
Como espectadora assídua do quadro Whats in My Bag, da revista Vogue, já espero que a celebridade entrevistada magicamente saque de sua bolsa Hermès Birkin um fone de ouvido branco com fio. Vem sendo assim em edições recentes: entre itens de maquiagem e casualmente um livro ou bloco de anotações, lá está ele, um fone todo enrolado — muitas vezes de forma bagunçada, chic — que Dua Lipa ou Ariana Grande se envergonham de tentar desembolar em frente às câmeras.
Não bastaria ter um fone bluetooth para provar que a pessoa ouve música ou podcast?, você deve estar se perguntando. Quem responde é uma das entrevistadas do quadro, a modelo Alex Consani: "Em uma cidade grande como Nova York, é impossível ter um bluetooth” — ela diz — "pois as pessoas não acreditam que você está ouvindo música e vêm querer conversar. Então eu coloco esses mesmo [explica, mostrando seus fones com fio]. Porque, mesmo que você não esteja ouvindo nada, as pessoas veem que você está ocupada", reflete.
Quase que coincidentemente, desde o fim da pandemia, começaram a pipocar no feed do Instagram e TikTok vídeos de pessoas cada vez mais jovens ostentando um belo exemplar de fones com fio. Nos videoclipes recentes, vemos estrelas pop atuais como Olivia Rodrigo e Addison Rae exalando juventude (e fones com fio).
Em editoriais de moda, os fones com fio também vêm sendo cada vez mais presentes. Até as grifes começaram a surfar nessa onda: por exemplo, em 2024, a Chanel lançou o Première Sound, um relógio conectado a um fone de ouvido, em um comercial estrelado pela atriz e it girl Lily Rose Depp.
Já neste ano, a Diesel lançou o Wired Earbuds. Com isso, o mercado da moda atesta que a audiofilia é sinônimo de luxo e capital cultural [já falamos um pouco disso aqui].
Mas por que fones com fio?
Diante de tudo isso, comecei a me perguntar: os fones bluetooth deixaram de ser descolados? Por que o fone com fio se tornou item fashion, sendo que hoje mal temos como usá-los em nossos smartphones sem entrada direta para áudio? Por que não guardar os fones com fio em lugares mais seguros que não apenas largados no meio da bolsa? O fone de ouvido é mesmo uma armadura dos introvertidos?
Para tentar responder a essas questões, conversei com Nina Grando, especialista em tendências da Float Vibes. Ela me conta que adora falar sobre o tema — ou seja, parece que a relação da geração Z com os fones de fio é mesmo tendência comprovada.
Estética x comportamento
Para ela, o fato de a geração Z estar trocando os fones bluetooth por fones com fio vem de dois fatores: o primeiro é puramente estético. Tem a ver com o retorno da moda da virada do século, chamada Y2K, que parece não sair de moda tão cedo. Aquela tendência que bombou nas redes no início do ano, de postar fotos de 2016, também parece influenciar nessa obsessão sobre tudo o que veio dos anos 90, 2000 ou 2010 — incluindo aí as tecnologias.
O retorno do acessório também está ligado a uma mudança no modo como os jovens expressam personalidade em pequenos objetos — de chaveiros e penduricalhos até itens inspirados em fandoms de K-pop e da cultura pop em geral. Nesse contexto, os fones deixam de ser apenas funcionais e passam a integrar a estética pessoal. “O fone com fio acaba sendo mais um desses acessórios”, afirma a especialista.
“Existe uma certa performance do analógico”, nos conta Nina. “Está atrelada à ideia de ser visto na rua ouvindo álbum inteiro, ou até de usar um MP3 player, um Discman. Isso se conecta a uma nostalgia ligada à estética. Muitos desses jovens nem viveram os anos 1990 ou começo dos 2000, então não é exatamente uma nostalgia vivida, mas uma construção imagética desse período”, diz ela, nos apresentando o conceito de neonostalgia, ou nostalgia daquilo que não se viveu. Por isso, a geração Z parece tão alinhada a uma realidade tecnológica que não é a dela.
Isso não acontece só com os fones de ouvido. Alguns jovens também vêm adotando os “dumbphones”, aqueles fones que não são mais smart, como já captaram matérias da CNN, New Yorker e New York Magazine. Então, quando o jovem opta pelo fone com fio, ele não faz essa escolha arbitrariamente — e aí vem o segundo motivo para esses fones estarem na moda: eles simbolizam um lifestyle, uma maneira de ser no mundo, que prega um modo de vida mais desacelerado.
Ao optar por um fone com fios visíveis, o jovem mostra que não precisa estar conectado o tempo todo. Esse movimento funciona como uma negativa à lógica de que tudo precisa ser “smart” – ao contrário do que prega uma estética “Faria Lima”, por exemplo: de repente, não é mais tão descolado aparecer andando na rua correndo contra o tempo, atendendo a uma ligação em fones quase imperceptíveis, que fazem parecer (para quem vê de fora) que a pessoa surtou e está fazendo sozinha.
Nao. Agora a moda é fazer com que os fones sejam vistos, ainda que isso implique usá-los com fio. “O fone wired mostra que você está concentrado. A pessoa coloca o fone de ouvido e deixa claro: não quer ser incomodada. Dá até curiosidade: o que será que ela está escutando? No fim, existe um certo purismo de quem é apaixonado por som. É pela música, e só. Nenhuma ligação interrompe. É só aquele momento íntimo, entre a pessoa e o que ela escolheu ouvir”, diz Nina.
E ainda tem um fator técnico que pode favorecer os entusiastas do fone com fio: a qualidade de som que o bluetooth entrega depende de um codificador, ou "codec". Ele é o software responsável por compactar o áudio para a transmissão sem fio. Quanto mais ele comprime a informação, mais detalhes sonoros são perdidos. “Praticamente todos os Bluetooth têm perdas. Se você quer o melhor som possível, precisa de um codec de mais qualidade, e verificar qual codec tem no seu aparelho ”, diz Marcos Abreu, engenheiro de som do NRC.
Tendo tudo isso em vista, percebo que o que vale é o equilíbrio. Nada substitui a facilidade de levar um fone bluetooth para a academia. Ao mesmo tempo, é muito bom não precisar parar de ouvir música só porque a bateria do seu fone acabou – então, no caso de uma longa viagem de ônibus sem acesso ao carregador, é melhor optar pelo fone com fio. Pensando bem, acho que parecia mesmo mais descolada quando andava com um fone com fio a tiracolo, combinando (ou não) com meu look. Talvez seja a hora de aprender um pouco com a gen Z e pesquisar um “dumbphone”para chamar de meu – sem precisar necessariamente aposentar meu bluetooth.





