Renato Piau: conheça o guitarrista de Luiz Melodia e Tim Maia


Por:

Ariel Fagundes

Fotos: Acervo pessoal Renato Piau/Reprodução

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Sérgio Sampaio e Raul Seixas o chamavam de “Lerinha”, um diminutivo carinhoso de “Piauleira”. O apelido que eles deram, na verdade, era uma brincadeira com o termo “rock pauleira” e surgiu a partir de uma derivação do nome “Piau”. Essa é a alcunha oficial que o guitarrista Renato Costa Ferreira, o Renato Piau, assumiu homenageando sua terra natal, o Piauí.

Nascido em Teresina, em 1953, ele acompanhou, além de Sampaio e Seixas, muitos outros músicos lendários, como Tim Maia, Marku Ribas e Arnaud Rodrigues. Com Luiz Melodia, desenvolveu uma amizade muito profunda, que refletiu-se em uma parceria de décadas, tanto nos palcos quanto nos estúdios. 

Essa é a história de um menino que sonhava em ser guitarrista no Rio de Janeiro e acabou participando de alguns dos momentos mais importantes da  música nacional. 

A revelação elétrica  

Renato foi o único filho da família Costa Ferreira que nasceu em Teresina, seus pais e irmãos nasceram na região da antiga Fazenda do Estanhado, onde hoje é o município de União, a 60 km da capital do estado. Na virada dos anos 1950 para os 60, o local ainda era um vilarejo onde a luz elétrica era novidade e foi lá que o pequeno Renato descobriu a música. “Um dia, às seis horas da manhã, eu ouvi uma banda tocar na rua. Não tinha violão ou contrabaixo, era aquela banda tradicional, só com instrumentos de sopro, tumba, sax, etc. Eu me levantei, corri e fui ver. E aquilo me encantou. O instrumento que eu mais gostei foi o bombardino”, lembra. 

Renato conta que havia um ambiente muito musical na sua casa, suas tias maternas e sua mãe cantavam na igreja. Sua tia Maroca casou-se com um maestro chamado Raimundo del Vale, figura importante na cenário cultural de União. Foi através deles que Renato, com cerca nove anos, começou a familiarizar-se com diferentes tipos de instrumentos. “Eu ia lá e pegava no contrabaixo, aí já comecei a gostar do negócio de cordas”.

Porém, o estudo formal da música era algo extremamente rígido e os adultos não o deixavam ficar brincando com instrumentos. Se ele quisesse tocar, teria que aprender à moda antiga.

“E eu achava aquilo muito chato, solfejar, não sei o quê. Com uns dez anos, minha mãe me botou pra aprender piano lá em Teresina, que era um instrumento para a sociedade e tal, e não deu muito certo. Não tenho muita destreza pro piano e acho que a professora também não quis me ensinar porque eu já queria fazer um outro som, que não era o que ela tocava”.

Desde criança, Renato já sentia uma inclinação pra música, mas ainda não sabia o que queria tocar. A dúvida acabou após uma viagem que fez com sua família para Parnaíba, para conhecer o litoral piauiense. Quando voltou a Teresina, descobriu que havia uma banda de rock apresentando-se na cidade, seu nome era The Clevers.

“No dia em que voltei, estava aquele fuzuê dentro de casa, minhas irmãs encantadas com os Clevers. E eu fui ver, eram uns caras cabeludos, cheios de anéis nos dedos, com aquele monte de mocinha querendo beijar eles. Aí pensei: ‘Ih, rapaz, já achei meu instrumento. Quero uma guitarra!’. Mas aí foi um suplício pra arrumar a porra da guitarra”.

Renato diz que sua família foi contra. Insistiram que já havia o acordeon do seu irmão e um violão em casa, mas não adiantou. Aos 12 anos, após muita insistência, ele ganhou uma guitarra da marca brasileira Saema e, na falta de um amplificador, adaptou uma vitrola ABC (cujos modelos possuíam caixas e toca-discos embutidos) para plugar ali o instrumento.   

Bloco na rua

A partir dos 14, ele começou a tocar profissionalmente em conjuntos que surgiram na cena de Teresina. Já estávamos no fim dos anos 1960 e a jovem guarda, a Tropicália e o rock n’ roll em geral tinham inflamado os ouvidos da juventude teresinense. “Chegavam discos do Led Zeppelin, Creedence Clearwater Revival, Renato e seus Bluecaps, Roberto Carlos, Erasmo Carlos. O primeiro disco do Led que ouvi na vida, eu pirei. Quando Roberto lançou o disco da Jovem Guarda, ouvi até furar”. Piau virou então guitarrista do The Dands, depois seguiu para Os Metralhas, Os Lordes, Os Brasinhas (uma banda importante da cidade) e, por fim, José e os Quatro Azes.  

No dia 28 de fevereiro de 1971, com 17 anos, ele deixou Teresina para ir morar no Rio de Janeiro. “Eu fui pra estudar o Científico no colégio Visconde de Cairú. Estudei até julho, mais ou menos. Aí, nas férias, fui assistir a um conjunto chamado Os Celtas. Quando cheguei e vi eles tocando ‘Temptation Eyes’, eu achei aquilo fantástico e voltou tudo, eu pensei que eu tinha que tocar”.  

"Aí eu fui lá, de bicão mesmo, falar com os Celtas", lembra ele. “Pô, eu sou guitarrista, vim lá do Piauí”. Os caras olharam pra minha cara e não levaram fé, gozaram de mim. “Ah, tu toca mesmo?”. “Toco, bicho. Tocava lá no Piauí”. “Piauí? Seguinte, meu irmão, então amanhã, nove horas, tu vai lá na rua tal que a gente vai estar ensaiando”. Aí os caras riram e eu fiquei pensando: “Porra, vou mostrar pra eles que eu sei tocar essa merda”.

No dia seguinte, oito e meia eu já estava lá, cheio de marra. Falei assim: “Eu só preciso do baixo e da bateria pra me acompanhar”. Aí toquei, solei lá um negócio, e os caras: “Rapaz, não é que o paraíba toca mesmo!”. Ainda me chamaram de “paraíba”! Foi aí que começou a minha carreira no Rio.

Renato conta que Os Celtas lhe falaram sobre outro conjunto, Os Selvagens, que estava precisando de um guitarrista. Michael Sullivan e Hyldon já haviam tocado nesse grupo e a vaga estava livre. Piau então foi na gravadora CBS atrás deles, na cara de pau mesmo. “Fui lá, fiz um teste e os caras me acataram. Aí comecei a tocar com Os Selvagens, fizemos bailes aqui no Rio de Janeiro, fomos à Bahia, conheci o Rossini Pinto. E aí, quando vi que já estava mexendo com música mesmo, eu fui na casa do Torquato”, conta Piau.

Encontrando Torquato

A essa altura, em 1971, Torquato Neto já era um escritor conhecido, especialmente por causa das suas parcerias com os tropicalistas, mas também por causa da sua atuação na imprensa. Torquato também nasceu em Teresina, mas era nove anos mais velho que Piau. O irmão mais velho de Renato havia sido professor de inglês de Torquato e havia uma proximidade entre suas famílias. “O Torquato era amigão de todos lá em casa, mas eu era o caçula.

Quando soube quem ele era, ele já estava nessa onda da Tropicália. Achei incrível quando ele falou do Barrocão, que é um bairro de Teresina, em ‘A Rua’, música dele e do Gil”. A ideia inicial de Piau era começar uma parceria com o poeta conterrâneo, o que não chegou a se concretizar. Em contrapartida, Torquato apresentou a ele o poeta Sérgio Natureza, com quem Piau compôs nos anos seguintes “Bem Entendido” e “Sweet Edy”, ambas lançadas em 1974 no disco de estreia de Edy Star

Mas antes disso, no início de 1972, surgiu o convite para integrar a banda de ninguém menos do que Luiz Gonzaga. Por três meses, Renato Piau tocou guitarra, ao lado do sanfoneiro Dominguinhos, na série de shows que Gonzagão fez no Teatro Tereza Raquel. O registro desse encontro foi lançado em 2001 no CD Ao Vivo - Volta Pra Curtir. O diretor desse espetáculo era Jorge Salomão, poeta e irmão do também poeta Waly Salomão. Piau começou a se aproximar desse pessoal todo e, nos camarins do Tereza Raquel, conheceu artistas como Maria Bethânia, Pepeu Gomes, Gilberto Gil e Caetano Veloso, pois todos eles faziam questão de ir cumprimentar Gonzagão.

"Calma, meu irmão!"

Em paralelo a isso, pelos corredores da CBS, fez grande amizade com artistas como Odair José, Paulo Diniz e Leno (da dupla Leno e Lilian). “A gente ia lá todo dia, se tinha gravação ganhava um dinheiro, se não tinha ia pra encontrar os amigos”. Foi lá que ele viu pela primeira vez Sérgio Sampaio e Raul Seixas. “Eu via os caras, mas não dava bola, minha turma era outra”. Tudo mudou quando ouviu no rádio “Classificados Nº 1”, que Sérgio havia lançado em um compacto em 1972. “Quando escutei essa música, enlouqueci”, lembra Piau. 

"Aí cheguei na CBS e a primeira pessoa que encontro é ele. Falei: “Sérgio Sampaio? Pô rapaz, escutei uma música sua, bicho, que música bacana! Parece até as coisas do Caetano”. Porra, quando eu falei isso... O Sérgio, que tinha a personalidade dele, partiu pra cima: “Por que as pessoas têm que rotular?! Caetano nada! É Sérgio Sampaio!”. E eu: “Serginho, calma meu irmão, já almoçou? Você deve estar com fome! Vamos almoçar!”. Tinha um restaurante do lado, comemos arroz de polvo, tomamos muito chopp, aí o bicho se acalmou. Aí fomos pra casa dele, violão, cervejinha e tal, e aí eu já bolei com ele a introdução do “Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua”.

Renato conta que Sampaio apresentou ele a Raul Seixas, que era o seu produtor na época, e juntos eles fizeram a gravação dessa que é a música mais conhecida de Sergio até hoje. “Essa introdução é antológica, é só nós dois [Sergio e Piau]. E eu gravei com um violão do Raul, era um violão caipira, preto. Eu queria tanto ter esse violão, mas depois o Raul ficou famosão e esse violão desapareceu”.  

“Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” foi apresentada originalmente no VII Festival Internacional da Canção (FIC). A faixa saiu em um compacto em 1972, foi incluída em um LP chamado Os Grandes Sucessos Do F.I.C. 72 e tornou-se um grande sucesso nacional, sendo um verdadeiro hit do carnaval de 73. Nesse ano, a canção deu nome ao LP de estreia de Sergio, produzido por Raul Seixas, que levou o amigo para a Philips quando saiu da CBS. 

Com Raul, Piau conta que gravou a primeira versão de “Let Me Sing, Let Me Sing”, por ocasião do mesmo VII FIC. Inclusive, a faixa também saiu em um compacto na época e no mesmo LP citado, Os Grandes Sucessos Do F.I.C. 72. A participação no FIC foi tensa para Piau, mas valeu a pena:

- Teve um rolo nesse negócio. Nós fomos lá ensaiar e o maestro queria me botar no fosso com os outros músicos. Quando o cara falou isso, o Sergio Sampaio falou: “De jeito nenhum! Piauleira vai tocar comigo no palco!”. Nós tocávamos juntos e eu tinha que ver o violão dele enquanto a gente estava tocando. Ele peitou o maestro, disse que eu não ia tocar no fosso, foi uma confusão, eu fiquei calado, resultado: toquei no palco. E o festival abriu muitas portas pra gente.

Redescoberto

Em 1973, além do disco de Sampaio, Piau fez o LP Pérola Negra, de Luiz Melodia. Em 1974, ele foi para Brasília, onde morou até 76 com Martha de Barros, filha do poeta Manoel de Barros e mãe do seu filho, que havia recém-nascido. De volta ao Rio, ele conheceu aquele que seria talvez o seu maior parceiro: Arnaud Rodrigues. “Eu e o Arnaud tivemos mais de 120 músicas gravadas. Tem umas que eu nem lembro mais”, afirma.

Por coincidência, o primeiro disco de Arnaud, Sound & Pyla - Ou Homenagem do “A” ao “Z” (1970), foi gravado com uma banda rebatizada de Unidade C, mas, na verdade, era o mesmo The Clevers que fez Piau querer ser guitarrista quando era criança em Teresina. Em 1976, Arnaud era, além de músico, um profissional de televisão notório pelo seu trabalho ao lado de Chico Anysio. Desde 1973, eles tinham o projeto Baiano e Os Novos Caetanos, que, apesar do tom satírico, lançou ao todo quatro LPs com grandes músicas. 

Apresentados por Toninho Café, Piau e Arnaud ficaram muito próximos. O terceiro disco solo de Arnaud, Som do Paulinho (1976), já trouxe uma parceria deles: “O Dia em que o Diabo roubou o bar do português (1968)”. Em 78, saiu um compacto com outra, “Caruaru”. No LP seguinte de Arnaud, Redescobrimento (1979), oito das onze músicas presentes foram feitas pela dupla Rodrigues/Piau. Os discos A Volta (1982) e Sudamérica (1985), do Baiano e Os Novos Caetanos, também contam com Piau, assim como o LP As Mucamas de Painho (1982), outro projeto que partiu de um personagem humorístico de Chico Anysio para criar um disco sério (Os Tincoãs e João de Aquino também estão nesse álbum).

"O Arnaud e o Chico eram homens da televisão, então eu frequentei a TV Globo, conheci o Roberto Carlos lá, Augusto César Vanucci, Miele, Ronaldo Bôscoli, todo mundo através do Arnaud. Aí começou uma fase diferente da minha carreira, fiquei mais voltado a compor com o Arnaud e fiz muitas esquetes de televisão com ele e o Chico. Fiz também o filme Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (1984) [cuja trilha sonora é do Arnaud], contracenei nele com o Jofre Soares. Fizemos também muitos discos de humor, eu fazia as vinhetas pros discos do Chico Anysio, pra mim foi um prazer. Eu e o Arnaud produzimos um disco pra Warner chamado Humor Só Para Mulheres (1980), com Berta Loran, Cidinha Campos e Elke Maravilha. Esse disco vendeu uma loucura". 

piauP&B (1)

Eu e você, você e eu

A parceria com Arnaud era intensa, mas não impediu Piau de trabalhar em outros projetos. Em 1980, ele gravou as guitarras do disco Mente e Coração, de Marku Ribas. Nesse mesmo ano, ele gravou com Tim Maia no disco homônimo dele — é de Piau a guitarra de “Você e Eu, Eu e Você (Juntinhos)”. Um ano antes, ele gravou com Tim o disco Reencontro, que, inclusive, traz “Vou Correndo te Buscar”, música de Arnaud e Piau. E, antes, Tim já tinha gravado, no Tim Maia Disco Club (1978) outra composição da dupla, “Pais e Filhos”, cuja letra Arnaud escreveu baseada na separação da Piau e sua ex-mulher. “O Tim Maia era o maior barato, foi a maior banda que eu toquei”, diz Renato.

Nos anos 1980, ele também retomou a parceria com Melodia. Após gravar no Pérola Negra, Piau chamou Melodia para fazer um show em Brasília em 1975 e, depois disso, eles se afastaram por um tempo. Voltaram a tocar juntos no lançamento do disco Felino (1983) e, depois disso, nunca mais se separaram. “O negócio com o Tim era mais fácil, ‘Sossego’ é um acorde só, já o Melodia tinha um requinte nas suas melodias e era muito complicado pra mandar um substituto. Ele não gostava quando eu não ia, porque a gente já tinha uma química muito boa”. Juntos, eles fizeram muitos e muitos shows, viajaram por diversos países, da Colômbia à Dinamarca, escreveram e gravaram músicas como "Cara a Cara" e desenvolveram uma relação de irmãos. “Sem o Melodia, tá tudo muito complicado”, desabafa Renato. 

Em 1990, ele fez, com Carlos Cal, um disco chamado Camelo Voador. Em 1995, saiu seu primeiro disco solo, Brazilian Guitar - Guitarra Brasileira. Depois, veio ainda Blues do Piauí (2003) e Brazilian Guitar - Guitarra Brasileira 2 (2005), Renato Piau em Casa com a Música (2017). Em 2020, ele lançou Luiz Melodia e Renato Piau, uma gravação ao vivo de um show feito pela dupla. 

Recentemente, Piau vem se dedicando à carreira solo e ao selo Guitarra Brasileira, inicialmente criado para editar seu próprio trabalho, o projeto acabou tornando-se uma plataforma para artistas independentes. Inquieto como o menino que sempre foi, Piau conta que está estruturando novos projetos para os novos tempos de hoje. “Tô começando a entender esse mercado digital, que é outra coisa”, diz. Mesmo com o portfólio que já tem, ele garante que não pensa em parar tão cedo. “Minha vida foi muito rica em termos de trabalho. Ganhei dinheiro com música e ainda vou ganhar muito mais porque tô trabalhando pra isso”, afirma. 

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Ariel Fagundes

Fotos: Acervo pessoal Renato Piau/Reprodução

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