
A Casa de Francisca comemora 20 anos. Inaugurada em 2006 por Rubens Amatto e Rodrigo Luz, o espaço se tornou um dos principais redutos da música em São Paulo, com programação extensa de shows, bailes, rodas de samba, pagode e discotecagem em vinil.
Localizada na rua Quintino Bocaiúva, 22, no bairro da Sé, o acesso ao casarão é exclusivo para pedestres: ali, o trânsito dá lugar ao encontro, e a chegada já antecipa a experiência: um convite para entrar em um refúgio dedicado à celebração da música brasileira.
“Queríamos criar um espaço mais pessoal, sabe? Em uma cidade como São Paulo, em que tudo é pautado pelo lucro e pelos grandes negócios, a gente sentia falta de um lugar mais acolhedor para receber e ouvir música autoral”, relembra Rubens, em entrevista à Noize.
A menor casa de shows (e a origem do nome)
Desde 2017, a Casa de Francisca ocupa o Palacete Tereza, prédio tombado de 1910, projetado pelo arquiteto alemão Augusto Fried, o edifício ocupa quase toda a esquina, com três pavimentos. Mas, antes, a Casa tinha sua sede em um sobrado na rua José Maria Lisboa, no Jardins. Lá, eles se intitulavam de “menor casa de shows de São Paulo” pela capacidade de 44 pessoas.
“O título despertava curiosidade. A porta ficava aberta para a calçada, nunca houve segurança. Quem passava, ouvia música e entrava, era como visitar a casa de alguém, e, de fato, era a casa da Francisca, a primeira moradora do espaço. Por isso a homenagem”.
Não era bar, tampouco casa de shows. Em vez de rotular o espaço, Rubens e Rodrigo preferiam convidar o público a descobri-lo na prática. Ainda assim, a música sempre foi o fio condutor: ali, apresentação é coisa séria; quando o show começa, o serviço para. Essa essência permaneceu intacta mesmo após a mudança para um endereço maior.
Restaurado em 2016, hoje o Palacete Tereza foi reconhecido como “esquina musical de São Paulo”. O título não é por acaso, o espaço já abrigou a Casa Bevilacqua, primeira loja de instrumentos da cidade, a editora musical Casa Irmãos Vitale e a Rádio Record.

Retomando a vocação cultural do centro de São Paulo
A redação visitou a Casa de Francisca em uma sexta-feira e presenciou a equipe do espaço a todo vapor nos preparativos para o carnaval. Dividida em quatro espaços, os shows podem acontecer no Salão, Porão, Largo e Sala B, onde realizamos nossa entrevista.
A Casa recebe até cinco shows simultâneos. O Salão conta com mesas, arquibancada, mezanino e palco circular, recebe almoço de segunda a sexta, shows, no formato sentado, misto ou em pé, e, no fim de semana, “Almoço & Música”, com duas apresentações.
Ao lado, no primeiro andar, a Sala B é o espaço para shows intimistas, com 44 lugares. Quando comento sobre a coincidência com Rubens, ele brinca: “Pois é, falo que, talvez, tenhamos dado uma volta enorme para voltar ao mesmo ponto [risos]”.
Chegando ao subsolo, o Porão, interligado ao Largo da Misericórdia, conta com entrada e bar independente, com shows, festas, baile e rodas de samba e pagode. Por fim, o Largo resgata a tradição do vinil, com discotecagem e apresentações gratuitas na rua.
“A casa é viva. Ela muda de acordo com a atração, com o público, com a época, mas está sempre pulsando música. Ocupar esse espaço é resgatar a vocação cultural do centro, enriquecendo toda a cena. Enquanto houver paixão, a gente se mantém vivo.”
Em 20 anos de caminhada, a Casa de Francisca é reconhecida por público e crítica. Em 2018, venceram por “projeto especial em música” no prêmio APCA, já no ano passado a Folha de São Paulo os premiou pela programação e gastronomia. Em 2025, realizaram 768 shows, com 40% deles gratuitos, e 2026 promete ser um ano de ainda mais música.









