SEU JORGE (BANNER)

Assim como “The Other Side”, veja outros discos que demoraram anos para sair


Por:

Vitória Prates

Fotos: B+

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Na velocidade do streaming, em que discos surgem e desaparecem em questão de semanas, alguns artistas seguem o caminho oposto: o do tempo longo. Há álbuns que passam anos sendo escritos, regravados, abandonados e retomados até finalmente encontrarem sua forma definitiva. É o caso de The Other Side, novo trabalho de Seu Jorge, que acaba de ganhar edição em vinil no Noize Record Club.

O álbum começou a ser desenvolvido em 2009, em Los Angeles, e só chegou ao público 16 anos depois. O resultado é um disco cuidadosamente lapidado, marcado por arranjos sofisticados e por uma sonoridade que parece impossível de existir sem essa longa maturação.

A história do álbum reforça uma tradição curiosa da música: grandes obras que levaram uma década — ou até mais — para ficarem prontas. Seja por bloqueios criativos, mudanças de rumo, crises pessoais ou pela busca obsessiva pela perfeição, alguns artistas transformaram o próprio tempo em parte essencial do processo criativo. A seguir, relembramos cinco discos que demoraram mais de 10 anos para sair do papel.

Amor Geral (2016), de Fernanda Abreu

O disco nasceu após um longo bloqueio criativo e foi retomado com incentivo do baterista Tuto Ferraz, que também participa da produção. Gravado no Rio de Janeiro, o álbum reúne 10 faixas inéditas e preserva a mistura característica da artista entre pop, funk carioca, música eletrônica e soul.

Ao contrário do espírito coletivo e urbano de trabalhos anteriores, aqui Fernanda assume o centro das narrativas. As letras falam de afetos, separações, envelhecimento e recomeços, atravessadas pela morte de sua mãe e pelo fim de um casamento de 27 anos. 

Na época do lançamento, a crítica destacou a capacidade da cantora de atualizar sua sonoridade sem abandonar o DNA pop que construiu desde os anos 1980. Em textos de divulgação, a própria artista definiu Amor Geral como uma resposta afetiva a tempos de intolerância. 

Cores & Valores (2014), dos Racionais MC's

12 anos separam Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, Vol. 1 & 2 (2002) de Cores & Valores (2014). Nesse intervalo, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay acompanharam as transformações do rap nacional e da própria indústria musical. Quando retornam ao estúdio, o fazem com um disco mais curto do que os trabalhos anteriores.

Com 15 faixas, o álbum dialoga com o trap e a bass music, sem abandonar a base clássica do rap dos Racionais. As letras continuam abordando desigualdade, violência e consumo, mas agora sob uma perspectiva atravessada pela maturidade e pelo impacto da fama.

Na época do lançamento, a crítica recebeu Cores & Valores como uma atualização estética ousada para um dos grupos mais influentes da música brasileira. KL Jay definiu o disco como “tão perigoso quanto Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, embora mais enxuto e pop. 

Cruel (2005), de Sérgio Sampaio

Após Sinceramente (1982), o capixaba passou anos distante da indústria fonográfica, embora continuasse escrevendo e se apresentando. Em 1994, incentivado pelo amigo Xangai, começou a gravar demos caseiras do que seria seu disco de retorno. A morte precoce, aos 47 anos, interrompeu o projeto.

O material permaneceu inédito até ser recuperado por Zeca Baleiro, responsável por finalizar o álbum lançado em 2006 pelo selo Saravá. O disco reúne 14 faixas construídas a partir de gravações de voz e violão deixadas por Sampaio. A produção preserva o caráter cru das demos enquanto adiciona novos arranjos e instrumentações gravadas por músicos convidados.

Misturando samba, rock, bolero e canção popular brasileira, Cruel reafirma a personalidade inquieta do compositor, frequentemente comparado a figuras marginais da MPB dos anos 1970. A crítica recebeu o álbum como um resgate tardio de uma obra subestimada pela indústria fonográfica. 

Long Day (2025), da Moptop

A estreia nos anos 2000 aproximou o grupo carioca do indie rock inglês e nova-iorquino de bandas como The Strokes, Interpol e The Killers. Depois de Como se Comportar(2008), porém, Gabriel Marques, Rodrigo Curi, Daniel Campos e Mario Mamede entraram em hiato por 17 anos. O retorno veio com Long Day (2025), terceiro álbum da banda e o primeiro gravado parcialmente à distância, com integrantes vivendo em países diferentes.

O disco reúne composições desenvolvidas por Gabriel em Los Angeles após anos afastado da música. O garage rock que marcou o início da banda continua presente, mas agora aparece acompanhado por arranjos mais melancólicos e letras sobre amadurecimento, solidão e deslocamento, cantado majoritariamente em inglês.

Tribalistas (2017), dos Tribalistas

Quando Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte lançaram Tribalistas (2002), o projeto parecia pontual. O trio não saiu em turnê e seguiu carreiras individuais, embora continuasse compondo junto ao longo dos anos. Foram mais de 30 canções criadas nesse período até que, 15 anos depois, o grupo decidiu retornar ao estúdio para gravar um novo álbum.

Lançado em 2017, Tribalistas reúne 10 faixas compostas coletivamente e gravadas em clima intimista, preservando a dinâmica orgânica do trio. O disco aposta em violões, percussões leves e harmonias vocais características do grupo, aproximando MPB e pop. Diferentemente da estreia, o álbum ganhou uma grande turnê internacional, passando por cidades do Brasil, Europa, Estados Unidos e América do Sul, incluindo apresentação no Lollapalooza.

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Vitória Prates

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