
Tente repetir “SadSexySillySongs” três vezes seguidas: não vai ser fácil. No seu quarto disco como Letrux, a cantora e compositora criou um trava-línguas que reflete a admiração que sente pelas palavras – e as figuras de linguagem que as vestem. “Sempre amei aliterações, desde que a professora de literatura ensinou o que era isso”, diz ela, ao falar sobre a repetição do “s” no título do disco.
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Mas é só no título que trava a língua. Ao longo das doze faixas, a artista desenrola os três nortes que a inspiraram: a tristeza, a bobagem e a sensualidade. Esses temas, que os ouvintes já encontraram antes na discografia da artista, agora chegam embrulhados num papel de presente novo. “Eu amo minha banda, amo mil camadas sonoras, mas também amo minimalismo, música mais enxuta, tristinha, voz na frente. Amo brincar de coisas diferentes”, compartilha.
Para compor, chamou muita gente para brincar com ela: seus pares, Jadsa e Mahmundi; Arthur Braganti, companheiro de banda; Thiago Vivas, seu parceiro na vida; Yasmin Zoran e Gabriel Viegas, da banda Nouvella, com quem colaborou em 2025; e mais pessoas de quem é amiga e admira o trabalho, como Bruno Capinan, Thiago Borges, Luiz Felipe Reis, Theo Machado e Leïlah Accioly.
Quem assinou a produção das músicas foi Thiago Rebello, até então, no universo de Letrux, conhecido por acompanhá-la nos palcos. “Ele é uma das pessoas mais elegantes que eu conheço. Sempre foi um baixista chique, notas precisas e elevadas, uma coisa finíssima”, diz. “É bom trabalhar com quem a gente admira e tem intimidade. A gente já tem entrosamento, fraterno e musical, então fluiu de uma maneira bem prazerosa – ouçam o disco solo dele, Teve Momentos (2022), é sensacional.”
Junto com Rebello, Letrux ouviu sua curiosidade e especulou outros sons. “Há uma gente bitolada que acha que eu deveria fazer um [Letrux em Noite de] Climão 2 ou um disco só com músicas como “Flerte Revival”, mas assim: não sou essa pessoa”, defende.
“Música não é futebol, sabe? Não tem que ter gol ou ganhar ou mostrar resultado.
“A frase ‘em time que se tá ganhando não se mexe’ serve para um esporte. Música não é esporte. Arte é outra coisa.”
Conheça SadSexySillySongs faixa a faixa:
“Sad, Sexy, Silly”
Sempre quis brincar de compor com a Jadsa. Amo os discos, a cabeça, acho que temos brisas parecidas: sou intrigada com a mente dela e o jeito de fluir musicalmente. Fiquei feliz quando ela se animou em fazer uma música mais “zégzy” comigo. Foi astral nossa troca. Ela também curte brisar entre inglês e português, ela é bem cadelinha da música, como eu. A música manda na gente e a gente obedece.
“Ciúme Me Dá Frio”
Talvez tenha sido em 2005 ou 2006. Vi uma ópera no Teatro Municipal. Foi minha primeira ópera. Cheia de cenas de ciúmes e tudo muito encalorado, tudo muito quente. E eu mesma estava vivendo uma cena de ciúme na minha vida, mas eu morria de frio.
Nunca fiquei quente por ciúme. Pelo contrário, morro de frio. Quero casaco, meias e luvas. Vai entender.
Não sabendo contar pra Beltrano da época sobre minha sensação, fiz essa música. Recentemente toquei essa canção em alguns shows que fiz de voz e violão, e as pessoas tinham uma resposta curiosa à ela. Claro, ciúme, tema universal e atemporal. Então, pensei que poderia ser curioso finalmente gravar essa música.
“It’s Like Kurt Cobain Sings”
Ano passado, ouvi muito a música “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”, do Nirvana. A frase “I miss the comfort in being sad” grudou na minha cabeça de tal forma que quis citá-la em alguma canção minha. Em altos papos com o músico e compositor Thiago Borges, de Floripa, a gente chegou à conclusão que somos pessoas solares que amam ouvir música triste. E resolvemos fazer uma chanson triste. Ele me mandou algumas composições no violão, eu gostei dessa que tinha um corinho de “uhhhh uhhhh”. E saí falando sobre tristeza.
Fiquei realmente impressionada com os irlandeses. Eles não dizem “eu estou triste”, mas sim “a tristeza está comigo”. Achei isso maravilhoso porque não está entranhada, só está comigo por agora, por esse momento, no tempo dessa música, por exemplo. E claro que sendo uma música triste, ela ganhou essa cara blues.
“Essa Cidade é Complicada”
Em outubro de 2020, fiz uma série de hai-kais. Um deles era “essa cidade é complicada porque foi ali aquele beijo”. Guardei e nunca mais mexi. Quando a ideia do disco surgiu, pensei “vou chamar a Mahmundi pra brincar comigo!”. Marcela foi o primeiro nome que pensei para produzir o [Letrux em Noite de] Climão, mas como também cantora (não só produtora), ela estava trilhando o caminho dela e deixamos para brincar depois.
O depois chegou e eu desenvolvi mais a letra da tal cidade. Ela me mandou um violão tesudinho, um clima “delis” no ar. Marcela é criativa, iluminada, figura e parceirona de loucuras cariocas. Encontrar com ela é sempre um milhão de papos sobre a cena, sobre o mundo, amo muitão.
“Ornamentais”
Esta nasceu numa noite fria de agosto de 2013: Thiago Vivas, Luiz Felipe Reis e eu brincando com o violão, palavras e melodias. Acho que eu tinha acabado de ver alguns saltos ornamentais e fiquei impressionada com a serenidade de tais atletas em movimentos tão UAU. O fascínio por aquário também sempre existiu, mesmo que junto com a pena dos peixes. Eu estava apaixonada, e por mais que isso seja vendido como algo bom, estava passando mal hahaha! Como escreveu [Gabriel] García Márquez n’O Amor nos Tempos do Cólera: “os sintomas da paixão são os mesmos do cólera”. Li, concordei e nunca esqueci. Meu sonho é que a [Maria] Bethânia gravasse essa música! Hahahaha! Sonhar não custa nada.
“Caligrafia Tarada”
Nasceu de uma homenagem abrasileirada a uma música da PJ Harvey que eu amo, que chama “The Letter”. Ela fala sobre papel, caneta, escrever, a curva da letra G. Mas a dela é mais metafórica. Sou bem mais literal, risos. Fico chocada com quem não sabe mais como é a própria letra. Acho uma loucura isso. Chamei o maravilhoso Bruno Capinan pra brincar comigo nessa. No show “20 Anos Alternativa”, a gente cantava uma dele que eu amo, “Vicente”. Deu vontade de brincar junto com, e fiquei feliz com a animação dele em compor uma chanson tesuda. A produção bolerística que o [Thiago] Rebello trouxe para ela ficou bem foda, como todo o resto do disco, mas essa tem um calorzinho especial. Voltem a escrever e ouçam essa.
“I Wrote This When I Was 22”
Com 22 anos, ela se chamava “Fuck If”, mas me pareceu uma boa ideia renomear para “I Wrote This When I Was 22”. Acho divertido ter objetos já datados nessa letra “I was listening that CD” ou “give me back my DVDs”. Acho que eu tinha acabado de ver aquele filme “Antes do Pôr do Sol”. E teve uma cena que me impressionou. Tava Ethan Hawke lá, querendo saber mais sobre os 9 anos que eles não se viram, coisa e tal, querendo saber dos amores que ela viveu. E eis que Julie Delpy solta algo como “quando você é novo, você acha que vai se conectar com um monte de gente, mas mais tarde na vida, você percebe que só se conecta com poucos”.
Não que isso seja A Verdade, mas bateu legal para feitura do refrão. Eu era muito nova, mas já emocionada e dramática, coitada. Com a minha primeira banda, Letícios, a gente cantava essa, eu adorava esse momento. Foi curioso ver a produção do Rebello pra algo feito há 22 anos. Ele trouxe rebuscamento e uma suavidade que eu precisava pra entoar essas frases. Tenho semi-vergonha do final “fuck you, fuck me”, mas eu tinha 22 aninhos e toda uma revoltinha dentro de mim. Ainda tenho, mas há mais harmonia também, felizmente.
“By My Side, In My House”
Depois dos dois singles lançados ano passado com a banda Nouvella, percebi que a gente tinha afinidade musical para brincar de compor. Daí que um dia, Yasmin [Zoran], maravilhosa, vocalista da banda, me mandou uma música. Era ela tocando violão e cantando essa, me contou: “fiz em 2017, eu amo, mas acho que ela é muito curtinha”. Me convidou para criar mais. Ouvi e fiquei assim: impactada. Bateu forte. Em cima da melodia dela, criei a letra da segunda parte e o finalzinho “thunder thunder thunder…”. Foi uma criação coletiva num dia de chuva e piano com Gabriel Viegas e Yasmin. Essa música me emociona, acho de uma beleza tremenda.
“Nessa Data Querida”
Depois de um show do Alfabeto Sonoro em Floripa, recebi uma mensagem inspirada do querido e talentoso Theo Machado com um esboço musical lindo. Começamos a trocar mensagens, ideias. Em algum momento ele falou de bolo, e claro que eu pensei em aniversário. Ali, começamos a confabular uma música que falasse sobre um “parabéns pra você”. Theo e eu não gostamos do parabéns, foi nossa forma de lidar com isso.
Tem gente que ama cantar parabéns, eu acho que tem uma melancolia doida naquela melodia.
O parabéns dos EUA é repetitivo e sem palmas, acho mais estranho ainda. Aqui pelo menos a gente inventou um ritmo e deseja muitos anos de vida. Não sei, só sei que é estranho fazer aniversário. Lindo, bonito, mas também triste e dramático.
Amei fazer essa com Theo. Amei os violões que Rebello gravou e o assovio melódico do Lucas Vasconcellos no final é de chorar. Feliz aniversário para todo mundo, todo dia é dia de alguém.
“Life is Too Something”
Eu andava numa semana meio “nhé” da vida. Achando tudo meio sem graça, sem sal. Eis que nessa hora perigosa do tédio e da suposta falta de inspiração, essas letra e melodia foram vindo. A primeira melodia veio mais quadrada, depois pensei em vozes mais “sensuellens” e a coisa foi se encaixando.
Minhas avós nonagenárias falam muito que a vida passa rápido. Eu acredito, pois já sinto.
A parte falada tomei o “ladies and gentlemen, and others” de um discurso do genial David Bowie, para lembrar que a vida não é binária. Me assusto muito com gente que só acredita em biologia. Há sempre “others”. Outras, variações, flutuações, diversidades. A vida é rápida, mas ela é enorme dentro dessa velocidade. Liberdade para geral. Nada é detalhe, entendo. Nem seu útero, nem seu cérebro, nem seu coração. O cérebro, gente! Que mistério. Que fundo do mar. Enfim, essa música fala sobre desejo. Sim, “fire walks with me” é David Lynch, Rebello e eu somos fãs. Curiosamente, ontem parei de anotar meus sonhos diariamente. Comecei na pandemia (anotava antes também, mas só os que se destacavam), mas a prática diária tem me enlouquecido. Amo sonhar mas vou parar de anotar, tá tudo aqui sempre. Beijo, Lynch.
“We Never Know”
Há mais de década inventei essa valsa, a qual chamei de “Dinâmicas de Solidão”. Na minha limitação do instrumento, ficava encantada como minha cabeça conseguiu operar essa troca de acordes e invenções, risos. Nada de mais para uns, muita coisa pra mim. Mas não gostava mais da letra, do que era, não era mais aquilo a vida. Sabia que Leïlah Accioly, amiga criadora de mundos e palavras, teria alguma poesia na manga, e eis que mandei a valsinha para ela, e ela me voltou com esse texto profundo. Até tentei criar melodia, mas não era o caso.
Imersa em Laurie Anderson, senti que a beleza seria declamar. “Send me the wrong one”. Me manda o errado. Adoro erros, equívocos, tenho um pouco pânico de gente que caça apenas vitória, gente que tem trilha sonora dos campeões (detesto esse tipo de música inclusive, sabe esse som? Filme ruim dos EUA e aí alguém vai ganhar, e entra uma música muito essa trilha, de-tes-to!). O erro como lugar livre. Me manda o erro, acho fortíssimo começar uma música, uma vinheta assim. Todas as frases são lindas, mas o final é “cataploft” pra mim.
“Over My Dead Body”
Outubro de 2020, pandemia. Arthur Braganti e eu numa jam session doida. Como o assunto diário era morte, ficou difícil escapar do tema. A gente começou a pirar em cima de gente que ama mais a gente depois que a gente morre. A improvisação ia para outros lados, umas frases loucas hahaha, outro dia reouvi e ri. “Quem sabe um dia boto pra jogo?”. Mas Arthur Braganti e Rebello produzindo essa faixa, a coisa ficou mais complexa. Arthur é Rebus e Rebello é Cado hahaha! Adoro os backings vocals do Arthur também, traz todo um charme. Me pareceu certo terminar o disco com essa porque apesar de ser um disco mais silencioso e minimalista, queria terminar com um grito. Ao gravar, também lembrei de Diamanda Galás, que Arthur e eu amamos, com a misteriosa “There Are No More Tickets to The Funeral”.
Chegamos ao fim do “blablasofar” sobre cada canção. Isso é apenas uma ponta de iceberg, o resto quem descobre é você, querid ouvinte. Sinta-se livre para se sentir livre.















