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Roberto de Carvalho lembra amizade com Ney Matogrosso e início do namoro com Rita Lee


Por:

Damy Coelho

Fotos: Guilherme Samora/Divulgação

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Desde quando as mãos de Roberto de Carvalho e Rita Lee se encontraram deslizando pelo piano, naquele primeiro encontro na casa da cantora, a vida deles não seria mais a mesma – e nem a da música pop brasileira, para sermos justos. Podem botar na conta do destino ou do cosmos, mas essa parceria (de música e de vida) só seria possível por intermédio de um amigo em comum: Ney Matogrosso.

O cantor conhecia bem os dois. Ele, porque era guitarrista da Terceiro Mundo, banda que o acompanhou no álbum Bandido (1976). Ela, porque já eram amigos e cúmplices. Como explica Julio Maria, biógrafo de Ney Matogrosso: Rita e Ney pareciam ter vindo do mesmo planeta. Mas esse encontro cósmico logo sofreria interferência de outro astro.

Encontrando um guitarrista

Depois que a banda do disco Água do Céu – Pássaro (1975) se dissolveu, ainda durante a turnê, Rosinha de Valença e Ney Matogrosso buscavam um guitarrista com calibre para não apenas acompanhá-lo nas tours, mas para ajudar a conceber o disco vindouro. Daí, Ney se lembrou que o jornalista Ezequiel Neves falou muito bem de um jovem de 23 anos, virtuosíssimo, que tocava com Jorge Mautner.

O que Ney não sabia é que o tal rapaz — sim, Roberto de Carvalho — também era da banda de João Ricardo, ex-companheiro do Ney no Secos e Molhados. O clima entre os ex-parceiros de banda, como se sabe, não era dos melhores. Em entrevista à Noize, Roberto relembra:

“Eu tinha voltado ao Rio não tinha nem uma semana. Havia passado alguns meses em São Paulo estreando o show do João. Confesso que achei o convite curioso. Mas fiquei muito feliz com o reconhecimento e topei. O show ainda era do primeiro disco solo do Ney, e já começavam os ensaios para o que viria a ser o Bandido”, conta.

Em estúdio com a banda Terceiro Mundo, o jovem guitarrista criava riffs para as canções do novo disco, em clima de criatividade total com os demais integrantes. “Lembro que as músicas eram apresentadas e iam sendo tocadas pela banda até atingir o ponto certo. Tudo era muito leve e criativo”, diz.

Coração desvairado

Já Rita e Ney tinham afinidades que ultrapassavam as fronteiras do palco. Primeiro, pela autenticidade, coragem e performatividade mútuas. E também porque eram grandes demais para caberem em suas bandas de origem — “Como mutantes, no fundo, sempre sozinhos”, como cantaria Rita Lee anos depois.

Em Rita Lee: uma Autobiografia (2016), ela escreveu: “Nossas duas ex-bandas nunca se bicaram, sempre duelando pelo trono de ‘melhor de todos os tempos da última semana’. Era uma ótima oportunidade para ele e eu tricotarmos fofocas de bastidores”.

Em 1975, quando trabalhava o repertório do novo disco, Ney pediu uma música para Rita. Ela mandou nada menos que “Bandido Corazón” — que viraria hit incontestável.

Quando entrou em estúdio com a banda, gravaram a faixa e Ney enviou em uma fita para a amiga ouvir. Rita ficou impressionada com aquele bolero-latino-roquista, mas especialmente pela guitarra: Ela mesma contava, em sua autobiografia: “Quis saber quem estava tocando e alguém respondeu: ‘é do Zezé’, guitarrista da banda do Ney’. Humm."

Ela lembra que já tinha visto Roberto de Carvalho antes, sem fazer ideia de quem ele era. Certa vez, eles estavam no mesmo bar e ela o avistou — "um gato", dizia. Perguntou ao garçom quem era, e ele respondeu que era o Roberto.

Ela só foi perceber que “Zezé” e "Roberto" eram a mesma pessoa quando foi a um show de Ney Matogrosso, na casa de shows Beco. Precisou primeiro se apaixonar pela guitarra para, depois, se encantar pelo guitarrista.

O que salva é a minha insensatez

Agora, nossa história volta de onde começou: Rita viu Roberto tocando ao vivo e logo tratou de cavar um encontro com o guitarrista-galã: chamou Ney e para um jantar aparentemente despretensioso em sua casa. "Leva uns amigos", ela disse. Ney, que já conhecia a amiga, sacou na hora: “Eu imaginei quem ela queria que eu levasse [risos]. Então, levei só o Roberto", disse, em entrevista ao Altas Horas, em 2024. Rita preparou tudo: “comidinha caseira, incensos, baseadinhos enrolados, velas e uma roupinha sexy."

Ney e Roberto chegaram juntos, mas o amigo foi embora rapidinho. O clima entre os dois, de se cortar com a faca, podia ser sentido nos primeiros minutos. Até o momento em que Roberto e Rita se sentaram juntos ao piano e começaram a tocar. O resto é história.

No deja de te amar

Roberto se lembra com carinho desses tempos que são comuns à juventude, quando, ao mesmo tempo, via a carreira começando a tomar o rumo que sonhara enquanto se apaixonava perdidamente no meio do caminho. 

O virtuosismo e a capacidade de criar canções com delicioso apelo radiofônico é uma das características mais marcantes da musicalidade de Roberto de Carvalho. Essa vivência musical, que acabou se tornando a via de mão única de sua vida, foi também a ponte que o uniu à Rita. O resultado dessa parceria rendeu frutos nada proibidos: três filhos, dois netos e centenas de canções que seguem embalando outros amores por aí. Um caso sério, que começou ao som do bolero de “Bandido Corazón”.

Brinco com ele que, provavelmente, “Bandido Corazón” é sua faixa favorita de Bandido (por motivos óbvios). “Digamos que essa é hors concours”, ele diz. “E um bolero lindo e original, que acabou apresentando uma conceitualização do que seria o disco como um todo. O repertório todo é muito bom, mas eu também tinha um xodó por “Pa-ran-pan-pan”. Adoro essa música.”

No fim, Bandido é também uma celebração de amor – e do poder das parcerias. O encontro entre Ney, Roberto e Rita foi divisor de águas para os três. Provou que tudo era possível, inclusive dentro da criação artística. “Desde que troquei a faculdade de direito na PUC, onde me preparava para seguir a carreira diplomática, não conseguia visualizar que fosse possível viver de música”, lembra Roberto. "O tempo passou rápido e, de repente, eu já estava compondo com a Rita. A partir de ‘Mania de Você’, ficou muito claro que sim, era possível viver de música — contanto que compuséssemos juntos”. 

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Damy Coelho

Fotos: Guilherme Samora/Divulgação

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