
Após 16 anos de sua primeira mixtape, Emicida decidiu que era hora de (mais uma vez) celebrar quem lhe deu régua e compasso para chegar ao panteão do rap. Emicida Racional Vol.2 Mesmas Cores e Mesmos Valores (2025) é uma releitura da obra quase homônima dos Racionais, e a turnê do projeto — que já nasceu clássico — estreou na última quinta-feira (30) em São Paulo, marcando o retorno de Leandro aos palcos após quase dois anos.
Para compensar esse hiato, Emicida entregou três horas de show em quase 40 músicas, nas quais transitou entre o peso de sua caneta afiada, a dor de quem há pouco perdeu a mãe e a leveza do Amor Divino, mostrando por que é o rapper que mais se aproxima de Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay quando o assunto é impacto na música brasileira.
Mas esse não foi (só) um show de hip hop. Acompanhado por uma banda completa, Emicida extrapola as fronteiras do gênero e põe um pé na canção, em um espetáculo teatral que confere ainda mais força às letras de sua palavra cantada.
Os cinco atos dessa peça foram inaugurados por diferentes vídeos nos quais atores e atrizes interpretam textos que trazem um dilema em comum: o desejo (ou a pressão) de vencer. No primeiro deles, um motorista de aplicativo reflete energicamente sobre a sua rotina: “Eu não paro! Eu não consigo parar!”, praticamente resumindo o ímpeto criativo daquele que estava prestes a subir ao palco.
Rimas e hits em cinco atos
“Essa É Pra Você Primo”, homenagem ao DJ que faleceu em 2008, abriu o repertório e antecipou o tom do primeiro ato, focado na tragédia de quem não está mais aqui. Nas cinco vidas interrompidas em “Ismália”, no sofrimento e o choro a sós de “Hoje Cedo”.
Tudo isso permeado pela postura da rua para além da pose do Instagram, como versa “Mesmas Cores & Mesmos Valores”, a primeira do disco Emicida Racional VL2 a integrar o setlist. E, por falar em racional, o ato foi encerrado com um trecho de “Capítulo 4, Versículo 3”, introduzido com o hino da beleza negra “Olhos Coloridos”, composto por Macau e eternizado na voz de Sandra Sá.
O Ato II abriu com “AmarElo”, levando esperança para onde havia angústia. Nessa hora, as cerca de 8 mil pessoas presentes no Espaço Unimed se soltaram, jogando os dois braços para cima e tirando os pés do chão ao som do célebre refrão de Belchior.
Com o público devidamente aquecido, foi a hora começar a soltar a caneta com a insana sequência de rimas proparoxítonas de “Finado Neguim Memo?”. Em “Eminência Parda”, a mesma caneta faz o mundo gritar “não para”, relembrando a agonia do vídeo de abertura do show e a potência criativa de um artista sem fronteiras.
“A Chapa é Quente” tirou todo mundo do chão mais uma vez, abrindo caminho para os primeiros convidados especiais: Rashid e Projota, que cantaram “A Mema Praça”. A aparição surpresa de Edi Rock emendou em “A Praça”, faixa-base para a releitura do tumulto que marcou a apresentação dos Racionais na Virada Cultural de 2007.
Rashid e Projota ainda ficaram para “Nova Ordem”, celebrando os “Três Temores” que herdaram a herança de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, consolidando uma nova fase do rap nacional no início dos anos 2010.
Em um breve respiro, Emicida dialogou com o público, enfatizando a saudade que estava do palco, antes de voltar “tipo Pantera Negra”, como canta o refrão da faixa homônima. O Ato III começou com o beat de “Vida Loka, Pt. I”, que serviu de base para “Papel, Caneta e Coração”, de 2013, uma das faixas mais celebradas pelos fãs. Logo depois, foi a hora do anfitrião da noite ser homenageado com o jovem rapper Jotapê cantando “Leandro Roque”, faixa que leva o nome de Emicida.

Legado
A estrela ali é ele, mas, assim como um jornalista nunca pode ser a notícia, o cronista urbano evita se colocar no centro da narrativa, expressando sua própria genialidade a partir da exaltação de seus pares — sejam os Racionais, DJ Primo, Black Alien, Parteum e tantos outros citados nominalmente ao longo do show.
Mas, ao notar que se tornou para a geração posterior a referência que Mano Brown foi para a sua, Emicida se emocionou e por pouco não derramou lágrimas enquanto Jotapê cantava que “a rua é noiz”.
Afinal, viver é partir, voltar e repartir, e Deus é todo mundo sorrindo ao mesmo tempo. O momento marcou um ponto de virada no show, que entrou em uma fase espiritual com “É Tudo Pra Ontem”, “Principia”, “Paisagem” e “São Pixinguinha”. Saiu o MC homicida e entrou o Emicida apaixonado – pela vida.
A emoção aflorou de vez no Ato IV, quando Emicida desaguou em pranto ao cantar “Mãe”, escrita para Dona Jacira, que faleceu em junho do ano passado. O telão exibia “Tupananchiskama”, expressão do idioma dos incas que, em vez de “adeus”, significa "até nos encontrarmos novamente".
Secadas as lágrimas, antes de encerrar o ato com “Vida Loka, Pt. 2”, “Ooorra” veio para exaltar ainda mais a importância de sua mãe, com versos que revivem a dor de ter crescido sem pai. A frequência voltou a subir com “Quanto Vale o Show Memo?”, que inaugurou o quinto e último ato. “Ela Partiu”, de Tim Maia, antecipou um trecho de “Homem na Estrada”, mais uma dos Racionais, que emendou em “Levanta e Anda”.
A sintonia e a devoção do público pairava pelo ar desde o início da apresentação, e nesse momento, Emicida desceu do palco para sentir a energia mais de perto. Encostado na grade, de mãos dadas com os fãs, cantou “A Ordem Natural das Coisas”, alternando os versos com sorrisos, abraços e um passeio por toda a extensão da área de segurança que separa o palco da plateia.
O show já passava de 2h30 de duração quando o comandante do espetáculo brincou: “Já acabou o Fantástico?”, relembrando a live pandêmica que o fez perder a noção do tempo e acabou se estendendo por mais de 8h. “Vamos o máximo que der, até eles colocar nois pra fora!”, completou.
Ainda havia tempo para mais convidados: a dupla Prettos, que já havia marcado presença no DVD 10 Anos de Triunfo (2018), quando participou de “Hino Vira-Lata”. Desta vez, o hino escolhido foi outro: “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”, com direito a um trecho do clássico samba “A Amizade”. Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira seguiram no palco para a derradeira “Us Memo Preto Zica”, cujo clipe foi gravado em uma edição do Quintal dos Prettos, roda de samba fundada pelos irmãos.
O show foi encerrado com Emicida recitando uma poesia que exalta a ciclicidade da vida: “começo, meio e começo”, traduzindo a trajetória de uma lenda viva do rap que entre hiatos, versos sanguinários e odes ao amor, sempre encontra um novo início, como quem se nega a chegar ao fim.
A tour de Emicida ainda segue para Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Vila Velha (ES), no festival Movimento Cidade (15/8). Mais datas serão confirmadas no site oficial da Eventim.
Rio de Janeiro
Data: 16 de maio de 2026 (sábado)
Local: Vivo Rio – Avenida Infante Dom Henrique – Parque do Flamengo, Rio de Janeiro – RJ, Brasil
Curitiba
Data: 27 de junho de 2026 (sábado)
Local: Igloo Super Hall – Rua Dino Bertoldi – Tarumã, Curitiba – PR
Porto Alegre
Data: 4 de julho de 2026 (sábado)
Local: Auditório Araújo Vianna – Parque Farroupilha, 685 – Farroupilha, Porto Alegre – RS, 90035-191
Belo Horizonte
Data: 5 de setembro (sábado)
Local: BeFly Hall – Avenida Nossa Senhora do Carmo – Savassi, Belo Horizonte – MG
Setores e preços:
Front – R$ 117,50 (Meia-entrada legal) | R$ 235,00 (inteira)
Cadeira Ouro – R$ 127,50 (Meia-entrada legal) | R$ 255,00 (inteira)
Cadeira Prata – R$ 92,50 (Meia-entrada legal) | R$ 185,00 (inteira)












