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Arto Lindsay relembra parcerias com Caetano Veloso, David Byrne e Marisa Monte 


Por:

Amanda Cavalcanti

Fotos: Divulgação/Jorge Bispo

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Arto Lindsay nasceu no estado norte-americano da Virginia, cresceu em Pernambuco, estudou na Flórida, se formou musicalmente em Nova York, trabalhou por muitos anos na Bahia e, hoje, mora no Rio de Janeiro. De uma forma ou de outra, esses lugares mapeiam as quase quatro décadas de carreira que o músico construiu – de sua participação na cena No Wave de Nova York à sua produção em discos brasileiros clássicos, como O Estrangeiro (1989) de Caetano Veloso, Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão (1994) e Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000) de Marisa Monte ambos ganharam prensagem em vinil pelo Noize Record Club.

Com uma presença quase sempre facilmente reconhecível por sua marca registrada – uma guitarra alta e barulhenta, sempre com fortes microfonias e distorções – Arto formou bandas que iam do noise rock, como o DNA, a um new wave inspirado pelo samba e MPB, como o Ambitious Lovers. Por outro lado, ele colaborou com artistas diversos como Carlinhos Brown, David Byrne, John Zorn, Laurie Anderson e Ryuichi Sakamoto. Em meio a essa diversidade, o artista aprendeu a compreender, como ele mesmo diz, os muitos "sotaques sonoros" locais e utilizá-los, mesmo antes de "globalização" ser um conceito utilizado cotidianamente para entender o mundo contemporâneo.

Hoje, ele se dedica a eventuais trabalhos solo (em 2017, lançou o álbum Cuidado, Madame) e a produzir algumas faixas e discos para amigos – como Mentedo carioca Thiago Nassif, de 2020, e O corpo de dentro, deLourenço Rebetez, de 2016. À Noize, ele falou sobre todo o trajeto que formou sua longa, diversa e prolífica carreira. 

Quais foram seus primeiros contatos com música? E com música brasileira especificamente? 

Eu vim pro Brasil com três anos [em 1956]. Antes disso, acho que já tive contato com a música nos Estados Unidos, mas não me lembro muito. Quando cheguei no Brasil, eu ouvia a música que vinha da rua. Cresci em Garanhuns, numa cidade pequena em Pernambuco, e em dia de feira eles tocavam música na rua por alto-falantes que ficavam pendurados em cima dos postes, com uns fios elétricos. Lembro de ouvir muito Luiz Gonzaga.

Em casa, minha mãe gostava muito de música e ela tinha discos que eu adotei pra mim.  Ela tinha um disco de Nat King Cole que eu gostava muito, um do Debussy, João Gilberto, Dorival Caymmi. Meu pai gostava de uma coisa mais rústica, um blues, esse tipo de música rural americana pré-country. Eventualmente também comecei a escutar Jorge Ben, Mutantes, Caetano, Beatles e Rolling Stones. 

E como você começou a tocar?

Eu fiz o colegial em Recife e, lá, eu cantava numa banda com americanos e eventualmente com alguns brasileiros. Eu cantei um pouco com o Robertinho do Recife, tinha uma banda com ele lá, conheci Naná Vasconcelos. 

Com 17 anos, fui fazer faculdade na Flórida. Durante a faculdade não toquei música, comecei a tocar depois de chegar em Nova York, com uns 24 anos, por aí. O cara com quem eu dividia quarto na faculdade, a namorada dele e a minha namorada, nós nos mudamos juntos pra Nova York.

Eles entraram numa banda e a gente saía para escutar música o tempo todo, escutava muita música. Comprávamos muito disco, pelo prazer e também pra conhecer. Discos eram bem baratos naquela época, então a gente se educou via discos. A gente comprava de tudo, música de todos países para saber o que era, história do jazz, história do soul, música experimental, música clássica.

E eu frequentava muito essa cena punk de Nova York, via bandas como Ramones e Television. Um dia, um dos caras que organizava esses shows me chamou e falou: "Quando é que você vem tocar com a sua banda?". Eu não tinha banda, e aí eu inventei a banda. E foi aí que eu comecei a tocar com o DNA.

Como você começou a construir sua relação com a guitarra? 

Eu tive essa ideia de tocar guitarra sem tocar acordes. Bater na guitarra, fazer microfonia, usar ela de uma maneira percussiva, trabalhar com distorção. Eu tive a ideia e saí fazendo logo em cima do palco e tentando seduzir o público. Depois, eu acumulei mais experiência e aprendi sobre formas musicais. Nunca deixei de tocar guitarra assim, mas fui aprendendo outras coisas, participei de várias bandas e toquei em muitas situações diferentes. Foi um período muito fértil da música de Nova York. A gente tinha muitas tradições distintas, mas as pessoas dessas tradições se misturavam. 

Hoje em dia é um pouco diferente. Hoje, cada indivíduo pode lançar mão, pode pegar coisas de outros estilos, muitas tradições, muitos países, muitas épocas. As gravações estão acessíveis para todo mundo. Então, qualquer indivíduo pode pegar uma batida e colocar em cima um esquimó cantando ao lado de uma cantora do Havaí. Naquela época, a gente fazia isso ao vivo. Então rolavam misturas muito interessantes de gente de vários países e a gente se entendia fazendo, a gente criava essas junções na hora ali. Foi uma característica da época. Foi uma época boa musicalmente, saiu muita coisa boa dali.

Nesses anos morando em Nova York, você manteve algum contato com o Brasil?

Quando a gente deixa o nosso país a gente se liga mais a ele, presta mais atenção, tenta ir mais fundo. É uma coisa que acontece com os exilados em várias áreas artísticas.

Quando eu saí do Brasil para fazer faculdade nos EUA, comecei a escutar João Gilberto, Jorge Ben, algumas figuras-chave com muito mais atenção do que eu tinha escutado antes. Depois que me mudei para Nova York, eu conheci vários brasileiros lá, toquei com alguns brasileiros que moravam lá. Fiquei amigo de alguns artistas brasileiros que passavam muito em Nova York, como Hélio Oiticica e Júlio Bressane, eu aprendi muito com eles. Eles eram uma espécie de referência para mim. O trabalho deles, mas também a cultura deles. 

Eu mantive contato com o Brasil de várias formas. Tanto que chegou um momento em que eu decidi tentar fazer um disco que fosse uma mistura de música brasileira e música americana, samba e soul, sem ser um sambista e muito menos um cantor de soul. Eu trouxe esse disco para o Brasil para tentar lançá-lo aqui e eu não consegui. Nenhuma gravadora se interessou, mas eu dei esse disco pro Caetano e ele deu para algumas outras pessoas – Cazuza, Lulu Santos – e foi aí que eu passei a conhecer músicos aqui.

De que forma surgiu a possibilidade de produzir para outros artistas? 

Eu nunca imaginei que eu seria um produtor, porque eu não tinha conhecimento técnico e nem treinamento, educação, técnica de composição, de harmonia, essas coisas. E também não tinha nenhuma experiência de estúdio.

Eu tive um parceiro, Peter Scherer, formamos uma banda chamada Ambitious Lovers, e ele era o oposto de mim no sentido de educação musical. Ele era ultra-super educado, tinha estudado no Conservatório de Zurique, tinha tido aula com vários compositores incríveis e também tinha uma formação em música eletrônica.

Começaram a nos chamar para produzir alguns trabalhos juntos, inclusive O Estrangeiro [do Caetano]. Mas depois ele não se interessou muito em seguir produzindo, não seguiu a carreira de produtor, mas eu segui durante um bom tempo e fui fazendo do meu jeito.  Eu fui vendo que eu tinha jeito pra entender o que um artista precisava para fazer um trabalho bom, pra se desafiar, tentar melhorar. Ajudar o artista a pensar no seu próprio trabalho e muitas vezes simplesmente me opor à opinião do artista pra que ele tivesse que ser firme nas suas decisões. E contextualizar, porque acho que muitos artistas, quando fazem um disco, mergulham dentro do processo de criação e precisam de alguém que fique de olho no geral, ou que ofereça outras possibilidades durante a feitura.

Conte um pouco sobre como foi trabalhar com o Caetano.

Eu tive muita sorte de começar meu trabalho de produtor com o Caetano, porque ele é um artista que tem uma noção muito ampla do seu trabalho em todos os aspectos, da canção em si, da música, da letra, de como funciona uma gravação e do contexto da história da música popular do Brasil e fora, do que está acontecendo no momento. Ele me usou para dialogar mais sobre as possibilidades de um disco. 

Como você começou a produzir para a Marisa?

A Marisa começou querendo chegar mais perto da geração dela e de aprender como se faz um disco, o que isso envolve em todos os níveis. O primeiro disco que fiz com ela [Mais (1991)] eu fui o produtor, mas depois sempre assinamos como coprodutores.

Quase 30 anos depois, de que forma você vê o Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão hoje?

Esse disco foi bem fundamental na carreira dela. Ela começou a desenvolver parcerias com pessoas da geração dela. A gente já tinha gravado músicas dos Titãs no Mais, no disco anterior. Mas nesse disco ela já gravou Arnaldo [Antunes], Carlinhos Brown, Brown gravou com a gente.

É um disco ambicioso, ele mexe um pouco com o épico, mexe com umas parcerias mais inusitadas – por exemplo a Laurie Anderson. Ele é um disco que já prediz muito do que ela eventualmente faria, é o início da maturidade dela como artista. Com certeza é um disco completo, é um mundo em si. 

Há diferenças em produzir discos para artistas tão esteticamente diversos quanto Caetano Veloso, David Byrne, Arnaldo Antunes, etc?

Eu acho que o que o produtor traz é uma espécie de atenção, de concentração, de escuta, sabe? Então, nesse sentido, cada disco é um disco. Também, muitas vezes, a gente chama a mesma equipe, os mesmos parceiros. Eu conheço uma turma de músicos, técnicos e estúdios, que seriam os primeiros que eu geralmente chamaria para gravar alguma coisa, são muito versáteis.  

Muito do prazer de um disco é um som, independente da música. É um pouco confuso aqui no Rio, pelo menos, porque a gente fala "vamos ouvir um som" como sinônimo de música.  É bonito, mas a gente pode tentar separar [risos]. Música é som, e o som de um disco é o som da música, mas existe a qualidade sonora que é super importante e é uma coisa que evolui, é uma coisa que também é diferente em diferentes lugares. Mesmo hoje em dia, com essa internacionalização tamanha da música.

Todo mundo escuta Spotify e todo mundo acaba escutando as mesmas coisas, mas mesmo assim existem sotaques sonoros locais. Você conhecer os vários sotaques locais e se interessar por isso tudo também faz parte do trabalho do produtor.

Nesse sentido, me parece que o Mente do Thiago Nassif se encaixa bem nessa definição. Ele me soa um disco bem carioca. 

Engraçado você falar isso. Nassif é um cara muito interessante, muito talentoso. Ele passou um ano nos Estados Unidos trabalhando num estúdio como técnico-assistente. Então ele entende esse sotaque norte-americano como poucos guitarristas brasileiros.

Ele se interessa por música experimental, mas claro que também tem uma formação clássica de MPB, de rock brasileiro. Esse disco é carioca no sentido de que tem muitos cariocas que participaram dele, principalmente de uma cena da Audio Rebel. É  uma cena pequena, muito específica, tem pessoas que criaram aquele som ali. 

Nesse sentido, não é tão diferente da cena No Wave, que também era formada por pouca gente e que na época não tinha tanta repercussão local. Por alguma razão, por ser em Nova York – e Nova York naquele momento era muito carismática pro resto do mundo –, as pessoas prestaram muita atenção numa cena pequena num cantinho da cidade. Teve uma repercussão internacional até grande, na época, apesar de ser uma coisa muito local e tocado em clubes pequenos.

O que você tem feito nos últimos anos? 

Hoje em dia eu moro na Gávea, no Rio de Janeiro, com meu filho Noah. Não tenho produzido tanto nesses últimos anos, exceto por algumas exceções – o disco do Nassif, que virou um amigão, um parceiro; o disco do Lourenço Rebetez; eventualmente uma coisa ou outra com a Marisa ainda.

Passei um ano em Nova York agora, no ano passado. Agora, vou ficar alguns anos no Brasil, e vamos ver o que acontece. É difícil marcar encontros agora por causa da Covid, mas aqui eu faço parte de uma boa comunidade, de amigos, de músicos no Rio, na Bahia e em São Paulo. 

Por:

Amanda Cavalcanti

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