
Falar que a arte é fruto de seu tempo é um baita clichê, mas o Turnstile é uma banda que só poderia mesmo existir no século 21. Será que as bandas de hardcore dos anos 70 e 80, das cenas que nasceram na Califórnia e em Washington D.C., imaginaram que um grupo de hardcore poderia, um dia, ganhar seis indicações ao Grammy e colaborar com artistas de R&B e jazz, como Blood Orange e BADBADNOTGOOD?
Minha aposta é que não. Mas é exatamente isso que torna o quinteto de Baltimore tão interessante: o som do grupo, que por vezes se inspira no dream pop, no metal e até mesmo no new wave, ganha várias facetas que vão além da agressão do hardcore punk a partir de seu terceiro álbum, GLOW ON (2021). As particularidades do Turnstile caíram no gosto dos fãs e da indústria e, neste mês, a banda faz sua terceira passagem pelo Brasil, novamente no Lollapalooza.
É uma trajetória extraordinária, mas a origem do Turnstile não é muito diferente do que a das bandas de hardcore costuma ser. O quinteto se formou da cena de hardcore e DIY de Baltimore, que frequentavam desde adolescentes e onde cada músico tocou em algumas bandas antes, como eles contaram para a Pitchfork no ano passado.
A formação original do grupo era Brendan Yates (vocalista), Brady Ebert (guitarra), Sean Cullen (guitarra), Franz Lyons (baixo) e Daniel Fang (bateria). Eventualmente, Ebert e Cullen deixariam a banda, mas foi com essa escalação que o Turnstile lançou seu primeiro EP, apropriadamente intitulado Pressure to Succeed (em português, "Pressão para Fazer Sucesso") em 2011.
Nesta época, o som da banda era cru e suas influências, claras. Como outras bandas que cresceram junto a eles na cena de Baltimore e D.C., como Trapped Under Ice e Angel Du$t, o Turnstile misturava a energia do hardcore e skate-punk clássico com riffs mais pesados, quase emprestados do heavy metal.
Mas a banda já apresentava inclinações mais pop e, com dois EPs seguintes e um disco de estreia, Non Stop Feeling (2015), chamaram a atenção da gravadora holandesa Roadrunner Records. Hoje parte do Warner Music Group e com sua influência e catálogo muito diluídos, o selo já foi uma das grandes casas para bandas de metal e outros tipos de rock mais pesado – Mastodon, Opeth e Avenged Sevenfold já lançaram títulos pela Roadrunner. Ao lado desses nomes, em 2018 o Turnstile lançou Time & Space.
O debut em uma grande gravadora não poderia ter vindo em um momento melhor para o Turnstile. Na metade dos anos 2010, a indústria da música nos Estados Unidos vivia uma nova apreciação pelo emo e outros gêneros que derivaram do punk, levando várias bandas ao estrelato: Title Fight, Basement, Turnover, Joyce Manor, Tigers Jaw e tantas outras.

Não era incomum que esses grupos tomassem inspiração de outros tipos de som, completamente fora de sua aba punk. O Title Fight experimentou com o shoegaze, o grupo La Dispute brincava com spoken word e a banda The World Is a Beautiful Place & I Am No Longer Afraid to Die incorporava elementos do post-rock. Nesse ambiente, com o sucesso do ecletismo do som dessas novas bandas, talvez o Turnstile tenha se sentido à vontade para mergulhar ainda mais em suas inspirações mais experimentais.
Assim nasceu GLOW ON, que jogou a banda para um novo nível de estrelato, talvez maior do que o dos seus colegas da "nova onda do post-hardcore" – um termo inventado semi-ironicamente pelo vocalista do La Dispute, Jordan Dreyer – já tinham alcançado. O álbum também foi o início de uma parceria com Mike Elizondo, produtor que gravou com todo o tipo de artista, de Fiona Apple a Eminem. "Com cada disco que fizemos, geralmente trabalhamos com alguém com quem ainda não tínhamos trabalhado, e queríamos fazer a mesma coisa neste. Arriscamos e acabou sendo incrível", contou Yates à DYI Magna época do lançamento do álbum.
O sucesso não veio sem percalços – o principal deles foi a saída do guitarrista Brady Ebert ainda em 2021. Mas, mesmo desfalcados, o Turnstile teve um pós-pandemia de dar inveja: além de duas passagens pelo Brasil, o grupo tocou em grandes festivais ao redor do mundo, incluindo os clássicos Primavera Sound e Glastonbury. Ebert seria mais tarde substituído pela guitarrista Meg Mills, e, no ano passado, o grupo consolidou o título de maior banda de hardcore de sua geração com o lançamento de NEVER ENOUGH.
Neste março, então, o grupo desembarca no Brasil maior que nunca, no meio de uma turnê mundial em que escalaram como bandas de abertura outros artistas que também trabalham a partir de uma mistura inesperada de gêneros: Jane Remover, Mannequin Pussy e Amyl and the Sniffers. Uma prova de que, sem dúvidas, o Turnstile seguirá influenciando o rock e o pop que virá a seguir.














