clicar.
O que me importa é o todo. As músicas em si estão todas interligadas. Às vezes, o que mais me desperta interesse são as transições entre as obras. Adoro como nosso cérebro vai criando instantaneamente relações entre estruturas distintas.





![Papangu [Rodolfo, George, Pedro, Marco e Hector] - foto por Helder Bruno](/_next/image?url=https%3A%2F%2Fapi.noize.com.br%2Fwp-content%2Fuploads%2F2026%2F07%2Fpapangu-rodolfo-george-pedro-marco-e-hector-foto-por-helder-bruno-scaled.webp&w=1920&q=75&dpl=dpl_6QLXRDa8xwNqE9DxpXwZjgLNPqa4)



