
Assim como David Bowie, Seu Jorge tem perfil camaleônico. Não se aquietou em uma só vertente. É o Seu Jorge que tocava com o Planet Hemp e Marcelo D2, é também ele nas versões em português do próprio David Bowie, na trilha sonora do A Vida Marinha com Steve Zissou (2004), um artista que vai muito além de "Burguesinha".
É também o ator do cinema — e não de qualquer filme, mas de Cidade de Deus (2002), quando fez o Zé Galinha. Deu vida, ainda, a Pixinguinha (em Pixinguinha, um Homem Carinhoso, de 2021) e Marighella (de 2019, alvo de censura de uma Ancine desmontada sob governo Bolsonaro).

O menino que se encantou pelo teatro — que dormia na UERJ depois das aulas porque não tinha casa para ir — cresceu e virou Seu Jorge, assim como Sinhô e outros ídolos do samba que adotaram o pronome de tratamento.
A origem do nome artístico é atribuída a alguns “causos”, como toda boa história de bastidores musicais. O que se sabe é que veio de Marcelo Yuka. Diz que o amigo sugeriu que o apelido poderia ser uma homenagem aos personagens do subúrbio, tratados pelo pronome informal, tipo o "seu Manoel do açougue".
Já D2 é mais espirituoso: conta, rindo, que estavam ensaiando em Santa Tereza (RJ), quando o telefone tocou e Yuka atendeu. Estranhou a voz do outro lado, grossa e firme, que procurava pelo D2. Yuka foi chamar o amigo: "ô D2, tem um tal de seu Jorge te procurando". Ele não conhecia nenhum senhor chamado Jorge. Quando atendeu, se acabou. "Que ‘seu Jorge’, pô, é o Jorge, meu amigo!".
O resto da história, a gente conhece. Veio o sucesso no cinema; vieram o Músicas Para Churrasco volume 1 (2011) e volume 2 (2015), que exaltavam os “personagens-tipo” brasileiros; vieram as parcerias com Mario Caldato, parceiros desde o Samba Esporte Fino (2001), seu álbum de estreia. Inclusive, trabalharam juntos no ainda inédito disco em inglês, prometido para 2025.
Em 2011, veio outro megahit, "Quem Não Quer Sou Eu". Em 2024, o MTG da faixa foi a música mais tocada do país nos streamings. O artista gosta de ver sua obra no imaginário popular. Mas discorda sobre os revisionismos pelos quais passam algumas de suas letras — como “Amiga da Minha Mulher”, que foi classificada como machista em uma lista do portal Geledés, em 2014.
Ele explica que vê a música como uma crônica sobre um homem confuso e uma situação cotidiana, como explicou no Roda Viva em 2022. Mas diz que vem aprendendo muito com a nova geração, especialmente através de suas filhas, Flor, Luz e Maria (em 2023, teve seu primeiro menino, Samba).
Parece olhar para o presente mais com interesse do que com nostalgia: celebra o passado junto aos amigos, como na participação na gravação do show de 30 anos do Planet Hemp, em São Paulo, em julho de 2024, e vislumbra o futuro através dos projetos da sua produtora, Black Service.
Também acompanha a primogênita, Flor, que lançou seu primeiro EP, Prima, em 2024. Se a música, para ele, foi sobrevivência e caminho para uma vida melhor, Seu Jorge só espera que Flor curta a parte boa do processo — como todo pai coruja.

Você e o D2 têm muito em comum, para além da amizade de longa data. Ele ficou conhecido pela mistura do rap com o samba, e sua discografia passeia também por ritmos e propostas musicais distintas entre si. Como você avalia as conexões na obra de vocês?
O Marcelo traz com ele toda a alma do subúrbio do Rio. Então, tem muito samba, João Nogueira, Roberto Ribeiro, Bezerra da Silva, Dicró. Eu também, né? A gente que é do subúrbio — o Marcelo, da zona norte, eu, da Baixada Fluminense — viveu tudo aquilo. Ainda mais que somos contemporâneos, ele só é três anos mais velho que eu. Depois, chegou pra gente o reggae, a cultura hip hop, tudo foi referência. O Farofa Carioca [banda formada por Seu Jorge nos anos 1990] também foi impactado pelo Planet Hemp. Eu mesmo, fui muito impactado por eles. Essa é uma das características mais fortes na carreira do Marcelo: a possibilidade de enxergar compatibilidade na música, nas pessoas, nos talentos, por mais distintos que sejam.
Você participa de “A Maldição do Samba”. Como foi essa gravação?
Sempre estou acompanhando os projetos do Marcelo, o Planet... Foi ele que me apresentou ao Mario Caldato, por exemplo. É uma amizade que perdura há mais de 20 anos. E numa dessas, gravamos “A Maldição do Samba”, que foi muito legal (risos). Minha mãe participa desse videoclipe! Foi a Mariana [Jorge], mãe da minha filha, Flor, que fez a direção de fotografia. Ganhamos prêmio na MTV… é uma boa memória, um momento forte da nossa parceria musical.
Já do encontro com Mario Caldato saíram discos. Como é sua relação com ele?
Ele tem um ouvido muito atento, sempre trouxe sugestões preciosas. O Mario sabe de indústria, mas sempre balizou nosso olhar para a música como arte. Ele acredita que, se a música pulsa em você, vai pulsar na gravação, vai tocar outras pessoas. Ele é o meu grande produtor, mas nós temos também uma relação de amizade bastante profunda. No início, eu me mudei para os Estados Unidos para ficar perto dele. Acabei morando lá por muitos anos. Foi onde criei minhas filhas, que moram lá até hoje.
Você pavimentou seu lugar na música brasileira. O que mudou de quando você começou para hoje em dia?
Acho a minha estrada muito bonita. Tenho muito orgulho. Hoje, tem muita coisa que não existia na minha época. Tenho a felicidade de ter visto a transformação do analógico para a revolução digital, a gama de ferramentas que nos deixa mais autossuficientes na produção, com softwares e a distribuição em larga escala… gosto muito de acompanhar as novidades.
A sua filha, Flor, também revelou talento para a música. Como você vem acompanhando a carreira dela? Chegou a dar alguns toques?
Essa pergunta é maravilhosa, porque me faz lembrar dela bem pequenininha, assim, brincando de cantar. Toda criança gosta de música, é a primeira manifestação antes de falar e andar. Mas ela sempre gostou muito.
Hoje, vendo-a com 22 anos, no começo da sua vida, feliz e cheia de esperança, o único conselho que dou é: divirta-se. Seja honesta com a sua música. Tudo o que fizer, faça com paciência e paixão. Fora do palco, a gente é pai e filha. Temos uma amizade muito grande. Ela me conecta com o que está rolando de novo. Através dela, eu consigo fazer uma ponte com uma nova geração. Ter uma filha como ela é um privilégio.
*Esta matéria foi publicada originalmente na Revista Noize #157, que acompanhou o vinil de "A Procura da Batida Perfeita", de Marcelo D2, publicada em 2025.













