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Quem é Michelle Abu, percursionista requisitada por Catto, Ira! e Fafá de Belém


Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação

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A multi-instrumentista Michelle Abu construiu uma trajetória que dispensa rótulos musicais. Na verdade, classificá-la seria dificílimo: com quase três décadas de carreira, a baiana é uma percussionista disputada. Já tocou com nomes tão distintos quanto Catto, Fafá de Belém, Fresno, As Mercenárias e até com o projeto infantil Palavra Cantada.

Essa versatilidade é fruto de uma formação musical ampla, que nasce em Salvador — e, sobretudo, de um fascínio pelo som. “As pessoas pensam que trabalho pela grana, mas o dinheiro veio depois. Sempre fui viciada em música”, conta. Além de integrar várias bandas, Michelle toca projetos solos — estreou com o álbum Michelle Abu #1 (2014) e se prepara para o segundo disco.

Esse vício começou ainda na infância, quando o irmão chegou com Cabeça Dinossauro (1986), dos Titãs. Esse momento marcou o rock como sua primeira escola. Mais tarde, integrou a banda de percussão feminina Didá (formada com apoio de ninguém menos que Paul Simon), entre outras. Passou a circular por festivais e shows na Bahia, se aproximando de grandes nomes da música popular, como a ministra Margareth Menezes.

A virada na carreira veio quando recebeu um convite para tocar em Salvador, no ano 2000, com a própria Margareth, além de Daúde e Sandra Sá. “Ali, eu comecei a ter noção de onde poderia chegar profissionalmente”, lembra. No line, também estava Cássia Eller — mais tarde, como se fosse o destino, os caminhos de Abu e Catto se cruzariam com uma “forcinha” da saudosa cantora: Michelle entrou para a banda de Catto justamente quando ela se apresentava com o repertório de Cássia.

Hoje, Michelle transita com fluidez entre colaborações e projetos pessoais, entre os palcos e a TV (ela fazia parte da banda do programa Só Toca Top, da Rede Globo), construindo uma carreira marcada pelos encontros. “Tocar com a Elza [Soares], por exemplo, foi muito emocionante. Posso dizer que só trabalhei com artistas que admiro”, conta.

Sua inspiração vem tanto da intensa pesquisa musical quanto do silêncio — ou até do barulho do mar —, o que, ela explica, não é nada contraditório. Quando era adolescente, percorria o litoral sul da Bahia sempre com um violão debaixo do braço. “Costumo dizer que era ‘violonista de fogueira’ [risos]”.

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A Bahia é o berço de uma percussão genuinamente brasileira. Ter crescido no meio de tudo isso deve ter te influenciado. Como você enxerga essas referências na sua abordagem?

Costumo dizer que o Brasil é o país mais percussivo do mundo, e a Bahia é um berço musical gigantesco. Tem o Carnaval, as festas de rua, a Lavagem do Bonfim. Só no Recôncavo tem muito samba de roda, grupos de candomblé — é uma infinidade de sons. Quando era pequena, sempre estava batucando alguma coisa [risos]. Até hoje, em Salvador, você vê criança batucando lata. Outro dia, achei fotos minhas com instrumentos de percussão. Adorava um timbau que meu pai me deu. Aos 15, ganhei meu primeiro violão.

Qual foi o “click” para você querer viver de música?

Foi quando estudava Biologia e formei uma banda. Eu era compositora, tocava violão e fazia backing vocal. Essa banda começou a tocar em todos os circuitos da faculdade, então troquei a Biologia pelo curso de Música. Tinha uns 18 anos. Nessa época, recebi o convite para um teste na Didá, banda de percussão feminina. Meu irmão tinha uma bateria, então comecei a praticar as músicas e passei nesse teste. A partir daí, a bateria virou meu primeiro instrumento profissional

O que você gostava de ouvir quando era adolescente e o que — nessa época ou depois disso — te moldou como musicista?

Quando criança, escutei muita música brasileira em casa: Elis, Chico, Caetano, Gilberto Gil, Gal, Bethânia, Novos Baianos… Muita coisa de axé music da década de 80: Armandinho, o Trio Elétrico Dodô e Osmar. Quando tinha oito anos, meu irmão chegou em casa com o Cabeça Dinossauro [dos Titãs]. Esse disco fez parte da minha infância. Depois chegaramRaul, Camisa de Vênus, Legião Urbana, Cazuza, Paralamas, as bandas grunge, Alanis Morissette… e, claro, Janis Joplin, Jimi Hendrix e por aí vai. Quando cheguei em São Paulo, estava com minha banda de rock. Abrimos um show do Ira! e, em 2004, fui convidada para gravar o Acústico deles.

Esse momento mudou minha vida — mudei de cidade e ainda embarquei em uma tour gigantesca com eles. Aí toquei com o Scandurra e num projeto dele com o Arnaldo Antunes chamado A Curva da Cintura. Depois vieram Lobão, Paulo Miklos, toquei nas Mercenárias por seis anos, entre outras parcerias especiais. Então, o rock sempre esteve presente na minha história. Mas sou apaixonada pela música brasileira, pela cultura, pelos ritmos. Por tudo isso que a gente tem aqui — que só a gente tem.

Hoje, você ministra oficinas com materiais reciclados, como o “Workshop de Ritmos”. Quando surge a vontade de repassar seu conhecimento?

Cresci em Salvador e comecei a estudar percussão num contexto muito rico. Tinha um evento muito bacana chamado PercPan, e os apresentadores eram ninguém menos que Naná Vasconcelos e Gilberto Gil. O formato era incrível: de dia, aconteciam oficinas com os artistas que se apresentariam à noite. Você aprendia uma coisa de tarde e, mais tarde, via aquilo sendo aplicado na prática.

A partir daí, percebi que não queria dar aula no formato tradicional, mas trabalhar com oficinas — especialmente para pessoas que nunca tocaram nada. Gosto de ver esse processo de descoberta. Costumo dizer que, se você dança, você toca. Está tudo ali. Fui convidada para um evento da Coca-Cola e me pediram para levar coisas recicláveis. Fui pesquisar e levei tonel, pia... A partir daí, comecei a incorporar esses elementos ao meu trabalho.

Atualmente, você também integra a banda da Catto. Como é tocar com ela?

Toco com a Catto há mais de dez anos. Fui chamada inicialmente para um show especial em homenagem à Cássia Eller, e logo depois entrei na turnê do Tomada (2015). A Catto é muito visceral e autêntica, uma cantora de verdade — tanto nas próprias músicas quanto interpretando outros repertórios. Sempre me encantou ver a busca dela por sair do lugar-comum. Tocar e criar com ela é um dos maiores prazeres da minha vida. Ela dá liberdade para cada um ser quem é — e valoriza o que cada músico traz. Trabalhar com uma artista tão aberta e versátil, que gosta de ver todo mundo somando junto e fazendo a coisa acontecer, é muito especial.

Por:

Damy Coelho

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