
Aos 76 anos, Djavan segue se reinventando. Dono de uma discografia que moldou a MPB-pop em hits como “Oceano”, “Lilás”, “Sina” e “Samurai”, ele agora lança Improviso, em formato digital e vinil. No novo trabalho, o alagoano reafirma sua vocação para o experimento sonoro, indo do jazz à bossa nova. Ao longo das composições, investiga diferentes formas de amor — tema que atravessa sua trajetória — e assina tudo, das composições à produção e aos arranjos. É um trabalho que olha adiante, guiado por uma inquietação artística que não diminui com o tempo.
Todas as faixas são inéditas, com exceção de "O Vento", parceria com Ronaldo Bastos, que Gal Costa cantou no disco Lua de Mel Como o Diabo Gosta (1987). Já "Pra Sempre" tem uma história curiosa: foi composta para Michael Jackson nos anos 1980, a pedido de ninguém menos que Quincy Jones. Mas Djavan titubeou, não levou tão a sério o convite e perdeu o timing para o envio. Tudo bem, pois hoje temos o privilégio de conhecê-la em um arranjo banhado no soul, em sintonia com as demais canções do disco.
Mostrando que continua olhando para o mundo como um cronista do nosso tempo, Djavan também encontra espaço para refletir sobre os amores de hoje — caso de “Falta Ralar!”, inspirada na disparidade que ele observa nos relacionamentos entre meninas e meninos (sendo essas muito mais maduras), percepção que nasceu observando as novas gerações. Para completar, o artista segue conciliando novos projetos com a celebração da própria trajetória na turnê de 50 anos, Djavanear, que começa em maio de 2026 [veja datas abaixo].
Em videochamada direto de seu estúdio, o artista comentou o processo por trás do novo trabalho, revisitou parcerias marcantes, falou de suas capas de discos icônicas e refletiu sobre a responsabilidade de se manter relevante em um país onde a música se transforma rápido demais.
Primeiro, é um prazer falar contigo! Vamos começar falando da sua nova faixa “Um Brinde”: nela, o senhor canta que “ir atrás do amor é um jazz”. Interpreto como o sentimento de se deixar levar sem saber exatamente pra onde a coisa vai. Como essa relação entre jazz e amor aparece na sua vida? Isso dialoga de alguma forma com o título do disco, Improviso?
O jazz é um gênero com o qual eu tenho relação há muito tempo, desde meus 15 anos, por aí. Desde menino eu sempre gostei de jazz, sempre gostei da música negra americana. E o improviso está muito ligado ao jazz, né? Mas o improviso também está ligado à própria vida. Então, essa ideia vem daí.
Fazer um disco 50 anos depois, só com música inédita, isso é um tremendo improviso, entendeu? Eu gosto muito da palavra. É uma palavra que, em tese, denota algo sem organização, meio dúbia. E no meu trabalho, a organização é primordial. Se não tiver organização, ele não acontece. Então chamar isso de improviso é uma coisa meio diferente, né? Eu gosto disso.
O senhor geralmente compõe sozinho. Mas fiquei pensando especialmente na música “O Vento”, com o Ronaldo Bastos, que entrou neste disco em homenagem à Gal Costa, primeira intérprete dessa canção. Teve também a parceria com o Milton Nascimento [em "Beleza destruída", que integra o álbum D, de 2022]. Queria entender como é dividir a caneta e a melodia com outros parceiros, e como são feitas essas escolhas.
A parceria foi se transformando ao longo do tempo, na forma mesmo. Eu tive poucos parceiros, porque eu sempre trabalhei sozinho. Achava que a parceria mais comum, mais natural, fosse aquela que envolve amizade, convivência… Mas não. A parceria pode surgir de várias maneiras.
O importante é que haja parceria, porque eu acho que, de modo geral, ela é muito positiva. Mas, a vida inteira, eu fiz sozinho, né? Tocar, fazer a canção, fazer a letra… sempre foi algo que fiz muito sozinho. Sempre gostei disso, porque é um trabalho em que você exercita duas funções muito importantes: a música e a letra.
E continua assim. Os parceiros que tive foram todos maravilhosos, e todas as minhas parcerias renderam belas canções, canções que ficaram na história. Eu agradeço a Deus e aos parceiros por isso. Mas eu sempre gostei de fazer sozinho.
Demais! E, aproveitando o ensejo, recentemente nós elencamos nossas capas favoritas dos seus discos. Tarefa difícil [risos]. Queria saber como costuma se envolver na escolha dessas capas e se tem alguma favorita.
Eu sempre me envolvi muito com as capas, tenho algumas capas que são muito amadas por muita gente. E eu também gosto delas, de todas... Dá muito trabalho, mas é prazeroso.
Lembro de uma que foi especialmente trabalhosa... a de Vesúvio (2018). Porque tive que me pintar todo, e aquilo foi terrível [risos], um trabalho enorme, de horas e horas. E pra aquela tinta sair depois… olha, era preciso um mês de banho, entendeu? [risos] Muito difícil. Mas o resultado ficou ótimo.
Quando a gente pega um disco e vê a capa em vinil, no tamanho que ela deveria ter, tem um valor maior, né? Hoje, com as plataformas de streaming, a capa fica pequenininha... Então queria te ouvir sobre isso também: como é a sua relação com o vinil.
O vinil é essencial! Também achei muito ruim ter desaparecido o CD. O LP, graças a Deus, está voltando agora — num volume menor, mas está voltando de alguma maneira. Porque é lindo você pegar, manusear, ver as informações… quem tocou o quê, quem fez o quê, quem produziu...
Ele tem uma sonoridade que o digital não tem. O digital acabou colocando o vinil em segundo plano, e eu acho isso um erro. É um som mais vivo, mais… ele carrega essa coisa do analógico que é imprescindível pro som do vinil. Eu gosto muito.
Se dependesse de mim, eu traria o vinil de volta com a mesma força que ele já teve um dia. Hoje tudo é diferente, os equipamentos são outros, não dá pra ser assim. Mas só o fato de a gente trazer o vinil de novo, mesmo que numa quantidade de colecionador, já me alegra muito.
Eu recebo os meus vinis atuais com uma alegria enorme. Pego, olho, manuseio… é muito bom.

E agora, falando numa nova geração da música brasileira... fico pensando em quando o senhor usou o “Caetanear” [em "Sina"] para falar de Caetano Veloso, essa brincadeira de conjugar o nome de um artista. Vemos que essa forma de homenagem foi adotada por outros músicos. A Júlia Mestre, por exemplo, lançou "Marinou, Limou", referenciando Marina Lima. Então, além dessa apropriação carinhosa de transformar o nome em verbo, muitos artistas atuais também te citam como referência. Saiu até um EP este ano chamado Canto Djavan, com Jota.pê, Melly, Jonathan Ferr...
Sim! Tem muita coisa linda ali...
Como é receber essas homenagens de uma nova geração?
Eu acho tudo isso uma maravilha e me deixa muito feliz. Porque saber que você é buscado por todas as gerações, né? Que é o que acontece… isso dá uma alegria muito grande. E me dita uma certeza: você está no caminho certo, sempre esteve no caminho certo. Isso é uma coisa muito boa.
E eu gosto muito dessa geração com quem a gente convive agora — músicos, cantores, compositores. Eles fazem o que têm que fazer e buscam as referências que consideram importantes. E eu estou, em boa parte deles, como referência. Isso é uma alegria que só me ratifica o quanto o que eu estou fazendo está no lugar.
Falando agora da sua turnê de 50 anos de carreira: quais são as suas expectativas para levar esse show aos palcos? Imagino que vai emocionar muita gente...
Sim, esse show… a gente quer levar a arte pro palco, né? Quer levar artistas, fotografias, pinturas. Porque é algo que eu amo e com o que eu vivo em conexão o tempo todo: a dança, a pintura, a música, evidentemente.
É um show que vai reunir só sucessos, 50 anos de carreira. Muito certo que as pessoas vão lá pra ouvir o que elas querem ouvir. E vai ser lindo. Acho que vai ser um show memorável — pra mim, pelo menos — porque vou estar ratificando uma carreira tão longa e que me deu tantas alegrias até hoje.
Pra fechar: já que Improviso fala muito de amor, queria saber qual o espaço que o amor tem em sua vida. Qual é sua percepção, hoje, sobre esse sentimento?
Olha, o amor nunca vai poder ser visto de modo diferente do que ele realmente é. O amor representa o princípio de tudo. Acho que a gente precisa dele pra caminhar, pra avançar, porque é um sentimento que une as pessoas.
E eu não falo só do amor entre homem e mulher. Falo do amor na família, entre pais e filhos, entre amigos, entre companheiros de profissão. Tudo isso faz com que o amor continue representando o que ele realmente é: um elo de ligação fortíssimo entre as pessoas. Eu espero que isso continue.
Tour Djavanear 2026
Ingressos via Ticketmaster
09 de maio – Allianz Parque (São Paulo)
23 de maio – Casa de Apostas Arena Fonte Nova (Salvador)
30 de maio – Centro de Formação Olímpica - CFO (Fortaleza)
13 de junho – Pedreira Paulo Leminski (Curitiba)
27 de junho – Arena BRB Mané Garrincha (Brasília)
18 de julho – Arena MRV (Belo Horizonte)
01 e 02 de agosto – Farmasi Arena (Rio de Janeiro)
29 de agosto – Arena Opus (Florianópolis)
24 de outubro – Hangar (Belém)
31 de outubro – Classic Hall (Recife)
05 de dezembro – Maceió (local a ser divulgado em breve)















