
Para viver no modo fã, é preciso ter gostos em comum e muito amor pela música. No capítulo introdutório do livro Nothing Feels Good, o jornalista Andy Greenwald se ocupa com uma questão que, por décadas, populou debates na internet e em espaços de música: o que é emo? O que leva bandas com sonoridade tão diferente quanto Jawbreaker e Dashboard Confessional a serem incluídas debaixo do mesmo guarda-chuva?
A resposta, ele argumenta, são os fãs. Raramente uma banda se autodeclara "emo" – o que as une sob esse mesmo rótulo é o agrupamento dos fãs, em geral adolescentes, hipnotizados e contemplados em suas emoções por uma música melancólica.
Esse é só um dos exemplos de como os fãs são uma das instituições mais sólidas da música popular. Longe de serem apenas espectadores passivos, muitas vezes os fãs – ou fandoms, quando eles se juntam em grupos organizados – definem, em grande parte, a trajetória de um dado gênero ou artista.
Foi o caso do KATSEYE, grupo formado numa competição de reality show, como tantos antes delas – One Direction, Fifth Harmony, Little Mix e outros. O caso das garotas foi particular por algumas razões: primeiro, porque o Katseye é um grupo global, formado por cantoras e performers de diferentes nacionalidades e culturas, e em segundo, porque o Katseye foi o primeiro grupo formado num reality show usando o treinamento geralmente utilizado na Coreia do Sul para as estrelas de K-Pop.
No reality The Debut: Dream Academy, os fãs não foram responsáveis diretamente por escolher o line-up final do grupo, mas, semana a semana, eles puderam votar em quem seriam as dez finalistas dentre as quais os seis membros finais do KATSEYE foram escolhidos.
Depois da formação oficial do grupo, a viralização de suas faixas no TikTok e Instagram também foram vitais para que o KATSEYE se tornasse um novo fenômeno – chegando até a ganhar uma indicação para Artista Revelação no Grammy deste ano.
Espaço de pertencimento
Isso porque, como a jornalista Hannah Ewens escreveu na introdução ao livro Fangirls, "ser fã é coisa séria". Publicado em 2019, o livro é, ao mesmo tempo, uma história dos fandoms e um espaço para que dezenas de fãs entrevistados por Ewens contem suas próprias narrativas. O termo escolhido, "fangirls", não é por acaso – apesar de Ewens dizer que pessoas de qualquer gênero podem ser "fangirls", é inegável o impacto que as mulheres têm nessa ala específica da indústria da música.
"Estamos em uma época em que, mais do que nunca, garotas e jovens queer criam a música popular contemporânea e as culturas de fãs com suas perspectivas e ações", escreve Ewens. "São elas que estão à frente de práticas de fandom das quais o público tem apenas uma noção vaga: tuitar incessantemente sobre seu artista favorito, escrever fanfics, atualizar religiosamente perfis dedicados nas redes sociais, comprar ingressos de ‘meet and greet’ e seguir a banda por várias datas de shows."
Nos autos oficiais, a história do "fangirling" começa oficialmente com a Beatlemania, mas Ewens conta que, desde que havia cultura, havia fãs. O próprio poeta Lord Byron, lá no século 19, já teve fãs se amontoando do lado de fora de seu escritório; o termo "lisztomania" foi criado pelo escritor alemão Heinrich Heine pra descrever a "loucura" que acontecia nos concertos do compositor Franz Liszt.
Mas tudo mudou com o quarteto de Liverpool. "De repente, os fãs não eram apenas parte de algo maior do que eles mesmos, fosse lá o que isso significasse – eles eram tão importantes quanto os artistas que amavam. A palavra 'Beatlemania' estampava as manchetes e, se você fazia parte dessa 'loucura', se os seguia por toda parte, se se entregava a 'gritos incessantes', os holofotes estavam voltados para você", Ewens escreve.
A autora complementa: "Fandom junta as palavras fan e kingdom – há, como isso sugere, um rei ou rainha regente, mas também um território e uma comunidade de seguidores. Ser fã é gritar sozinho, mas junto. É embarcar em uma jornada coletiva de autodefinição. Isso significa puxar os fios da sua própria narrativa e fazer isso com amigos e estranhos que parecem amigos."
*Conteúdo apresentado pela Fiat









