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Gravado no Abbey Road, Tietê representa novo rock brasileiro em “Tâmisa”


Por:

Revista NOIZE

Fotos: Nandê Caetano

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Os paulistanos do Tietê lançaram em fevereiro o segundo álbum, Tâmisa (2026). Fazendo um paralelo com o nome da banda, que vem do rio que corta a capital paulista, o  título do disco vem do rio que cruza Londres — cidade-chave para construção do projeto, majoritariamente gravado no icônico estúdio Abbey Road. Neste sábado, o grupo se apresenta no Cafofo Estelar, em São Paulo [ingressos aqui].

“Os rios atravessam a história da nossa banda desde o começo. Em São Paulo, quem influencia toda a construção da cidade é o Tietê, enquanto em Londres é o Tâmisa”, comenta o vocalista, Pedro Carboni, sobre as coincidências entre o nome da banda e o berço da gravação.

Formado ainda por Dodó Moreau (voz e sax tenor), Fela Zocchio (voz e percussão), Leo de Freitas (teclado e coros), RUBI (voz, bateria e percussão), Victor Forti (baixo, guitarra e coros) e Théo Cardoso (voz, sax soprano e clarinete), o grupo se uniu a Dan Parties para a produção do álbum.

Partiu de Dan, inclusive, o convite para gravar no Abbey Road. Tudo rolou apenas três dias, com o material sendo gravado 80% ao vivo. Depois, já em São Paulo, eles partiram para a finalização, incorporando feats com Iara Rennó e Anelis Assumpção.

Sonoramente, Tâmisa reverencia o rock, estilo que acompanha o grupo desde a estreia com Buraco na Parede (2023), mas temperado com muita brasilidade. As faixas costuram com jazz moderno, reggae e música eletrônica. Tem até cumbia no repertório. Já as letras trabalham temas diversos, da nostalgia das experiências adolescentes ao sentimento geracional de assistir a genocídios como os de Gaza, passando pela análise de clássicos do nosso cancioneiro como “Chega de Saudade”, de João Gilberto.

“Muitas das nossas músicas nasceram a partir da percussão”, conta RUBI. “Uma das coisas mais ancestrais que existe é a pulsação. Como a gente estava com o tempo contado, com uma pressão, a nossa pulsação tendeu a bater mais junto, a todo mundo bater mais junto. As coisas fluíram muito bem durante o processo de criação e gravação, conseguimos levantar todas as faixas com muita alegria”, finaliza.

Confira Tâmisa faixa a faixa: 

“Enquanto Você”: iria entrar no nosso primeiro disco, mas acabou não entrando, e nós arranjamos dos pés à cabeça. Rubi compôs essa música quando tinha 13 anos, na melancolia da pré-adolescência, na época que ela tinha um blog chamado Histórias e Memórias em Plenos Bancos de Praça. É um reggae que trata dessas dores de amores.

“Menino e a cobra”: foi feita por Dodó no meio da pandemia, a partir de um motivo de violão inspirado na trilha do jogo The Last of Us. A música chegou de uma vez só, letra e melodia, em um daqueles momentos em que a composição já chega prontinha, e é preciso só fazer o registro. A música fala sobre a fuga de um menino que entra na mata, encontra uma serpente e é convidado a se transformar em serpente também, numa narrativa bem imagética. 

Desde o momento em que ouvimos essa música de Dodó pela primeira vez, achamos que tinha tudo a ver com a Iara. Quisemos chamar a Iara num primeiro momento para estar num lugar de diretora musical, de produtora musical da faixa mesmo, porque tinha alguns elementos que a gente ainda estava muito em dúvida: baixo, teclados, guitarras... E as vozes, principalmente. E aí ela entrou nesse processo da faixa, nesse lugar de produção e direcionamento musical. E acabou que ela colocou vozes também, gravou as vozes e tudo mais, topou fazer esse feat. com a gente. Mas ela esteve com a gente durante esse processo de três meses antes de a gente gravar ajudando na gestação da música.

“Geologia”: a faixa reflete sobre as tensões e conflitos do mundo contemporâneo em guerra a partir do olhar das crianças que moram nesses territórios em conflito. “Geologia” foi escrita em Paraty, na Praia do Sono, a partir de uma parceria de Dodó com nosso amigo Luan Prado. A música surgiu primeiro como fragmentos de letra e ideias poéticas, que foram sendo guardadas até encontrarem uma forma musical. 

Depois, um tema de piano que o Leo trouxe ajudou a dar uma outra roupagem pra sonoridade da música.  Os conflitos que atravessam essa música não são isolados, nem distantes. Eles fazem parte de uma mesma lógica global de violência, ocupação e controle. O que a gente vê em Gaza é um projeto de extermínio legitimado por discursos de segurança, sustentado por potências internacionais e financiado, em grande parte, pelos Estados Unidos. Quando a gente olha para o avanço de políticas autoritárias nos EUA — o fortalecimento do ICE, as intervenções militares no Irã e na Venezuela, a perseguição sistemática a pessoas migrantes, racializadas e dissidentes, e a normalização da violência de Estado — a lógica é a mesma: controle de corpos, criminalização da existência e gestão do medo como ferramenta política.

oi fela (Vinheta 1)”: as duas vinhetas vieram de uma outra música que ia entrar no disco, se chamava Gosma. A gente ensaiou, arranjou a música. Levamos para Londres, gravamos, mas ela foi vetada pela banda porque ela era um pouco perturbadora demais. 

E daí a gente ficou, “meu Deus, o que a gente vai fazer com esse material que a gente tem?” E então, Pedro e Rubi, durante vários longuíssimos dias, ficaram pensando o que a gente ia fazer e então começaram a dissecar ela e trazer outras referências de sample, de processamento com sintetizador granular, SuperCollider, umas coisas muito loucas. E depois de muito esculpir essa música, a gente chegou nessas duas outras, que são as vinhetas do disco. 

“Maçã Podre”: foi a única que não foi gravada em Londres, mas que foi toda arranjada, produzida e gravada aqui em São Paulo. A produção dela foi encabeçada pela Rubi e pelo ENOW. É uma composição da Rubi, também. A gente queria levantar o arranjo dessa música já fazia muito tempo, mas as coisas só se alinharam para permitir isso quando voltamos de viagem, e achamos muito legal a ideia de gravá-la aqui para complementar a história das outras faixas, trazendo também uma sonoridade bastante diferente. É uma faixa que fala sobre fermentação, momentos de alterações químicas intensas e conexões com os lados obscuros e os processos árduos que vão se transformar em resultados mais pra frente. 

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“Eu Vi O Fim”:  veio em um momento delicado da pandemia. Ao estudar “hega de Saudade”, música que sua irmã mais velha cantava muito , observamos que na passagem “pois há menos peixinhos a nadar no mar, do que os beijinhos que darei na sua boca”, a música surge como um movimento inverso das coisas fofas e lindas que estavam presentes na letra. 

A música nada mais é que um grande deboche, a harmonia estando em um tom maior e em um andamento, tradicionalmente “brega” que é o ¾, somado à letra da música trazendo coisas absurdas, tristes e em um tom sarcástico  Quando estávamos arranjando, vieram várias referências do Rock Clássico dos anos 70, principalmente Janis Joplin, Beatles e Wings. Foi uma música muito legal de gravar, de abraçar essa sonoridade setentista num estúdio onde várias dessas referências que usamos foram gravadas. Foi a única música que canetamos o arranjo de sopros, pra trazer essa sonoridade mais blocada, de naipe de sopros mesmo.

“apple cidra (Vinheta 2)”: antes de tudo era apenas um áudio do whatsapp no dia em que fomos à um bar, o Elephant head, essa noite que ficou marcada na mente da Tiête, foi uma loucura boa. Na medida em que estávamos finalizando o álbum surgiu a ideia desse áudio como uma das faixas de transição do disco. Todos os integrantes, menos o Théo, votaram a favor de trazer à tona este áudio. 

Então, eu cantei porque estava cantando ali tomando apple cider. (...) Não sei nem o que dizer, porque, pessoalmente, eu não lembro direito das coisas, da ordem dos fatos até... Foi a loucura do... Foi a loucura de Londres, né?

“Três Cartas à Celephaïs”: o Leo trabalhava numa editora e traduziu uma novela do H.P. Lovecraft do inglês para o português, que se chamava The Dream-Quest for Unknown Kadath, que falava sobre um reino chamado Celephaïs. Leo e Dodó já tinham composto a ideia inicial do que viria a se tornar a música, e Leo começou a compor uma outra, cuja letra contava a história do livro. No fim, as duas ideias se juntaram e o nome ficou. O resto é tudo umas coisas inventadas que vieram de uma sessão conjunta de composição no estúdio. Tártaro do Norte, vários outros lugares e personagens são inventados.

Eu [Leo] tinha a ideia desde o começo de escrever a música em etapas, em partes distintas, acompanhando a linha narrativa do livro. Isso inspirado em bandas de rock progressivo (Yes, Gentle Giant) que têm aquelas composições longas com movimentos, como se fossem sinfonias. Por isso também ela tem esse arranjo mais megalomaníaco e fantasioso.

“Deixar o Medo”: pontes, fios condutores. Deixar o fluxo, abrir para o fluxo passar. Não se segurar. Entender os fluxos da vida, os fechamentos de ciclos e renascimentos. E a participação da Anelis, a gente chamou ela para fazer esse dueto para interpretar a letra junto com o Pedro. Foi um convite no sentido de trazer a figura da interpretação dela, com a sua própria timbragem ali na faixa, além de ser um Reggae, coisa que ela domina muito. A gente tem bastante ela como referência nesse lugar do Reggae.

“Biscoito da Sorte”: essa música veio de uma coisa que a gente fazia às vezes em aquecimento de ensaio, que era pegar uma base, seja harmônica, seja rítmica, não sei o quê, apagar as luzes e ir entrando nessa brisa. Esse exercício de ensaio, esse exercício prático da gente, como banda, para se entrosar, para se conectar, para fazer nossa música, acabou se tornando um pouco mântrico para a gente. E isso se refletiu, inclusive, na questão da própria sonoridade da faixa. 

Também foi uma faixa que a gente fez 100% ao vivo, gravando lá no estúdio. Juntou todo mundo dentro da salinha, botou um microfone pra cada. E fez no play. Tem esse lugar de trazer também esse gostinho do ao vivo. Nos nossos shows, a gente gosta de fazer coisas muito específicas, de brincar de muitos jeitos, inclusive de geralmente fechar os shows com essa música. Então, era muito justo a gente também fechar o álbum com um gostinho do que é a gente ao-vivo, através dessa música.

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