
Em 2006, o Noporn lançou um disco que ajudou a traduzir a atmosfera da noite paulistana daquele período. Formado por Liana Padilha e Luca Lauri, o duo aproximou poesia falada, música eletrônica e artes visuais em uma obra que refletia a efervescência dos clubes, da moda e da cena independente da cidade.
Quase duas décadas depois, o álbum continua sendo um registro singular, reunindo referências que vão do electroclash à performance e transformando experiências da noite em música e poesia.
Agora, Noporn ganha sua primeira edição em vinil. Disponível em pré-venda pelo NRC+. Disponível em pré-venda pelo NRC+, a edição especial inclui um LP duplo em vinil vermelho opaco, capa gatefold, encarte original ampliado com as letras das músicas e entrevistas sobre a produção do álbum. A tiragem ainda conta com três faixas bônus: o remix de "Baile de Peruas", por Badsista; "Janelas", em versão de Tin God; e "Xingu", reinterpretada por Lucas Freire.
A seguir, reunimos cinco fatos que ajudam a contar a história do disco.
Liberdade acima de tudo
Embora o nome possa sugerir outro caminho, o Noporn nunca fez do sexo o tema central de sua obra. As canções tratam de desejo, afeto, liberdade e amor por meio de uma escrita poética, simbólica e muitas vezes subjetiva.
Em entrevista ao canal De Todo Mundo, em 2023, Liana explicou que o nome do duo é escrito junto justamente para reforçar essa ideia de interioridade: "é dentro, é noporn, e não 'sem porn'". A proposta sempre foi explorar as relações humanas para além da provocação, privilegiando a intimidade, a sensibilidade e a liberdade de interpretação.
“A Liana era uma pólvora criativa, eu me sentia muito estimulado criativamente ao seu lado. Ela inspira liberdade", conta Luca Lauri, DJ, produtor musical e fundador do duo.
Fervos e pistas
Antes mesmo do lançamento do álbum, o Noporn já fazia parte da efervescência da noite paulistana. O duo era presença frequente em clubes e festas que ajudaram a moldar a cena alternativa da cidade nos anos 2000, período em que São Paulo vivia uma explosão da música eletrônica, impulsionada pelo electroclash.
Entre os principais pontos de encontro da cena estava a festa Electroshock, realizada às sextas-feiras no lendário Xingu, que encerrou suas atividades em 2004. Depois do fechamento do Xingu, surgiu o Vegas, clube inaugurado em 2005 que também teve papel importante na trajetória do Noporn.
Além disso, o duo era figurinha carimbada na Sex Pop, evento que acontecia aos sábados no Supperclub, casa instalada em uma antiga sauna na região de Santa Cecília.
Mais do que espaços para apresentações, esses ambientes funcionavam como pontos de encontro de artistas, DJs, estilistas e performers — um universo diretamente conectado à identidade e à vivência do duo.
Conexão fashionista
Liana fundou, ao lado do então marido Régis Fadel, a marca Sucumbe à Cólera, conhecida pela estética vanguardista e underground. Essa relação com a moda voltou a ganhar força em 2003, quando o estilista André Lima e o DJ Zé Pedro encomendaram a faixa "Baile de Peruas" para a trilha sonora de um desfile na São Paulo Fashion Week. A música foi construída a partir de críticas publicadas pela imprensa sobre o trabalho de André Lima. Até hoje, ela é considerada um dos maiores clássicos do Noporn.
O pioneirismo do Noporn também foi reconhecido pela crítica. Em 2002, a jornalista e diretora criativa Erika Palomino, uma das principais referências da moda brasileira, escreveu na Folha de S.Paulo sobre o duo: "Eles brincam com sons, ritmos e barulhos, sempre com base electro. Os melhores momentos são com as lindas interferências vocais de Liana.”
Inspiração noturna
A experiência vivida nas pistas também se transformou na principal matéria-prima para o processo criativo e as composições de Liana. Ao observar o comportamento das pessoas, as paqueras, os encontros, os desencontros e os personagens que cruzavam a madrugada, a artista transformava essas cenas em letras que misturam poesia falada e música eletrônica. Em vez de narrativas diretas, as canções constroem imagens e sensações inspiradas pela vida noturna, fazendo do cotidiano da cidade uma das principais fontes de inspiração do disco.
Impacto visual
Poeta e artista visual, Liana entendia música e imagem como linguagens inseparáveis. Para traduzir visualmente esse universo, o duo convidou o artista visual e performer Fernando Zarif, responsável pela capa e pelo encarte do álbum. Figura importante das artes brasileiras, Zarif também assinou projetos gráficos marcantes da discografia dos Titãs, como Tudo ao Mesmo Tempo Agora (1991) e Titanomaquia (1993).












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