Revistas impressas estão de volta? Entenda o novo boom do papel


Por:

Damy Coelho

Fotos: Divulgação

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“A revista impressa vai voltar com tudo”. Quem cravou essa frase foi um dos maiores publicitários do país, Nizan Guanaes, em entrevista à Veja, no ano passado. E essa percepção, apesar de vir de um especialista, não parece isolada: basta rolar o feed para ver cada vez mais pessoas exaltando a mídia física, incluindo as próprias revistas.

A volta ao impresso de publicações amadas por gerações, como a Capricho, acompanha essa demanda: a primeira edição impressa da revista, de 2024, após quase 10 anos sem circular, teve 80% de seus exemplares vendidos, e até ficou esgotada em algumas bancas. Esses fatores mostram que, se a revista não "voltou de vez", pelo menos, seu valor vem sendo redefinido e repensado.

Um novo lugar para as revistas

Recentemente, outra queridinha do público, a revista Bravo!, anunciou que voltaria a circular fisicamente. A última edição impressa foi publicada em 2013, quando o mercado editorial estava em franco declínio.

Parece que, vivendo por quase 20 anos um processo de evolução digital acelerada, as pessoas estão voltando a valorizar os benefícios da leitura no papel. “Todo mundo adora o impresso", disse Alice Granato, diretora de núcleo da Bravo! e de Veja São Paulo, em entrevista ao Meio & Mensagem. “Justamente por vivermos tanto o digital, o momento pede calma. O impresso traz essa tranquilidade de leitura, de apuração, sem contar a qualidade do design gráfico e da fotografia.”

O impresso parece estar entendendo qual espaço ocupar em um mercado onde redes sociais, conteúdos rápidos e informação em larga escala são predominantes. Se não dá pra competir com essa realidade, é válido que a revista deixe de ser meio para ficar informado sobre as últimas notícias e sirva, então, como um retrato apurado e mais aprofundado de seu tempo.

O papel do papel

Para Ricardo Moreno, fundador da plataforma The Summer Hunter, não se trata, porém, de um "retorno do impresso" puro e simplesmente. Ele percebe que a revista deixou de ser a fonte primária de informação, como era durante seu auge, para assumir uma função de reforço de identidade.

“Hoje já não dá para depender apenas da venda em banca”, diz Moreno. O modelo tradicional das revistas, baseado em publicidade e assinaturas, perdeu escala e centralidade. A publicação impressa, portanto, precisa encontrar outras formas de justificar sua existência e financiar sua produção.

É aí também que aparecem novos caminhos para a sobrevivência do impresso. Edições especiais, projetos gráficos elaborados, interesse das marcas em criar vínculos com o público por meio de uma publicação física e até tiragens menores e mais espaçadas fazem parte desse novo cenário.

Hoje, revistas como a Elle, além da própria Capricho, apostam em edições especiais semestrais ou trimestrais, enquanto a revista do próprio The Summer Hunter circula anualmente.

Isso não significa, porém, que o impresso ande separado do digital, mas o complemente. Hoje, muitas publicações que mantêm edições físicas fazem parte de um ecossistema editorial que envolve sites, redes sociais, newsletters e podcasts. Para Chantal Sordi, editora de consumo da Elle, os formatos atendem a objetivos distintos:

“O site acompanha o ritmo da informação, as redes ajudam o conteúdo a chegar a novos leitores e a newsletter fortalece a relação com o leitor engajado. Já a revista abre espaço para histórias mais aprofundadas, fotografia, direção de arte e uma experiência de leitura diferente. Acho que o futuro está nessa convivência de formatos”, conta.

Por aqui, também mudamos

A Noize também acompanhou esse processo. Prestes a completar 20 anos, a publicação nasceu em 2007 como revista mensal e independente, acompanhando as principais novidades e tendências da música nacional e internacional, até se tornar uma publicação mensal voltada ao clube de assinaturas de vinil Noize Record Club. Todo mês, a revista Noize publica conteúdos relacionados específicos sobre o disco que a acompanha.

Mudanças como essas dizem muito sobre o novo papel do impresso. Se antes a revista podia funcionar como um registro do que estava acontecendo naquele momento, hoje ela pode assumir um caráter mais atemporal, pensada para ser guardada, revisitada e colecionada.

O relatório de 2025 do Reuters Institute, em parceria com a Universidade de Oxford, ajuda a entender o novo cenário. A queda do tráfego vindo de buscas e redes sociais, com o advento da IA, tem levado publishers a reconsiderar canais menos dependentes das plataformas e de seus algoritmos, o que incentiva o mercado impresso, especialmente nos Estados Unidos e Europa. E há também uma questão de demanda pela nossa atenção, cada vez mais valiosa em um mar de conteúdos: ao contrário das telas, que apitam, piscam e disputam constantemente a atenção do leitor, o papel oferece uma experiência imersiva, sem notificações e interrupções.

Não se trata, portanto, de dizer que o impresso recuperou a centralidade que já teve, mas de entender que, justamente por ter perdido essa centralidade, a revista pode ocupar outro lugar - menos efêmero e mais colecionável.

Vivendo no independente

De fato, as revistas estão encontrando novos espaços, nos mais diversos segmentos. Enquanto algumas ressurgem, outras nascem neste novo mercado. A Paprika, por exemplo, surge para se debruçar sobre gêneros musicais brasileiros e refletir sobre a sociedade que os produz, com foco especial no protagonismo negro. Outro exemplo é a Ouriço, revista dedicada à cultura e literatura, que tem como editores Daniel Arelli, Gustavo Silveira Ribeiro e a poeta Ana Martins Marques.

Criada por Thaís Regina, a primeira edição da Paprika, dedicada ao samba, parte da música para discutir também memória, território, manifestações culturais, religiões de matriz africana e narrativas marginalizadas. A revista se divide entre os cadernos “paprika doce”, com formatos mais soltos, lúdicos e literários, e “paprika picante”, dedicado a assuntos e reportagens mais densos.

Da geração millennial - como todos os entrevistados nesta matéria - as duas cresceram lendo revistas e têm no impresso um resgate afetivo, mas também uma forma de registrar o presente para o futuro. Afinal, por ser impressa, a revista pode ser guardada, revisitada, presenteada, inclusive pode circular por sebos, sendo recuperada por gerações futuras. Elas também contam uma história, assim como os livros.

É justamente essa capacidade de sobreviver ao seu próprio presente que parece estar no centro do novo interesse pelas revistas.

Por que amamos revistas?

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que o impresso passou a oferecer quando deixou de tentar competir com o digital: tempo e reforço de identidade. Perguntamos aos nossos entrevistados por que eles ainda veem valor no impresso. Veja algumas respostas:

“Gosto da expressão coffee-table magazine: de que maneira aquela revista ajuda a construir a sua identidade diante das pessoas que orbitam a sua vida, os amigos, a comunidade, a sociedade? Ela funciona, portanto, como um instrumento de identidade para quem lê e de relacionamento para quem a produz, não apenas como um objeto editorial.”

Ricardo Moreno, fundador da plataforma The Summer Hunter

“Nasci nos anos 1980, então cresci cercada por revistas. Comecei pelos gibis da Turma da Mônica, depois veio a Capricho e, mais tarde, as publicações de música e moda que eu garimpava pelas bancas. Hoje descobrimos assuntos por diversos canais, mas continuo recorrendo ao impresso pela curadoria, pela profundidade e pela qualidade da apuração, que nem sempre encontramos com a mesma consistência em outras plataformas digitais.”

Chantal Sordi, editora de consumo da Elle

“Revistas impressas fizeram parte da minha infância e adolescência. Tenho memórias alegres e curiosas de quanto elas habitavam minha casa, mas também memórias de escassez, de quando desejava edições que não podia comprar. Mais tarde, entraram para minha trajetória profissional: guardo com carinho publicações em edições da NOIZE e da revista Balaclava, por exemplo. Essas experiências fizeram com que eu me apaixonasse principalmente pelo processo de fazer uma revista, toda a dimensão estrutural, narrativa e estética que essa mídia proporciona, essa possibilidade de criar uma experiência, uma imersão. Os anos passam e o orgulho de poder segurar parte do meu trabalho em mãos ainda segue.”

Brenda Vidal, editora da Paprika

“Eu sou aficionada por revistas. Não cresci com muitas, mas sou rata de sebo. E, trabalhando como repórter, comecei a enxergar nas revistas uma espécie de artefato que atravessa o tempo. O sebo tem muito disso: é um garimpo no aleatório, pesquisa hardcore. Em uma tarde, você passa por diferentes revistas de diferentes décadas e é incrível ver a transição gráfica, como as pessoas se vestiam, quais eram as pautas, o que era polêmico e o que era uma tendência. Nada é neutro. Por isso, quis assumir de cara o compromisso da paprika com um registro cultural e político do nosso tempo, com foco em protagonismo negro, tanto na capa quanto na redação.”

Thaís Regina, fundadora da Paprika

Por:

Damy Coelho

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