
Músicas inspiradas pelo improviso do jazz, com toques de pífano, que passam pelo glitch, noise e outros efeitos eletrônicos, sempre permeadas pela percussão brasileira. É difícil definir a sonoridade de Clau Aniz — seria um pós-rock? Jazz contemporâneo? — e é bem isso que torna o trabalho da artista interessante. Após a estreia, Filha de mil mulheres (2018), na bagagem, Clau Anis lançou Mácula (2026) em julho deste ano. O segundo disco conta com produção da própria artista com Yuri Costa. As 10 faixas transitam por bases eletrônicas, texturas de sopro e gravações em rolo de fita, desafiando padrões atuais de gravação.
Suas influências passam pelo samba-canção, pelas coletâneas Perfil dos anos 90 (quem lembra?) e por nomes tão experimentais quanto ela, como Negro Leo, que foi tutor do Laboratório de Criação em Música da Escola Porto Iracema das Artes, que ela participou entre 2023 e 2024. "Essa experiência foi bem importante pra gente. Negro Leo foi nosso tutor. Mácula ganhou contornos neste encontro”, diz a artista.
Neste trabalho, a cearense vem acompanhada pela banda formada por Tuan Fernandes (bateria, percussão), Yuri Costa (baixo, sintetizadores, samples, beats), Clarisse Aires (flauta transversal) e 131EL (saxofone), e participações de Ayla Lemos, Loreta Dialla, Maguim do Pife, Felipe Couto, Zeca Kalu e Vitor Cozilos.
Confira Mácula faixa a faixa:
"palavra": é a abertura do álbum e a última música que construímos para ele. Como numa colagem de todo o processo de gravação, são pequenos fragmentos de sessões de improviso e elementos das músicas seguintes. Ela foi criada a partir do banco de sons que fomos construindo ao longo da gravação do disco. Após a gravação de cada instrumento, fazíamos uma pequena sessão de improviso livre e gravávamos para samplear e usar depois; além de outros samples trazidos de outras músicas.
"ressaca": Nessa música, quis escrever algo entre um bolero e um samba-canção. Acho que tem uma influência inegável daqueles CDs de coletânea de capa lilás, especialmente os mais românticos. A primeira demo que gravei era um piano meio estranho e um tamborim, ambos em MIDI. A letra vinha cantada arrastada, um monte de reverb e muito espaço entre um acorde e outro. Quem primeiro ouviu essa demo e resolveu gravá-la foi a Mulher Barbada. Foi ela mesma quem deu nome à música, que até então era chamada de “bolero01” nos arquivos do meu celular, e a lançou como um single lindíssimo em 2020. Cantamos juntas algumas vezes e, com o tempo, “Ressaca” foi ganhando outras versões. Quando a trouxemos pro Mácula, a ideia era voltar à densidade daquela primeira demo e contrapô-la a um groove mais marcado, com um desenho de samples e glitches usando o nosso banco de sons.

"rubra pedra e cal": comecei a escrever essa música na pandemia, nessa época, andei escrevendo pequenos ensaios de ficção e relatos de sonhos por pura vontade de fugir da realidade. Essa primeira frase da música veio um pouco daí. E era só o que eu tinha além das sequências de acordes no violão. Ela ficou guardada por um tempo e um dia resolvi mostrá-la pra Zeca Kalu, grande amiga e vocalista da banda Procurando Kalu, no desejo de desenvolvermos essa história juntas. E foi muito naturalmente, em uma ou duas tardes, que “rubra pedra e cal” tomou corpo e outros rumos. Nossa versão começou um tanto mais seca, baixo, bateria e guitarra base, e depois é que foi ganhando outros elementos. Os pífanos, por exemplo, foram criados pelo Maguim do Pife, pifeiro lá do Piauí, com quem há tempos eu tinha a maior vontade de trabalhar. O riff de guitarra que aparece durante o texto final da música. Os sintetizadores eu gravei lá na Meruoca, durante uma folga ou outra do set do filme em que eu estava trabalhando na época.
"harsh": “harsh” eu compus inteira no computador com um fone e um mouse, usando o piano roll do Ableton e VSTs de clarinete, flauta e saxofone. Essa faixa surgiu no desejo de criar uma trilha sonora pra um filme que não existe, um tema meio dramático e torto pra uma cena lenta, mas cheia de conflito e algum mistério. Depois, eu e Yuri fomos adaptando as melodias criadas em midi para serem executadas por nós: eu no clarinete, Clarisse Aires na flauta transversal e 131EL no saxofone.
"e olhar de longe as brasas que dançam na superfície": essa é uma música de um amor emaranhado e perdido no não dito. É relativamente curta, com uma estrutura simples, mas que no papel, quando era "só” poema, era imensa. Quando eu estava escrevendo, os versos “havia palavras nas mãos e nos olhos, havia palavras no chão e nos gestos…” se estendiam em muitas outras frases nessa mesma estrutura. Nesses espaços dos silêncios é que entram as texturas dos sopros e da guitarra gravada no gravador de rolo. Os ruídos e os pequenos atrasos na linha de guitarra gerados pelo desgaste da fita quase me dão uma sensação de vertigem, mas acabaram fazendo todo sentido com o que diz o primeiro verso da música.
"minha casa ardendo em mim": compus essa música junto de Ayla Lemos, uma grande amiga e compositora absurda aqui de Fortaleza. Lembro de chegar com os acordes do verso, algumas pequenas partes da letra, e muito rapidamente ver surgir tantas outras camadas daquela música que era ainda um rabisco. Nós tocamos essa música em muitas ocasiões, quase sempre na formação violão, guitarra e flauta; outras tantas vezes somavam-se mais elementos à essa instrumentação. Quando começamos a trabalhá-la dentro do "mácula”, tínhamos o desejo de trazer elementos eletrônicos e quebras que fizessem sentido com essa raiz cancioneira. O Yuri estava muito mergulhado na pesquisa dos micro-sampleamentos e trouxe pra música aquele desenho sonoro com vários samples. O improviso de flauta da Clarisse Aires permeando os silêncios, os glitchs e os vocalizes na segunda parte são, pra mim, uma continuação dessa história que criamos. Essa e “mácula” foram as primeiras músicas que gravamos para o álbum, e acho que elas guiaram muitas das decisões técnicas que nós tomamos para o resto das faixas.
"mácula": ela começou com essa sequência rítmica de acordes na guitarra; e só um ou dois anos depois é que fui para o computador bolar os sintetizadores e clarinetas. Foi uma música que tocamos milhares de vezes durante o período do laboratório da Porto Iracema com o Negro Léo. Ela se desenvolve nessas repetições, entre as camadas aparecendo, se complexificando e sumindo, quase como uma sequência de cenas. Acho que a estrutura dela vem muito da minha parceria com a Loreta Dialla, que na época do laboratório estava colaborando como diretora do concerto homônimo, que montamos em 2024, antes de começar a gravar o álbum. Gosto especialmente das linhas de voz em línguas inventadas, feitas pela Loreta e pelo Tuan, desembocando na única frase inteligível da música, ali no meio.
"iuá uru": lancei a primeira versão dessa música lá em 2019, num single duplo, “iuá uru / uru iuá”, com banda cheia, percussão, piano, sopros e cordas. Gosto muito daquele universo ali, da estrutura, dos arranjos, dos timbres, etc. Acho que justamente por isso não quis tentar reproduzi-la nesta mesma estrutura. Durante os encontros com o Negro Léo, começamos a tocá-la dentro de um improviso livre, mantendo só a linha de voz, por puro costume de fazer zuada, e ela acabou se mantendo assim. Foi a única faixa do disco gravada toda ao vivo, justo para conservar essas dinâmicas que só acontecem dentro do improviso livre.
"uru iuá": uma das minhas pouquíssimas composições criadas no piano, uma música curta, simples, mas um tanto densa. No single de 2019, ela foi interpretada no piano por Ayrton Pessoa Bob e, de lá pra cá, virou trilha sonora de filme e de espetáculo de dança. Nesse mesmo desejo de encontrar outras maneiras de tocá-la, propus trazer algo mais pesado e agressivo. Testei a melodia principal na guitarra, no clarinete, no sintetizador, e por fim acabei fazendo na voz, arriscando aqueles agudos e usando o kaospad para modular e criar algo como grãos de sílabas. Gravei uma guitarra base só com os bordões e um monte de fuzz, depois chamei o Vitor Cozilos para adicionar mais algumas guitarras e ele criou mais umas 4 tracks interessantíssimas com vários detalhes que levaram a música pra outro lugar; e que conversaram muito com o arranjo de sopros interpretado pelo 131EL e pela Clarisse.
"oco": essa é a última faixa do álbum, mas a entendo mais como uma reprise ou um epílogo. Talvez o álbum termine ali em “uru iuá”, e “oco” é o que sobrou ecoando depois das 9 músicas anteriores. Essa música eu compus em um projeto com Mariah Duarte e Amrita Jones, elas duas em seus pianos e eu na clarineta. Quis trazê-la para o mácula executada nesse synth junto com alguns samples que gravei de rolos de fita comprados num sebo.




