
Em uma das leituras da lenda de Caronte, o pedágio para atravessar o rio que conecta o mundo dos vivos e dos mortos teria forma de moedas mágicas. “Quando alguém morre, você coloca uma moeda dentro da boca da pessoa para ela pagar o barqueiro", explica o artista paulista Stephan Doitschinoff sobre o mito grego.
Há mais de 20 anos, ele pesquisa mitologias relacionadas à espiritualidade para aplicar em sua prática multidisciplinar. Especificamente a numismática fantástica chegou ao seu repertório faz cerca de oito anos, então em paralelo a outros projetos, desenvolve uma série dedicada ao tema composta por desenhos, pinturas, esculturas, objetos e instalações.
“Comecei a pensar como essa metáfora pode ser uma alusão interessante aos rituais psicodélicos e xamânicos, onde você cruza o rio que divide o mundo físico para outras dimensões. As moedas mágicas funcionam como tokens para atravessar realidades e fazer visitas, que podem ser, dependo da compreensão de cada pessoa, uma visita ao seu próprio inconsciente.”
Os estudos dedicados a essas medalhas repletas de significados voltaram após a pandemia. Não à toa, no momento em que recebeu o convite para criar a capa de Rosa, o artista conectou as figuras presentes nas letras das músicas ao universo da numismática.
“As moedas são feitas de diversos materiais e substâncias. O disco tem passagens que fazem sentido dentro dessa série, há citações como o âmbar embaixo da terra ou o cristal no rochedo", aponta. Antes de chegar ao resultado final, ele desenhou diversas versões à mão, incluindo a tipografia.
A colaboração com Samuel Rosa veio no tempo certo, pois ele havia voltado de uma residência no Instituto de Arte Contemporânea de Ouro Preto. “Queria me aprofundar na região, sempre me interessei por arte sacra, e também buscava entender a questão dos minérios, a parte física de tudo que aconteceu em relação à mineração", divide sobre o período em Minas Gerais.
Ainda que mantenha o estúdio em São Paulo, Stephan realiza viagens e imersões em diferentes lugares do Brasil e do mundo. No final de 2024, participou de uma mostra coletiva em Londres, organizada pela ONG In Place of War em parceria com Brian Eno. A empreitada juntou seis artistas visuais e seis músicos, que colaboraram para criar obras conjuntas.

A numismática entra em cena na proposta elaborada a quatro mãos com Laima Leyton. Além da dupla, participaram Ed O’Brien, do Radiohead, e Liam Howlett, do Prodigy. Ainda que use diferentes linguagens, Stephan cultiva um forte elo musical. No projeto Cvlto do Fvtvrv, por exemplo, reuniu Igor Cavalera e Daniel Hunt, do Ladytron.
“Sempre circulei no meio musical. Já quis ser músico, mas as coisas fluíram naturalmente para as artes visuais", reflete. Antes de ter trabalhos comissionados para instituições internacionais, na virada do século, o pintor fez capas de discos para grupos como Againe e Dominatrix.
Posteriormente, colaborou com Sepultura, Buraka Som Sistema, Yamandu Costa e Cavalera Conspiracy. “No começo, eu não vendia muitos originais. O meu primeiro trabalho comercial foi para o Saves The Day, foi muito importante para mim na época porque eles encomendaram dez pinturas", lembra.
Como um bom nerd de música, ele organiza as descobertas em playlists, que se renovam semanalmente. Da última leva, cita trabalhos de Emmanuel Brun, Sholto e Yoshiaki Ochi. “Pesquiso muitos artistas, crio lista de músicas, escuto muito todas elas, mas também me canso rápido. Busco coisas novas, não recém-lançadas, mas que são inéditas para mim.”
*Esta matéria foi publicada originalmente na Revista Noize #155 que acompanha o vinil "Rosa", de Samuel Rosa, lançado pelo Noize Record Club em 2024.











