
Desde o primeiro disco autointitulado, de 2015, o Black Pantera conquistou espaço na cena pesada nacional e internacional, explorando a veia política e combatendo o apagamento histórico da música negra dentro do contexto Raprockandrollpsicodeliahardcoregga (como diria o Planet Hemp).
O trio de Uberaba se destaca pelo viés educativo de mostrar que o rock também é preto. Os álbuns Agressão (2019) e Ascensão (2022) evidenciam letras que vão muito além dos clichês do estilo musical. A relevância cresceu após a parceria com a DECK em 2022, que levou Charles Gama (guitarra/voz), Chaene da Gama (baixo) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria) ao circuito de grandes festivais como Lollapalooza e Rock In Rio, culminando nos recentes Perpétuo (2024) e Continental ( 2026).
Este último disco amplia a paleta sonora do Black Pantera: entre thrash metal, hardcore, punk, soul, rap e elementos afro-brasileiros, o álbum transforma a ideia de um Brasil “continental” em linguagem musical. As participações refletem essa multiplicidade sonora, indo de Duquesa a Sandra Sá passando por, Derrick Green, do Sepultura, e Chico César.
Em cada projeto, fazer música é um ato político focado em incomodar através de temas como racismo, política e ancestralidade. E eles sabem que incomodam: o movimento reaça impregnado no rock, os selos que temem temáticas fortes e os festivais que preferem o silêncio. Eles não vão parar.
A Noize conversou com o trio para um diálogo que conecta o passado, o presente e o futuro da música preta. Acompanhe:
Quando muita gente pensa em punk, pensa em Londres e Nova York em 1977. Mas em 1971 os irmãos Hackney já formavam o Death em Detroit, e em 1974 o Pure Hell quebrava tudo na Filadélfia. Os caras inventaram o proto-punk sendo pretos, periféricos e incompreendidos pelas gravadoras na época. Como é para vocês, como Black Pantera, carregar esse mesmo espírito de vanguarda, tocando um som que a indústria muitas vezes tenta embranquecer?
O Pure Hell eu fui conhecer um pouco depois, mas o Death (principalmente quando o vi o documentário A Band Called Death, lançado em 2012), alugou um triplex na minha cabeça. Eles eram transgressores até mesmo dentro da própria cultura preta. E quando a gente pega as datas, descobre a história e vê que o Death só teve reconhecimento décadas depois. É triste.
Mas isso serve pra elucidar o que a gente bate na tecla. O Neilton (baixista do Devotos) usa afinações pesadíssimas, bem antes da galera do Nu-Metal. Ele estava em Recife e muita gente nem sabe que eles foram precursores em termos de transpor, testar afinações.
É uma banda preta, é complicado se sobressair e ter reconhecimento da indústria. Você precisa ser duas vezes melhor, mais inventivo.
O fator raça chega primeiro e o Black Pantera é uma banda antirracista, que fala explicitamente sobre isso e seguimos sempre de cabeça erguida.

Se o punk trouxe a atitude, o Bad Brains trouxe a velocidade sobre-humana e a precisão técnica. Bandas gigantes de thrash Metal, do Metallica ao Anthrax, admitem que só aprenderam a tocar rápido porque viram o Bad Brains no CBGB. Como o hardcore e a espiritualidade do Bad Brains influenciam a forma como o Black Pantera dita o ritmo e a energia no palco hoje?
O Bad Brains é uma força da natureza. Meu sonho é ver um show deles e trocar uma ideia. Eles influenciaram todo mundo. Eram músicos excelentes, tinha esse elemento da rapidez que realmente é uma característica da banda. Uma das faixas do “Continental” (“Obsoleto”), carrega um pouco disso) e acho que foi por isso que o Derrick Green (Sepultura) aceitou tão fácil nosso convite [ele participa do disco mais recente da banda, Continental, na faixa “Obsoleto”].
Ele também era de uma banda de hardcore e fã do Bad Brains. Tem muita gente que não entende o que a música representa. Tem muito facho usando camisa de banda também, mas boa parte dos fãs de Bad Brains se identifica com o Black Pantera, pois sabem que isso também faz parte do nosso DNA.
Nos anos 80, o heavy metal virou uma cena extremamente branca nos EUA. Mas aí veio o Soundbarrier, sendo a primeira banda 100% negra a assinar com uma grande gravadora, e logo depois o Living Colour. Vocês sentem que essa barreira técnica que eles quebraram nos anos 80 abriu caminhos para que o Black Pantera pudesse chegar hoje com a técnica e o peso que vocês têm?
O Living Colour foi um marco. Analisando o heavy metal, o hardcore, enfim, o Living Colour aparece na contramão. Eles também sentem o peso do racismo profundamente. Eles já tinham destaque na cena underground, mas não conseguiam gravar com ninguém até o Mick Jagger assistir a um show dos caras e ajudar na produção das demos.
Se não fosse o Mick Jagger, talvez a gente nem tivesse o Living Colour ocupando esse espaço nas paradas ali no fim da década de 1980 e começo de 1990. Como baixista, Muzz Skillings, Doug Wimbish, enfim. Conhecemos a banda desde a época de Rock In Rio 2022. Foram dois shows em BH e SP.
Eles chegaram e a gente conseguiu falar pessoalmente que eles foram inspiração pra gente. Todo mundo tinha que assistir um show do Living Colour, porque é uma aula.
Quando a gente fala sobre resistir no interior de Minas e enfrentar esse conservadorismo, é impossível não olhar para o resto do Brasil e ver quem abriu essas portas no Nordeste. Em 1988, o Devotos surgia no Alto José do Pinho, em Recife. Vocês já declararam o quanto eles são uma influência gigante. Como foi para o Black Pantera, que veio da correria de Uberaba, se conectar com o Cannibal, o Neilton e o Celo? Dividir palcos históricos com eles — como foi no Rock in Rio — passou para vocês a sensação de que o bastão da resistência do hardcore preto no Brasil foi oficialmente passado para as mãos de vocês?
O Devotos é especial por que a gente cresceu no interior de Minas Gerais, um lugar onde tudo demora pra chegar. A gente viveu essa era da fita cassete, das gravações, a geração do CD, vinil. Pra certas bandas chegarem pra gente era muito difícil.
E a época em que isso aconteceu foi incrível, pois eu estava me envolvendo com o punk e foi uma abertura de mente gigantesca.
Era difícil achar vídeo da banda, era difícil pra escutar muita coisa porque era difícil chegar em Uberaba. Com o tempo foi ficando mais fácil e, pra gente, foi uma loucura.
Ver pessoas parecidas comigo e com outros integrantes da banda tocando punk com letras em português que nos tocavam foi uma grande descoberta.
Crescer com isso foi loucura. Quando eu comecei o Black Pantera, o Devotos estava sempre na minha mente, seja pela letra ou pela atitude. Eles eram uma banda que falava o que precisava ser falado, com pessoas negras... Isso foi libertador. Quando a gente teve o primeiro contato com o Canibal, foi sensacional, porque nunca gostei de ir atrás dos artistas, mas aconteceu um show em BH e nós conversamos com ele.
Eu só via o cara no encarte do CD, da fitinha cassete e em alguns clipes que passavam. Foi como conhecer uma pessoa da minha família, porque tudo que ele falava estando no nordeste soava muito como as minhas vivências em Minas Gerais. Depois disso virou parceria mesmo, a gente se trombou mil vezes, depois veio o convite para o Rock In Rio. Foi um show histórico que está lá pra todo mundo ver e que foi proporcionado pelo Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World.
É um momento único, com duas bandas pretas no dia do Rock no palco do Rock In Rio. De noite ainda teve Living Colour! Estive recentemente em Recife e encontrei o Canibal, passamos a tarde trocando ideia sobre som, as nossas ideias, enfim, a gente sente essa passada de bastão e estamos no corre pra mostrar pra molecada que o Rock preto merece respeito.
A gente sabe que fazer música pesada e de protesto no Brasil exige um suor dobrado, principalmente quando se está no circuito independente. Mas a história de vocês ganha um impulso gigantesco quando vocês entram para o catálogo da Deck, trabalhando ao lado de uma estrutura que entende o rock e o hardcore nacional como ninguém, além da produção do Rafael Ramos. Como tem sido a importância disso?
Tudo foi se encaixando. A chegada da Deck foi surpreendente pra gente. Eu imaginava que coisas grandes aconteceriam conosco se mantivéssemos os pés no chão. Quando a gente encontrou o Rodrigo [Lima], do Dead Fish, já foi uma mudança gigantesca.
Ele deu a chance pra gente abrir o show deles no Circo Voador. Foi uma oportunidade gigantesca. A gente teve uma estrutura legal pra trabalhar, conseguimos trabalhar com um produtor que consegue extrair todo o suco sonoro do grupo pra conseguir produzir.
O Rafael Ramos não é só produtor, ele é um quarto integrante da banda e com certeza teve papel fundamental pra propagar o nosso som.
Minas Gerais tem um paradoxo gigante. Por um lado, o estado é o berço do Metal Extremo no Brasil, exportando o Sepultura e o Sarcófago para o mundo nos anos 80. Por outro lado, é um estado historicamente marcado pelo conservadorismo, por oligarquias rurais e por um racismo estrutural e colonial pesadíssimo. Quando vocês se juntaram em Uberaba, em 2014, como foi encarar esse contraste?
Cidade do interior, você já imagina como são as condições. Aqui sempre foi o famoso Do It Yourself. Boa parte dos festivais e os eventos que rolavam era com todo mundo se ajudando. Os movimentos aqui em Uberaba são legais, posso citar até o festival Fora do Eixo da nossa amiga Letícia, que segue resistindo e trazendo grupos legais pra tocar no Pub dela em Uberaba.
Existe uma cena legal que vem desde o começo dos anos 2000 e que com o tempo foi se perdendo. O espaço era menor e isso atrapalhava a realização dos eventos. E quando a banda nasceu, foi nesse momento em que a cena estava totalmente parada e isso me causava uma sandice porque eu sempre fui do movimento. Seja tocando com as bandas covers que eu tinha ou indo nos rolês pra ver as bandas que existiam.
Sempre tive vida ativa na cena local. Em 2013 foi o ano do planejamento. A banda veio em 2014 mas essa etapa foi muito importante. Eu ensaiei, estudei, fiz as composições... Fiz o primeiro CD praticamente sozinho, em casa.
Mas aí entra a dificuldade de se ter uma banda num lugar que não se tem espaço. É muito difícil, mas eu tinha esse sonho e isso não afasta o fato de que em Minas Gerais a questão do racismo é bastante complicada. Em Uberaba também, sempre foi.
Lembro do meu período na escola foi bastante conturbado, simplesmente odiava ir pra escola. Os anos 90 e 2000 foram muito cruéis. Ainda é, mas nessa época era tudo muito explícito.
Lidava muito com o racismo desde jovem. Já tinha essa percepção de diferenças sociais, classes sociais e a estrutura do racismo.
Minha forma de lidar com isso foi formando a banda, foi lendo... A gente não tinha o mesmo acesso que temos hoje, então eu fui bastante nas bibliotecas municipais buscar livros de autores e autoras pretas.
Com isso eu conheci os Panteras Negras, os movimentos negros que existiram no Brasil e o resto é história, mas a gente sempre teve que lidar com isso. Lembro de vários fatos relacionados a isso.
As pessoas falavam: “vai montar uma banda de rock? Mas vocês são pretos. Preto não toca rock.”
Essa frase é tão estranha, mas ela faz parte da história do racismo que apaga a história das pessoas pretas e o Black Pantera representa esse tempo de retomada nas nossas cabeças e corações pra nos manter de pé até hoje.













