
O colecionismo é um hobby que pode estar ligado à afetividade da conexão física com a música, ao ritual de se sentar em frente à vitrola para escutar e contemplar o disco favorito ou à preferência pela sonoridade dos LPs, por exemplo. Mas tem outro fator muito importante nessa equação: alguns discos simplesmente não estão nas plataformas de streaming, como Spotify ou Deezer.
Atualmente, com poucos cliques, a internet nos permite consumir (quase) qualquer coisa, então é natural pensar que todas as músicas possíveis estejam nos catálogos dessas plataformas. Na prática, porém, ainda há uma quantidade considerável de discos que ficaram pelo caminho nessa migração para o digital, seja por terem sido esquecidos pelas gravadoras, por falta de interesse comercial ou por outros motivos.
É nesse universo que estão os discos desta lista. Alguns constam no Youtube graças à boa vontade de algum fã que subiu a versão em vinil, mas não é possível escutá-los via plataformas e perfis oficiais ou em nova masterização, por exemplo. Algumas, são raridades disputadas por colecionadores e outras, podem aparecer por poucos reais em um garimpo. Em comum, todos nos lembram que, apesar de a internet ter tornado a música mais acessível do que nunca, ainda existem obras que permanecem do outro lado da tela.
Moacir Santos - Coisas (1965)
No ano que marcaria o centenário de Moacir Santos, seu primeiro álbum solo segue fora das plataformas. Coisas foi lançado em 1965 pelo selo Forma e reúne dez composições instrumentais do maestro, todas identificadas pelo nome “Coisas” seguido de um número. A ideia vinha da música erudita, mas o resultado é uma combinação sofisticada de jazz e ritmos afro-brasileiros. Produzido por Roberto Quartin, o disco se tornou uma das obras mais reverenciadas de Moacir e chegou a ganhar uma reedição em vinil pela Polysom em 2013.
Tuca - Drácula, I Love You (1974)
Tuca teve uma carreira curta, mas deixou para trás uma obra que até hoje desperta a curiosidade de colecionadores. Drácula, I Love You, seu terceiro álbum, lançado pela Som Livre em 1974, é provavelmente o trabalho que melhor representa o lado mais experimental da cantora e compositora paulistana. São 11 faixas com arranjos que passam longe da MPB mais convencional daquele período e dialogam com o funk, o groove e o folk. Neste disco, a artista conta com a participação especial de Mário de Castro, que divide com ela algumas das composições.
Jorge Ben - On Stage (1972)
Jorge Ben já era um dos grandes nomes da música brasileira quando atravessou o mundo para se apresentar no Japão. A viagem rendeu On Stage, seu primeiro álbum ao vivo, registrado em 1972 com participação do Trio Mocotó e lançado originalmente no mercado japonês. Apesar da importância do artista e do repertório, que conta com “Mas, Que Nada”, “Oba, Lá Vem Ela”, “Cadê Tereza” e outros clássicos, esse capítulo da discografia segue fora das plataformas de streaming e é considerado um item raro no mercado do vinil.
Taiguara - Imyra, Tayra, Ipy (1976)
Em 1974, durante seu primeiro exílio em Londres, Taiguara gravou o disco Let The Children Hear the Music, que foi censurado mesmo no exterior e acabou nunca sendo lançado. De volta ao Brasil, gravou Imyra, Tayra, Ipy, com direção musical de Wagner Tiso e participações de Hermeto Pascoal em alguns arranjos. Contudo, 72 horas após o lançamento do álbum, a Ditadura Militar brasileira censurou-o e recolheu o LP das lojas. Pouco tempo depois, Taiguara partiu para o seu segundo exílio, passando por Inglaterra e Tanzânia.
Nara Leão - Os Meus Amigos São um Barato (1977)
Nara Leão transformou seu disco de 1977 em uma espécie de fotografia das amizades que construiu ao longo da carreira. Os Meus Amigos São um Barato reúne participações de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Carlos Lyra, Chico Buarque e outros compositores e intérpretes fundamentais da música brasileira. Apesar do peso do elenco, o disco completo não aparece nas plataformas.
Carlos Walker - A Frauta de Pã (1975)
Existem discos raros porque foram lançados por grandes artistas em pequenas tiragens, e existem discos raros porque praticamente ninguém se lembra que eles existiram. A Frauta de Pã, de Carlos Walker, pertence à segunda categoria. Cantor, compositor e astrólogo, Walker teve o apoio de Elis Regina no início da carreira e chegou a participar de trilhas de televisão antes de lançar seu único LP pela RCA. O álbum mistura música brasileira, folk e psicodelia em uma sonoridade bastante particular, enquanto a trajetória pouco documentada do artista ajuda a explicar seu desaparecimento.
Sueli Costa - Vida de Artista (1978)
Sueli Costa é um daqueles casos em que a importância como compositora acabou ofuscando a própria discografia. Um bom exemplo está justamente no título de seu álbum de 1978: “Vida de Artista”, canção que ficou conhecida na voz de Gal Costa. No disco, Sueli apresenta sua própria interpretação da música ao lado de outras canções que ajudam a revelar a compositora por trás de sucessos gravados por nomes como Nara Leão, Elis Regina e Simone.
Plebe Rude - Mais Raiva do que Medo (1993)
Quarto álbum de estúdio do Plebe Rude, Mais Raiva do que Medo foi lançado em 1993 e acabou sendo o último disco da banda antes de uma pausa que duraria alguns anos. Na época, o Plebe Rude funcionava como um duo formado por Philippe Seabra e André X, que recorreram a dois bateristas convidados para as gravações. Por falar em convidados, o álbum conta com os vocais de Renato Russo e a guitarra de Dado Villa-Lobos em “Pressão Social”, enquanto Fernando Magalhães, guitarrista do Barão Vermelho, participa de “Mundo Real”.
Rita Lee e Lúcia Turnbull - Cilibrinas do Éden (1973)
Depois da saída de Rita Lee dos Mutantes, a cantora formou com Lucinha Turnbull a dupla Cilibrinas do Éden, que mais tarde daria origem à banda Tutti-Frutti. As duas gravaram um álbum em 1973, mas o material acabou não sendo lançado oficialmente e permaneceu inédito por décadas. Somente em 2008, uma obscura gravadora espanhola comandada por brasileiros chamada Nosmokerecords lançou o disco de forma pirata com 500 exemplares em CD e mais 500 em vinil 180 gramas.
Pessoal do Ceará - Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem (1973)
Meu Corpo Minha Embalagem Todo Gasto na Viagem reúne Ednardo, Rodger Rogério e Teti em um álbum lançado pela Continental em 1973. O disco combina referências da música nordestina com a canção urbana e antecipa características que seriam desenvolvidas individualmente pelos três artistas nos anos seguintes. É um daqueles trabalhos fundamentais para entender uma cena musical, mas que ficaram escondidos atrás da fama posterior de seus integrantes.
Marília Medalha - Marília Medalha (1969)
Esse é difícil de entender. Uma artista consagrada e de alto nível técnico. Arranjos de Rogério Duprat, que no ano anterior ganhava notoriedade ao trabalhar com gente como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Os Mutantes. Uma linda versão de "São Paulo, Meu Amor", de Tom Zé – outro nome em ascensão naquele momento. Lançamento pela Philips, uma das gigantes da época, com direito a single e divulgação nas rádios. Precisa de mais? Pelo visto, precisava. Marília conseguiu construir uma carreira de sucesso, mas esse LP segue esquecido mesmo por muitos aficionados do tropicalismo.
Beto Terra - Tambores da Tribo (1996)
Basta uma rápida olhada na contracapa para entendermos que temos em mãos um disco feito na base da raça e do amor. Mais de 40 anúncios publicitários, de autoelétricas a clínicas oftalmológicas, dão pistas da batalha que Beto Terra, santista então radicado em Umuarama (PR), travou para colocá-lo nas prateleiras. É um disco de altos e baixos, em que se destacam “Primeira Manhã Xetás” e “Naipi e Tarobá”. Como tantos discos esquecidos, Tambores da Tribo cria o retrato da cena musical de uma cidade do interior, marcada por músicos que jamais alcançaram a fama, mas dedicaram suas vidas à cultura do país.
Eloá - Cláudia (s/data)
Se os álbuns brasileiros não digitalizados são cada vez mais raros graças ao esmero de colecionadores, o mesmo não pode ser dito dos compactos. Talvez o motivo sejam as pequenas tiragens: muitas gravadoras lançavam uns poucos exemplares de artistas desconhecidos para testar a receptividade do mercado. Se a vendagem fosse ruim, a carreira podia acabar ali. Tudo indica que foi o caso de Eloá, que lançou esse compacto estranhíssimo pelo selo Embalo, de Goiânia. Destaque para os vocais agudos de tonalidade onírica e o saxofone frenético, que juntos soam como um café-da-manhã de ressaca.
Sergian - Atualidade e Mitologia (1976)
Nem precisava avisar: colecionador nenhum que se preze deixaria essa capa passar se a encontrasse no bacião de cinco reais. Este é o único álbum lançado por Sergian – apelido de Sérgio Angelloti, como deixa transparecer a autoria de todas as faixas. As músicas, uma mescla de Jovem Guarda e brega ao estilo de Fernando Mendes, soam anacrônicas para 1976. Mas os improvisos de guitarra fuzz, os arranjos de sopro pontuais e a competência de Sergian fazem com que a faixa-título e “Coisas das Coisas” justifiquem a busca por esse LP. Além da capa, é claro. A capa já seria suficiente.
Alberto Ribeiro - Aviso Aos Navegantes (1956)
O texto na contracapa do 10 polegadas compara Alberto Ribeiro a João do Rio, Olavo Bilac e Machado de Assis. Pode parecer exagero, mas não é: Aviso aos Navegantes foi, nada mais nada menos, que o primeiro disco de protesto brasileiro, com 16 sambas de crítica à ditadura do Estado Novo. Alberto (não confundir com o homônimo português, cantor de fados) trata também do acesso à educação, do analfabetismo, da desigualdade e de outros problemas que ainda assolavam o país. Talvez o injusto esquecimento do álbum se deva em parte porque o disco só saiu após o fim do regime Vargas.
Firmino de Itapoã - Firmino de Itapoã (1980)
Firmino está longe de ser um artista esquecido – com um punhado de álbuns lançados, o sambista baiano chegou a fazer turnês pelo exterior e se tornou nome conhecido em rodas de samba do Rio. Na lista de artistas que gravaram composições suas, constam Beth Carvalho e Gilberto Gil, mas isso não foi o suficiente para que alguém se interessasse por digitalizar sua obra completa. Por isso, hoje sua base de fãs é mais restrita à Bahia. Esse disco mescla o samba popular da época, com alguma influência de Wando, e elementos do candomblé. Destaque para o groove de “É Bahia, é Salvador”.
Vários Artistas - Coleção Documentos da Música Brasileira (1979-1984)
Produzida pela FUNARTE, a coleção Documentos da Música Brasileira teve ao menos 13 volumes. Dedicada a compositores brasileiros de música erudita, as edições contam com encartes caprichados e, em alguns casos, participação dos compositores. Lançada no final da década de 1970, ela simboliza um bom investimento público na divulgação e preservação da arte brasileira – tanto é que muitas das peças presentes nesses discos não ganharam novas gravações comerciais desde então. E ela está longe de ser caso isolado: Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro e a coleção de compositores paraenses da UFPA são outros bons exemplos.
Terra Viva - Canto Índio (1979)
No final da década de 1970, a música gauchesca já havia se consolidado do ponto de vista comercial. Mas alguns conjuntos jovens passaram a trabalhar o gênero desde uma abordagem menos dogmática. Nas letras e na sonoridade (com a incorporação de instrumentos andinos, indígenas e do candomblé), esses conjuntos propunham uma estética de integração latino-americana, influenciados por nomes como Mercedes Sosa. O estilo mais suave e o sotaque menos marcado permitiu a eles conquistar públicos para além do Sul do Brasil. Dessa safra, o grupo Terra Viva é um dos exemplos mais vibrantes.
Zé do Norte e Seus Guriatãs - Zé do Norte e Seus Guriatãs (1973)
Zé do Norte não pode ser considerado um desconhecido sob nenhum aspecto. Com longa carreira no analógico, ele se tornou famoso principalmente pelo clássico "Mulher Rendeira", embora alguns questionem sua autoria e afirmem que a obra é uma canção popular adaptada pelo paraibano. Seja qual for o caso, Zé do Norte é um músico excepcional que transita com facilidade pelo maracatu, baião, maxixe, toada e outros ritmos do Nordeste brasileiro. Falecido em 1992, ele vem ganhando notoriedade nos últimos anos devido ao resgate de sua obra por DJs, muitos deles estrangeiros. O fato da maior parte de sua discografia jamais ter sido digitalizada é inexplicável.
Esterzinha de Souza - Histórias das Malocas (1962)
Com dez canções compostas pela dupla Hervê Cordovil e Osvaldo Moles, Histórias das Malocas foi concebido como registro do programa de mesmo nome transmitido em rádio e TV na época. A intérprete Esterzinha de Souza passeia pelo samba-canção e pelo choro para narrar diversos episódios cotidianos sem relação direta, mas situados em um mesmo universo – as malocas de São Paulo. Com personagens recorrentes (como Chico Linguiça e Pé de Chinelo) e intervenções de Adoniran Barbosa, que surge em alguns pontos como “apresentador” (sob o nome de Charutinho), o LP tem estrutura semelhante a um musical.

































