Design sem nome-59

Artistas de diferentes gerações falam da influência do Noporn


Por:

Renan Guerra

Fotos: Divulgação/Rodarlen

COMPARTILHE:

O som do NoPorn se espalhou pelas noites do underground de São Paulo nos anos 2000, mas não ficou restrito a essa cena. Com o passar dos anos, a banda formada por Liana Padilha e Luca Lauri foi redescoberta por públicos de diferentes idades e regiões. Um play no videoclipe de “Baile de Peruas” no Youtube, do álbum de estreia de 2006, até a presença de “Xingu” na trilha sonora do filme Beira-mar (2015, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon), ou o retorno com Boca, em 2016; tudo ia expandindo o legado da banda e isso se reverbera pelos ouvidos de quem se entende ainda hoje a partir desses beats.

No início do século, o paulistano Thiago Pethit era do tipo que estava lá nas noites do Xingu — a balada que durou de 2002 a 2004 e onde o NoPorn nasceu. Pethit seguiu seduzido pelo som da banda em outras pistas, como o clube Vegas, em São Paulo, ou mesmo na Fosfobox, no Rio de Janeiro. 

“A Liana era a Deusa da noite. Uma Lilit. Liana parecia um mistério. A voz dela me faz lembrar de muitas coisas. Aquele som embalou o começo da minha vida adulta e muitos beijos na boca com gosto de vodka e energético. O cheiro de cigarro nas roupas ao chegar em casa.”

As lembranças de amadurecimento também são a guia para Jup do Bairro, artista nascida e criada no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e que começou a explorar a noite paulistana muito cedo. Ainda menor de idade, Jup mal podia entrar nas matinês, mas enfrentava sua timidez e usava sua altura para desenrolar seus corres. Assim foi descobrindo clubes importantes de SP,  como o Hotel Cambridge, o Clube Glória, Astronete, D-Edge.

“Em uma dessas festas, estava rolando NoPorn e fiquei muito impactada. Eu ainda não era familiarizada com aquele estilo de Spoken Word, eu achei tão ‘in’, tão ‘cool’”, lembra ela. 

“Eu fiquei fascinada com aquela voz rouca, sintetizadores penetrantes e letras debochadas e tão complexas na suas elaborações. Foi aí que NoPorn e Liana viraram grandes inspirações para algo que viria a acontecer muitos anos depois com minha introdução na música e performance”.

A pista dos inferninhos undergrounds é também o local onde a cantora Catto conheceu o NoPorn, que surgiu primeiro pelas audições de “Baile de Peruas” nas noites de Porto Alegre e que só depois se expandiu com os downloads de internet nos anos 2000. “Foi bem mágico conhecer essa banda com o corpo antes de qualquer coisa”, afirma Catto. Para ela, a forma como o NoPorn, e em especial a poesia de Liana, capta as experiências da noite é algo muito especial. 

“É uma poesia que me atravessa muito pela sua verdade: quem é LGBT e frequenta a noite, que vive todo romantismo, a intensidade e a poesia da noite nesses ambientes tão oníricos sabe do que isso é feito."

Essa forma como a poesia do NoPorn capta a pista de dança é uma das marcas mais fortes que atravessaram Thiago Pethit. “Há um jeito de olhar a noite. De ser apaixonado por ela. Pelas possibilidades que guarda uma pista de dança. Sinto que eram tempos muito diferentes. Tinha espaço para ironia mas também para um certo niilismo, uma melancolia.”

O cantor continua: “As pessoas não iam dançar usando drogas que as fechassem para o mundo. Iam tomar bala e beijar na boca e se deslumbrar com a vida pós anoitecer. Tinha uma mágica naquilo que o NoPorn soube captar e traduzir e se alimentar e jogar de volta pra pista. Pista com poesia dançada. Tudo isso sempre foi de algum jeito uma vertente que me guiou”. 

“A noite e a pista de dança foi o lugar que me batizou, esse lugar onde eu me entendi como pessoa, onde encontrei os meus amores e os meus amigos. E celebrei, chorei e fiz tudo. E o que a Liana canta é muito carregado de uma personalidade que me atinge muito fundo porque tudo que ela tá dizendo ali eu já vivi ou estou vivendo ou já vi acontecer na minha frente. Acho que existe uma comunhão desse ambiente que ela, como poucas pessoas na música, pode traduzir em palavras de forma tão transcendental” - Catto

Poema noturno 

A poesia de Liana foi catalisadora de encontros e foi isso que seduziu Letrux no som do NoPorn. A artista carioca lembra de Liana indo falar com ela para elogiar sua antiga banda, o Letuce, mas Letícia ainda não sabia quem era Liana. “Depois daquele encontro, e por conta da simpatia dela, fui atrás de ouvir NoPorn e pirei. Eu sempre tive muita adoração por música falada, então quando eu ouvi ‘Baile de Peruas’ (foi a primeira que eu ouvi), eu achei delirante. Pensei ‘que livre, que delícia’”.

A liberdade, inclusive, é para Letrux um dos mais amplos legados de Liana Padilha e do NoPorn. “Liana tinha uma cabeça genial e já tinha vivido cada história na vida dela, que ela simplesmente não se grilava muito com as coisas. Ela simplesmente obedecia ao desejo dela e isso me inspira até hoje. Ela deixou um legado de desejo puro e absoluto. Um grande foda-se aos caretas, aos moralistas, aos normativos. Obedeci e obedeço até hoje. O que vale é o nosso fogo e foda-se todo mundo”. 

“NoPorn transformava as festas em cinema, em rota, movimento. Foi desse cenário que nos transportávamos foi que começamos a ver a noite como um espaço político de existência, especialmente para as comunidades LGBTQIA+, artistas, clubbers e corpos dissidentes em coletivo. O som do NoPorn ajudou a consolidar uma identidade de clubber que unia moda, performance, artes visuais e transgressão, longe do glamour esvaziado dos camarotes e afters de SPFW, e era tudo muito mais legal.” - Jup do Bairro

As novas possibilidades da pista de dança que se abrem ao som do NoPorn são também referências diretas para as integrantes da banda Vera Fischer Era Clubber. Adolescentes nos anos 2010, as artistas ouviram ou viram Liana ao vivo nas pistas cariocas e ficaram fascinadas.

A baixista Malu relembrou que o NoPorn se tornou uma paixão tão grande que foi o show de artistas brasileiros que ela mais assistiu até hoje. A baterista Pek0 relembra que algumas das integrantes das Veras chegaram a assistir alguns shows do NoPorn inclusive juntas muito antes da banda existir, “acompanhávamos os lançamentos ao longo de nossa amizade, já viramos noites de réveillon ao som do NoPorn. Tínhamos uma relação meio fanática, de fãs mesmo!”, lembra.

“Com o Noporn foi a primeira vez que eu realmente senti uma sincronia completa entre momentos e lugares presentes na minha história com a música. As texturas trazidas na sonoridade e na letra eram familiares. Do sotaque ao beat eletrônico que soa como o coração, eles transmitiam sinesticamente experiências. Não de maneira consciente mas, acho que absorvi esse desejo ou essa importância de comunicar com saliva, carne, imagens. Fazer o som parecer molhado, ou qualquer outra sensação associativa evocada pela poética da coisa.” - Crystal, vocalista da Vera Fischer Era Clubber  

Como bem define Pek0, “o NoPorn conseguiu misturar o eletrônico, a pista de dança, a poesia concreta e o spoken words numa panela bem brasileira” e isso se reverbera em um legado que atravessa todos os corpos que ocupam a pista. “Liana não via a noite apenas como entretenimento, mas como um território de acolhimento, possibilidade e disputa. Ela foi arquiteta de uma noite que celebrava a diversidade, o corpo dissidente, a moda de vanguarda e a liberdade de ser e existir”, afirma Jup do Bairro.

Pensar o legado do NoPorn é também pensar, conforme diz Jup do Bairro, nos artistas que criam sua própria existência e trilha, ou mesmo na estética e na resistência (e sobrevivência) das festas independentes e itinerantes que ocupam as grandes cidades. “Ela ensinou gerações de clubbers que a pista é um lugar de encontro político, de afeto e de proteção coletiva. Liana deixou a certeza de que a noite (que pode ser triste) passa, mas a memória do que fomos nela se torna eterna. Ela nos ensinou a dançar pensando e a pensar dançando”, finaliza Jup.

E quando sentirmos falta de Liana, da noite ou das memórias que fomos, fica a dica final de Thiago Pethit: “Dance dance dance dance dance e adore os DJs. Todas as letras e músicas cantadas pelo NoPorn são uma Bíblia da noite. Se a noite estiver morta e perdida, retomem No Porn e ouçam o que a Liana tem a dizer. A solução estará lá”. 

Por:

Renan Guerra

Fotos: Divulgação/Rodarlen

COMPARTILHE:


VER MAIS

RECEBA NOVIDADES POR E-MAIL!

Inscreva-se na nossa newsletter.