
Aos 24 anos, Bia Soull constrói sua obra a partir da experiência feminina do erotismo. Com Pornografia Auditiva (2026), seu álbum de estreia, a artista amplia o diálogo entre funk, rap e outras sonoridades para falar sobre desejo e prazer sem moralismos.
Ela, junto a nomes como Slipmami, NandaTsunami e Barona, é uma das protagonistas de uma nova cena do rap que coloca satisfação feminina no centro, com letras explícitas e propostas de ressignificação de uma sexualidade que vê a mulher como objeto.
Tudo isso pode ser visto na primeira apresentação ao vivo do álbum Pornografia Auditiva (2026), realizada na Casa Natura Musical no dia 30 de julho. A paranaense entregou um show vibrante de uma mulher que reivindica, sem rodeios, o direito de sentir prazer e ser feliz.
Dona de sua própria história
O repertório transitou pelas faixas do novo disco e resgatou sucessos marcantes de sua caminhada, como "Sem Moralismo". A cada movimento mais ousado ou pose marcante da artista, a plateia respondia em gritos, hipnotizada. Um dos pontos altos da noite foi o momento "bailão paulista", quando Bia e suas duas bailarinas empunharam guarda-chuvas pretos sob um som preenchido por graves marcantes, característicos das festas periféricas.
O show contou ainda com a participação especial dos artistas Matheus Coringa, Barona, NandaTsunami, Yuri Redicopa e com uma calorosa interação com o público.
Embora o foco no conceito visual e na dança faça com que Bia nem sempre esteja cantando em 100% do tempo — e em determinados momentos, opte por ficar de costas para a plateia, o que estabelece um breve distanciamento —, a busca pela construção de um grande espetáculo se sobrepõe. Essa intenção ficou selada quando, ao final do show, a artista cravou diante do público a máxima que rege seu momento atual: "Viva a putaria, viva o sexo, viva o erotismo e viva a liberdade!".

A quebra do ciclo de sobrevivência
Se no palco o clima era de catarse e erotismo, o momento mais legal da noite aconteceu quando a música parou de repente. A plateia silenciou para ouvir o áudio reproduzido no som ambiente sobre o trabalho sexual e a realidade de quem vive da prostituição.
Em conversa com a Noize logo após sair do camarim, a cantora de 24 anos explicou a origem dessa intervenção no palco:
"Eu já fui uma trabalhadora do sexo, a minha mãe já foi uma trabalhadora do sexo, ela é uma mulher adotada e dizem que a nossa avó também era uma trabalhadora do sexo. Então, estar aqui hoje e fazer esse show acontecer é uma quebra de um ciclo familiar de sobrevivência".
Para a artista, encarar os holofotes e ver sua música ganhar escala é um movimento que contrasta com a mentalidade de escassez com a qual foi criada. Ela admite que ainda está aprendendo a lidar com a abundância do momento presente e com o peso de gerenciar a própria carreira.
"Nossa, eu tô me acostumando, porque a gente vem de uma família e eu fui ensinada — e acho que muitas pessoas vivem dessa forma — a se contentar com poucas coisas, a viver com pouco", desabafa. "Então, é isso, eu fiz um movimento e centralizei a minha vida comigo mesma. E aí as coisas começaram a acontecer."
Ressignificar a ofensa é encarar o machismo
A escolha por explorar sonoridades diversas em Pornografia Auditiva — expandindo o discurso erótico para além do funk tradicional — foi algo natural para a artista, que já vinha testando novos gêneros e produtores.
Para Bia Soull, falar de sexo é natural. Entretanto, expressar a sexualidade de forma tão aberta faz com que a artista esbarre frequentemente em abordagens masculinas invasivas. Bia analisa essa dinâmica como algo estrutural: "Eu acho que isso é normal dos homens. Eles querem se sentir íntimos a todo momento, criando situações que nos deixam desconfortáveis".
A resposta da artista está nas letras de seu álbum, em que ela toma para si o vocabulário pejorativo historicamente usado para calar mulheres.
"Eu tô ressignificando algumas palavras, tipo 'puta', 'vadia', 'piranha', 'desgraçada', 'maldita', que são palavras que eu falo no álbum. Às vezes a gente só quer ser feliz e a outra pessoa está na maldade. Mas a culpa não é nossa. A nossa liberdade merece ser vivida."
Se esta primeira apresentação serviu para testar o formato de Pornografia Auditiva ao vivo, os planos de Bia Soull para o futuro envolvem expandir o espetáculo e fortalecer sua equipe. "Essa é minha meta: conseguir chegar a um cachê em que eu possa pagar outros profissionais para somarem no ‘Pornografia Auditiva’", finaliza, mostrando que chegar ao topo é uma conquista coletiva.






