
Não é a regra, mas muitos álbuns de estreia são autointitulados, batizados com os mesmos nomes dos artistas ou das bandas. Bob Dylan, Secos & Molhados e Clube da Esquina escolheram esse caminho, assim como o Vanguart em 2007, quando lançou seu primeiro disco, que agora ganha prensagem inédita em vinil pelo NRC+.
Com as músicas no mundo, não tardou para que o grupo então formado por Helio Flanders (voz e violão), Reginaldo Lincoln (voz e baixo), David Dafré (guitarra), Luiz Lazzarotto (teclado) e Douglas Godoy (bateria) fosse reconhecido não só pelo seu nome – cuja inspiração veio de um documentário sobre Pop Art, que apresentava Andy Warhol como um artista de “vanguarda”, adjetivo que o vocalista confundiu com “vanguart” –, mas, principalmente, pelo seu som.
Dos anos 2000 para cá, a banda trocou de pele algumas vezes – da formação inicial, só Helio e Reginaldo permanecem –, viajou dentro e fora do país, recebeu prêmios e viu sua discografia crescer. Essa passagem do tempo também deixou outra marca: fez o Vanguart se afastar do Vanguart.
“Muitas pessoas pediam, mas esse disco ficou fora das plataformas até este ano. É como se a gente tivesse omitido uma parte da história”, Helio reflete. “Nos surpreendemos ao reescutá-lo, porque muitas vezes a gente olha para o passado e fica um pouco envergonhado, mas não foi o caso, a gente tem muito orgulho dele [do Vanguart].”
“Tem um gostinho especial também lembrar de como foram as gravações, de como foi tudo muito feito na cara e na coragem, do jeito que deu, da melhor maneira que a gente pôde na época”, Reginaldo acrescenta sobre o trabalho, eleito pela Folha de S.Paulo como um dos 50 álbuns que formaram a identidade musical brasileira dos anos 2000.
“Se tiver que ser na bala, vai”
Esse verso, que aparece no álbum seguinte da banda, Boa Parte de Mim Vai Embora (2011), fala sobre amor, mas a mesma obstinação pode ser usada para descrever a postura que a banda assumiu para dar vida ao seu disco de estreia.
Um dos obstáculos iniciais foi geográfico: o grupo não é fruto do eixo Rio-São Paulo. Os cincos amigos, que tinham vinte e poucos anos na década de 2000, se conheceram em Cuiabá, na região Centro-Oeste, onde quase não sobra espaço para outro tipo de música além do sertanejo. Mesmo assim, antes do lançamento de Vanguart, eles já tocavam na MTV, com o hit “Semáforo”.
“Nós atirávamos para todos os lados que podíamos, porque não tínhamos condições financeiras de gravar um álbum”, conta Flanders. “A gente ia bater na porta do secretário de cultura com os jornais, mostrando as matérias que tinham saído, as cidades onde já tínhamos nos apresentado.”
Até que finalmente deu certo, e com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado de Mato Grosso e da Secretaria Municipal de Cultura de Cuiabá, entraram no Estúdio Inca, na capital mato-grossense, para gravar as 14 faixas do disco. Produzidas por Thiago Marques, a maior parte delas foi escrita por Helio após o retorno de uma temporada na Bolívia, país onde a avó morava e ele ficou dos 17 aos 18 anos. Já Reginaldo co-assina “Miss Universe” e “Los Chicos de Ayer”, e “Beloved” é só dele.
Depois de gravado, ainda faltava dinheiro para prensar o disco. Então a revista OutraCoisa entra na história. Um dia a banda recebeu um e-mail do veículo criado por Lobão, que existiu entre 2003 e 2008, demonstrando interesse em lançar o disco. Cada edição da revista chegava às bancas de todo o país acompanhada de um CD. O Vanguart disse sim e assinou o contrato.
“De repente, o disco estava circulando no Brasil inteiro, 16 mil cópias”, Helio se recorda. “Foi meio que um milagre vencer as adversidades de ser uma banda de Cuiabá, sem dinheiro, cantando em três idiomas, e todos os jornalistas falando: ‘Vocês estão loucos, isso nunca vai dar certo’. Não sei se deu certo no sentido que eles imaginavam, mas deu certo reunir a força que uma banda precisa para existir.”
À beira do rio
Uma confluência é o ponto em que dois ou mais cursos de água se encontram, tornando-se um único canal. É isso o que acontece em Vanguart, onde desaguam versos em português, inglês e espanhol.
As composições em inglês vieram primeiro, herança do amor de Helio por Bob Dylan – em 2019, a banda viria a gravar um disco de versões do ícone do folk. “A gente estava descobrindo a nossa própria voz em português”, o vocalista compartilha.
“Semáforo” foi a primogênita na nossa língua. “Escrevi essa música numa madrugada, de uma vez, e mandei por e-mail para 20 amigos, falando assim: ‘Aí, fiz uma!’”. Não foram só os 20 amigos que gostaram, o público e a crítica também. Em 2007, a faixa entrou nas listas da Rolling Stone Brasil e do Scream & Yell.
“Nós somos uma banda de folk e blues em inglês. Nós somos uma banda de música brasileira quando cantamos em português. Claro, com influências do folk, do blues, do rock'n'roll, mas acho que são linguagens diferentes que acabam se encontrando dentro desse álbum”, Flanders faz um raio-x dos 46 minutos de Vanguart.
With a little help from my friends
Os encontros musicais e linguísticos não são os únicos desse disco. Reginaldo e Helio reforçam o papel que a amizade teve no trabalho, o que é ilustrado na própria capa de Vanguart, para qual o quinteto convidou alguns amigos: Julio Papatheous, Thaís Sagin, Mário Olimpio, Julio Nhanha, Fabrício Chabô, Arthur Bruno e Bruno Montalvão, que não pôde ir no dia da sessão de fotos, mas aparece num porta-retrato – do mesmo jeito que Nara Leão e Capinan aparecem na capa do clássico Tropicália ou Panis et Circencis (1968).
Na cena, registrada na margem do lago do agora Parque Tia Nair, na capital mato-grossense, outra personagem chama atenção: a viola de cocho, típica do som pantaneiro. Embora não seja usada no disco em si, eles decidiram homenagear o instrumento, cujo modo de fazer é considerado Patrimônio Imaterial pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Os amigos da capa ainda estão na vida deles, assim como vários dos que conheceram ao redor do país inteiro. Muitos desses contatos surgiram durante a onda dos festivais independentes que estavam em suas primeiras edições nos anos 2000, como o Mada, em Natal; o Bananada, em Goiânia; e o Varadouro, no Acre. Enquanto outros vieram da internet, nos tempos em que a Trama Virtual ainda estava no ar. O site, ativo entre 2002 e 2013, serviu de vitrine para muitos artistas independentes, interpretando um papel similar ao que o MySpace teve numa escala global.
À primeira vista, Vanguart não teria muitas coisas em comum com algumas das bandas das quais se aproximou lá atrás, mas outros elementos serviram de cola. No caso de Forgotten Boys, o afeto compartilhado por Bob Dylan, por exemplo, e com Ludovic, o teor poético das letras, elemento destacado pelo vocalista Jair Naves, figura importante na trajetória da banda. Ele os recebeu na sua casa quando o grupo ainda não tinha se mudado de vez para São Paulo, além de ter sido um dos primeiros a ouvir a master de Vanguart.
“Quando chegou em ‘Para Abrir os Olhos’, a última faixa, me emocionei como poucas vezes me emocionei ouvindo música. Tendo testemunhado o quanto eles se sacrificaram pelo seu sonho, pela sua música, chorei de orgulho, quase como se aquele fosse um disco meu”, o cantor e amigo se recorda. “Sabia que aquilo seria um marco não só para mim, não só da nossa amizade e da nossa história, mas algo que impactaria enormemente a vida de muitos outros ouvintes por aí. Quase vinte anos depois, o simples fato de estarmos tendo essa conversa mostra que eu não estava errado.”





