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Dos Mutantes à bandaCê: as bandas que acompanharam Caetano Veloso


Por:

Lucas Vieira

Fotos: Giovana Chanley; Paulo Botafogo/Divulgação

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Entre suas falas durante os shows da turnê Meu Coco, Caetano Veloso fez questão de homenagear os músicos com quem trabalhou ao longo dos seus mais de 50 anos de carreira. Conheça a seguir os personagens que construíram com Caê a sua sonoridade ímpar.

A Tropicália e o começo

Após Domingo (1967), seu álbum bossanovista de estreia, feito ao lado de Gal Costa, a sonoridade de Caetano na Tropicália se caracterizou pelo acompanhamento de bandas que traziam em comum uma identificação com a psicodelia. Em seu segundo LP, lançado em 1968, o baiano contou com a participação de três delas: Os Mutantes, Beat Boys e RC-7.

Formados pelos argentinos Tony Osanah (guitarra e voz), Marcelo Frias (bateria), Cacho Valdez (guitarra), Toyo (teclados) e Willy Verdaguer (baixo), os Beat Boys ganharam notoriedade ao acompanhar Caetano em “Alegria, Alegria”, no Festival de MPB da TV Record em 1967, e foram a banda de base do LP que inclui “Tropicália” e “Soy Loco Por Ti América”. Já o RC-7 era o grupo de apoio de Roberto Carlos e foi com ele que Caetano gravou “Superbacana”. Mas foram Os Mutantes, de Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, que o acompanharam, em 1968, na fatídica apresentação de “É Proibido Proibir” e nos shows da boate Sucata, que influenciaram na prisão dele e de Gil (além de terem rendido um compacto hoje raríssimo).

Vale citar ainda o conjunto Os Da Bahia (Os Leif’s), de Pepeu Gomes e seus irmãos Jorginho e Carlinhos. Com eles, Caetano e Gil fizeram seu show de despedida do Brasil, em julho de 1969, antes de partirem para o exílio em Londres. A apresentação foi registrada no LP Barra 69 (1972), que pode ser considerado um encerramento da primeira fase de Caê.

London, London

Após fazer seu primeiro disco no exílio, Caetano Veloso (1971), sem uma banda de acompanhamento, o artista decidiu formar um grupo para o trabalho seguinte. Ao lado de Tutty Moreno (bateria), Áureo de Souza (percussão), Moacyr Albuquerque (baixo) e Jards Macalé (violão e guitarra), Caetano gravou Transa (1972), um dos álbuns mais celebrados de sua carreira.

Com o quarteto, ele desenvolveu uma sonoridade baseada em sua forma de tocar violão, misturando elementos da música brasileira com a novidade do reggae e o pop e o rock (que se confundiam naquela época). Em faixas como “You Don’t Know Me” e “It’s a Long Way”, Caetano apresentou um repertório que incluiu colagens de letras e o som resultante das experimentações feitas nos ensaios.

Perinho e os anos 70

Ainda em 1972, de volta ao Brasil, ele passou a contar com a colaboração de Perinho Albuquerque, músico e produtor que participou da maioria de seus álbuns até 1982. Seja tocando, fazendo arranjos ou produzindo, Perinho ajudou a definir o som de Caetano durante a década, período no qual ele também se uniu a músicos como Tuzé de Abreu (sopros), Perna Fróes (teclados), Enéas Costa, Djalma Corrêa e Bira da Silva (percussões).

Mas em 1975, quando lançou os álbuns Qualquer Coisa e Jóia, o artista contou, para apresentações ao vivo, com o conjunto baiano Bendegó, que se caracterizava pela mistura de música regional e rock e tinha em sua formação Gereba (viola), Kapenga (baixo), Zeca Baretto (violão), Hely Rodrigues (bateria) e Vermelho (órgão).

Bicho Baile Show

Em 1977, Caetano lançou Bicho, um disco de aura dançante. Embora o LP tenha sido gravado com o embrião do conjunto A Outra Banda da Terra, o artista chegou a tocar na época com a Banda Black Rio. O encontro resultou no álbum ao vivo Bicho Baile Show (1978), lançado apenas em 2002 no box de CDs chamado Todo Caetano.

Formada em 1976, a Banda Black Rio surgiu no momento em que os bailes de música negra se espalhavam pelos subúrbios cariocas. Misturando a musicalidade brasileira com o balanço do funk, o conjunto formado por Oberdan Magalhães (saxofone), Jamil Joanes (baixo), Lúcio Trombone (trombone), Luiz Carlos Santos (bateria), Barrosinho (trompete), Cláudio Stevenson (guitarra), Cristóvão Bastos (teclados) e Sidinho Moreira (percussão) trouxe seu swing e arranjos refinados de sopros para o contexto do nono disco de estúdio de Caetano.

A Outra Banda da Terra

No disco seguinte, Muito (1978), o artista apresentou seu novo conjunto, que o acompanharia ao longo de cinco anos. Ensaiando ao lado dos músicos Arnaldo Brandão (baixo) e Vinícius Cantuária (bateria), ele criou A Outra Banda da Terra, com uma nova sonoridade que refletia os temas solares do cotidiano praiano do Rio de Janeiro. A eles, se juntaram Tomás Improta (piano), Marcos Amma, Bira da Silva e Bolão (percussões), Perinho Santana (guitarra) e Zé Luís (saxofone).

Com A Outra Banda da Terra, Caetano abraçou outra vez os timbres da música pop, que agora já estava mais próxima do funk e da disco do que do rock, e viveu o que definiu em seu livro Verdade Tropical (1997) como “a fase de maior felicidade” de sua vida musical. Após gravarem cinco LPs entre 1979 e 1983, os integrantes do grupo resolveram seguir outros caminhos em suas carreiras. Assim, o cantor resolveu criar uma banda nova, que batizou de…

A Banda Nova

Com Marcelo Costa (bateria), Tavinho Fialho (baixo), Marçalzinho (percussão), Ricardo Cristaldi (teclados), Zé Luís (saxofone) e Toni Costa (guitarra), Caetano criou a Banda Nova e incorporou a sonoridade do pop rock que dominava a música brasileira na década de 1980. Com seus timbres de teclados e bateria eletrônica, o grupo deu tons de synthpop à discografia do cantor. Aos poucos, a formação original, que gravou o disco Velô (1984), foi sofrendo alterações, agregando músicos como Carlinhos Brown (percussão) e Cesinha (bateria), que participam do álbum Caetano (1987).

Com as trocas de integrantes nos anos seguintes, a descaracterização fez com que a banda de apoio não mantivesse o nome de Banda Nova. Contudo, vários músicos dessa fase, em especial Toni e Marcelo Costa, seguiram juntos de Caetano por vários anos. Destaca-se no repertório da Banda Nova canções como “Podres Poderes”, “O Quereres” e “Eu Sou Neguinha”.

Arto, o estrangeiro

Em sua primeira turnê internacional, durante a divulgação do disco Uns (1983), Caetano conheceu Arto Lindsay, guitarrista norte-americano que cresceu em Pernambuco. Arto se destacou na cena musical de Nova York dos anos 70, fazendo parte de bandas como DNA e Lounge Lizards, com sua forma particular de tocar guitarra, usando o instrumento para gerar ruídos, e não para tocar notas da forma tradicional.

Na década de 1980, Arto criou, ao lado do pianista Peter Scherer, o duo Ambitious Lovers, em que misturavam elementos de funk e música brasileira com o rock alternativo. Juntos, a dupla produziu o trabalho seguinte de Caetano Veloso, Estrangeiro (1989), que uniu os elementos da banda estadunidense com a sonoridade da Banda Nova. Dessa gravação, também participaram o percussionista Naná Vasconcelos e os músicos Tony Lewis (bateria), Bill Frisell e Marc Ribot (guitarras).

Dando continuidade a essa sonoridade, Circuladô (1990), o próximo disco, contou mais uma vez com a produção de Arto. Porém, dessa vez, Peter Scherer estava ausente. Deste período, destacam-se canções como “O Estrangeiro”, “Outro Retrato”, “Fora da Ordem” e “Ela Ela”.

A fina estampa de Jaques

Em Circuladô, há a entrada de outra figura fundamental na carreira de Caetano a partir dos anos 90: o violoncelista Jaques Morelenbaum. Embora tenha formação erudita, Jaques sempre teve envolvimento direto com a música popular, integrando o grupo A Barca do Sol e participando de gravações antológicas de artistas como Taiguara e Tom Jobim.

Jaques trouxe à obra de Caê o requinte de arranjos de cordas e sopros, que se uniram aos diversos projetos a que o cantor se dedicou nos anos ao lado do maestro, incluindo canções em espanhol em Fina Estampa (1994), uma abordagem moderna dos ritmos baianos em Livro (1997) e Noites do Norte (2000) e o cancioneiro norte-americano de A Foreign Sound (2004). Nesses trabalhos, além de orquestra e big band, a banda de apoio de Caetano teve a presença de músicos como Luiz Brasil (guitarra e violão), Zeca Assumpção (baixo) e dos percussionistas Márcio Victor, Josino Eduardo e Eduardo Josino.

Você nem vai me reconheCê

Um dos nomes que esteve ao lado de Caetano na fase com “Jaquinho”, e seria indispensável para a renovação da obra do artista nos anos 2000, é o guitarrista Pedro Sá. Com Ricardo Dias Gomes (baixo e teclado) e Marcelo Callado (bateria), também músicos da cena do rock carioca dos anos 90, Pedro formaria a bandaCê.

Marcada por uma trilogia de discos — (2006), Zii e Zie (2009) e Abraçaço (2012) —, a bandaCê foi responsável por uma atualização do público de Caetano, inserindo arranjos pautados pelo indie rock nas composições do cantor, assim como apresentando clássicos e músicas menos conhecidas ao novo público jovem de seus shows. Entre faixas que se destacam dessa fase estão “Rocks”, “Sem Cais” e “A Bossa Nova É Foda”.

O coco de Caetano

Após a dissolução da bandaCê, em 2014, Caetano se dedicou a shows mais intimistas, como Dois Amigos, Um Século de Música, comemorando seus 50 anos de carreira ao lado de Gilberto Gil, e a turnê Ofertório (2018), em que se apresentou ao lado dos filhos Tom, Moreno e Zeca.

Com sonoridade que mistura elementos de diversas fases de sua obra e discurso afinado com o Brasil contemporâneo, Caetano gravou Meu Coco (2021), convidando músicos novos e outros com quem já havia tocado ao longo de sua carreira. Para os palcos, chamou o também produtor do disco Lucas Nunes (guitarra, violão e teclados), Kainã do Jêje, Pretinho e Thiaguinho da Serrinha (percussões), Alberto Continentino (baixo) e Rodrigo Tavares (teclados).

Com tantas bandas e sonoridades diferentes, é sempre uma incógnita como será o som do próximo trabalho de Caetano Veloso. Será com uma banda de rock? Uma orquestra? Uma dupla de DJs? Uma escola de samba? Tudo é possível.

Por:

Lucas Vieira

Fotos: Giovana Chanley; Paulo Botafogo/Divulgação

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