
Após fazer um dos shows mais elogiados da sexta-feira (11/9) no Rock in Rio, o Jamiroquai chegou a São Paulo para um encontro particular com os fãs no domingo (13/9), no Nubank Parque. O público era pequeno diante do tamanho do estádio — parte das arquibancadas sequer foi utilizada —, mas isso pouco importou para quem estava ali. Mesmo com a chuva persistente, ninguém parecia disposto a ficar parado.
Jay Kay, único remanescente da formação original da banda londrina, foi quem guiou essa verdadeira pista de dança a céu aberto: com vocais impecáveis, segurou o show inteiro no gogó e ainda entregou looks, cada um deles remetendo a uma era da banda: primeiro, entrou no palco vestido como seu "Space Cowboy", persona que dá nome ao disco que catapultou o sucesso da banda no Reino Unido, The Return of The Space Cowboy (1994): jaqueta de couro verde com direito a franjas e chapéu fedora.
Depois, foi a vez do "cocar hi-tech" da era Dynamite (2005), mostrando que seu maximalismo marcante segue em evidência. Aliás, por onde se passava na plateia, era possível avistar fãs mais animados que botavam um chapéu enorme, remetendo ao figurino icônico do vocalista.

Passeando por hits
O setlist da noite priorizou hits de Travelling Without Moving (1996), Dynamite (2005), The Return of the Space Cowboy (1994) e A Funk Odyssey (2001). Foi nessa sequência de discos que o Jamiroquai transformou seu funky-acid jazz em música pop de alcance global, equilibrando comentários sobre política, meio ambiente e vida urbana com um groove irresistível. “Virtual Insanity”, do álbum de 1996, virou um dos clipes mais emblemáticos da MTV nos anos 1990, inclusive no Brasil. Muita gente por aqui pensava que Jay Kay, o cara do chapelão, era o próprio "Jamiroquai" (o nome da banda, na verdade, é uma mistura das palavras "jam" com a tribo indígena Iroquai).
Mas se engana quem pensa que o show foi pura nostalgia: a apresentação mostrou como o som da banda segue atual, com diferentes gerações dançando juntas mesmo debaixo da chuva. O baixo de Paul Turner ditava o groove, enquanto Sara de Santis se destacava nos synths e as backing vocals de Valerie Etienne, Hazel Fernandes e Romina Johnson davam ainda mais corpo ao som. Destaque também para o percursionista Fábio de Oliveira, filho de brasileiros e criado em Londres. A cada improvisação (mesmo no momento-clichê em que manda um sambinha), era ovacionado pelo público.
O setlist ganhou três músicas a mais em relação ao show no Rock in Rio, e os fãs de São Paulo puderam conferir "Seven Days in Sunny June", pérola do repertório da banda que faltou no festival. Pouco depois dessa, Jay Kay já emendava outro hit: “Vamos voltar pra 1994... alguns de vocês nem eram nascidos!”, brincou, antes da banda tocar “Space Cowboy”, emendando com "Alright". Mais tarde, veio um presente ao Brasil: “High Times”, de 1996, que a banda não tocava desde 2018 (com direito a um solo impecável do guitarrista Rob Harris).
O clima do El Niño não deu sorte pra banda no Brasil, que tocou por aqui debaixo de chuva nos dois shows. O sacrifício do público foi reconhecido: "Queria muito agradecer a cada um que está com a gente hoje, porque sei que vocês estão na chuva o dia todo!", disse o vocalista, já na reta final da apresentação.
Depois chegou a vez de “Cosmic Girl”, com direito a Jay Kay dedicando o sucesso a todas as “cosmic girls” da plateia — nessa hora, todas as cosmic girls equipadas com suas capas de chuva transparentes gritavam de volta. Em dado momento, Jay Kay até desceu pra galera e assinou alguns discos de vinil.
A banda poupou o público da firula do bis e fechou o show com o megahit “Virtual Insanity”. Nessa hora, Jay Kay fez um breve discurso sobre políticos que tentam nos dominar por meio de guerras e avanços tecnológicos desenfreados. Era a vez de ouvir a música que, de certa forma, teorizou sobre a insana realidade virtual que vivemos hoje. Mais uma vez, atemporais.
O clima era de pistinha, mas com a mão na consciência. É justamente aí que está a força do Jamiroquai: no meio de uma música irresistível, podemos entender o mundo que habitamos, já longe de qualquer distopia. O que nos resta então, é dançar — mesmo que a chuva persistente em pleno setembro nos lembre que muita coisa mudou nos últimos 30 anos.







