Entrevista | Livia Nery busca estranhas melodias em disco de estreia

07/06/2019

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Bruno Barros

Por: Bruno Barros

Fotos: Douglas Hanauer

07/06/2019

Estranha Melodia está entregue (ouça abaixo). O primeiro disco da compositora, cantora e produtora baiana Livia Nery, nasce como o fruto de uma busca de muito anos e da coragem de mudar os rumos de sua vida.


Capa Estranha Melodia (Foto e direção de arte por Caroline Bittencourt)

Jornalista de formação, a artista largou um emprego na rádio pública de Salvador para se dedicar à composição musical. Naturalmente, os movimentos de sua carreira artística foram lhe rendendo participações e colaborações de destaque, como na residência artística musical Red Bull Music Pulso e no projeto Super Violão Mashup, em 2016 e 2017 respectivamente, e no EP Vulcanidades (2017), produzido em parceria com Rafa Dias, do ÀTØØXXÁ.

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No ano passado, Livia montou base em São Paulo onde se uniu a Curumin para estabelecer a produção do trabalho. “Eu tô lá e cá. Sempre indo pra Salvador, mas com contrato de aluguel aqui [em SP] desde agosto do ano passado. Eu já tinha vindo antes para conversar com Curumin e apresentar o projeto para Red Bull, então quando vi que o projeto iria rolar, eu vim”, conta Livia.

“A Livia é uma artista de primeiro disco, mas que já chega muito madura. Acho que ela demorou um pouco pra lançar esse trabalho, então ela chegou com bastante músicas e ideias. O trabalho de produção tem um pouco de você tentar transformar aquilo que tá na cabeça da artista em vida real. No caso dela, já estava muito tranquilo e o processo foi muito fluido. Era mesmo conduzir porque ela já estava no caminho certo”, contou à Noize o músico e produtor Curumin.

O músico e produtor fala com a Noize na Casa de Francisca

Sobre o convite da artista para produção do album, ele lembra que conheceu a baiana em um workshop que ministrou em Salvador. “Ela era uma das pessoas que estavam muito interessadas, querendo entender e conhecer tudo. Ela é muito amiga do Russo [Passapusso], que também é muito meu amigo, então esse vínculo depois ficou mais estreito. Quando ela veio pra São Paulo, foi um caminho natural. Ela falou: ‘oh, vamos fazer?’. Eu falei: ‘sim, tô dentro. Gosto do trabalho, acredito, vamos nessa. Quero fazer’”, disse o produtor.

A artista explica que a união com Curumin na concepção dos arranjos e criação de texturas e atmosferas foi um elemento que lhe deu bastante segurança para desenvolver o álbum. Ao lado da dupla, Aline Falcão e João Paulo Deogracias estão na busca da estranha melodia, tendo gravado a maior parte do álbum com eles. Mas também participam do disco Edgar Scandurra, Lucas Martins, Edy Trombone, Maurício Badé, Tatiana Lirio, Johanna Gaschler, Marcelo Galter, Israel Lima e Jorge Solovera.

Ao longo das 13 faixas, Estranha Melodia apresenta 12 composições de Livia, sendo duas em parceria – “Quem se Imaginou”, com Ricardo Santana e “Pra trabalhar” ao lado de Tatiana Lírio e Johanna Gaschler – além de uma releitura de “Vinte Léguas”, de Evinha e Marizinha, do albúm Eva (1974).

Disponibilizado nesta sexta-feira, 7/6 nas plataformas digitais, o disco de estreia de Livia é também a primeira edição fonográfica do coletivo BaianaSystem, que solta o álbum através do selo próprio Máquina de Louco. Ouça abaixo Estranha Melodia:

Abaixo, você confere passagens de uma conversa que tivemos com a artista no Red Bull Station. Um dos berços de Estranha de Melodia, o centro cultural abriga o Red Bull Music Studio São Paulo, onde o disco foi gravado. Às vésperas do fechamento do financiamento coletivo feito para esse disco, Livia estava confiante, tranquila e segura. Falou sobre a construção do trabalho e de como chegou até ali. Leia:

Como foi a idealização do trabalho? Você já havia trabalhado com Curumin?

Eu nunca tinha trabalhado com o Curumin antes, mas já o conhecia, pois ele ia muito a Salvador. A primeira vez que o vi foi em um workshop que ele deu lá em Salvador sobre sampler, em 2009. E depois, em 2017, o Russo fez um show do Paraíso da Miragem na Concha Acústica em Salvador e eu fiz backin vocal nesse show. Daí eu conheci a banda toda mais de perto e Curumin também.

Como é primeiro disco, normalmente você traz um bauzinho de coisas. São músicas do meu processo de criação de vida, compostas na Bahia em momentos diferentes, que fui mostrando pra Curumin a medida que ia achando  que elas estavam prontas. Eu fui indo da mais pronta para as menos prontas, no meu entender. Aí a gente ia trabalhando uma a uma. O Curumin já tinha escutado uma prévia antes e já tinha uma ideia de como começar. A gente não sabia bem o que seria o fio comum dessas músicas. Mas algumas coisas foram aparecendo e depois a gente costurou isso. Entendo que a unidade desse trabalho se define em uma busca, de experimentar coisas.


Fale mais sobre essa busca…

A gente foi construindo umas texturas e isso é uma gastação boa que o Curumin gosta de fazer e eu também, então juntou a fome com a vontade de comer. Usávamos uns teclados de Curumin e um sintetizador meu pra tirar som e criar atmosferas. É um disco que parece tá num lugar no espaço também, bem difícil pra mim conceituar.

Também, esse disco é o resultado de uma busca pessoal, na mudança de vida e de profissão, pra trabalhar com música. Eu sou jornalista de formação, então começar a fazer música foi um lance que eu comecei a compor em 2007, em pleno exercício do jornalismo. Eu trabalhava na Rádio Educadora da Bahia, que é uma rádio pública em Salvador, e eu fiz uma transição porque eu queria fazer música, então a busca começou aí.

Em 2013 eu estava escrevendo mais, chegava do trabalho e ficava altas horas trabalhando nisso, então chegou o momento que eu pensei assim ‘pô bicho, eu quero fazer isso com mais seriedade, eu quero colocar um show na rua’, então pedi demissão do trabalho. Para me manter, no início prestei assessoria para uma massoterapeuta, o que foi bom, pois era um novo universo, de muito autoconhecimento. Nessa época, fiz um detox grande e passei a me alimentar diferente. A essa altura eu já tinha música composta, feito cursos de áudio, me equipado e já tinha um estúdio caseiro. Com a ajuda do que eu aprendi editando programas na rádio, passei a fazer de fato minhas próprias músicas em casa. Eu tocava piano de pequena, o que me ajudou a compor junto com instrumentos virtuais, produções eletrônicas então passei a produzir. Nessa altura eu também já tinha conhecido Curumin. Claro que nunca passou pela minha cabeça que eu iria trabalhar com ele. Mas eu pensava: “Eu vou entrar no mundo da música e um dia eu vou conversar com esse cara, sobre música, sendo uma pessoa que faz música”. E isso aconteceu comigo, então é busca mesmo.

Como você diria que é a cara de Estranha Melodia?

Esse disco tem o retrato de muitos lugares. Ele tem Salvador, que é litoral. Tem um retrato do interior da Bahia, que é de onde os meus pais vêm, da zona rural. Eu fui muito pra zona rural pra ver minha família, meus avós. E tem São Paulo. Não posso dizer que ele é a cara de Salvador, pois Curumin é paulistano, meteu a mão e o disco é a cara de um produtor paulistano também. Acaba que fica um retrato disso.

Também, pela participação de Edgar Scandurra…

Sim, a participação de Edgar é resultado de eu estar fazendo o disco aqui. Foi Curuma que sugeriu: “Lívia, por que não coloca uma guitarra nessa música?”. Esse disco não tem guitarras, ele é todo baseado em teclas e beats. Porque eu não toco cordas. Naturalmente, por eu compor no piano ou no teclado, o disco foi ficando com uma cara de teclas, e Curuma gostou desta proposta. A gente seguiu nisso, assumimos que o disco seria de teclas, e em uma música tem a guitarra de Edgar. Ao mesmo tempo, ele me contou uma história massa. Ele gravou “Ave Sal”, que é uma música sobre o mar. Eu falei pra ele: “Pô Edgar, você tão paulistano, da cidade e a gente te chamou pra gravar uma música sobre o mar”. E aí ele falou pra mim: “É, mas eu morei em Recife um tempo e eu gostava muito de ir pra praia. Adorava o mar”. E eu falei: “Taí Edgar. Sabia que tinha algum elo pra você estar tocando nessa música que a gente ainda não tinha descoberto”.

Sobre fazer um trabalho independente e contar logo no primeiro disco com o financiamento coletivo. Achei valente de sua parte.

Pois é um tempo de política cultural respirando a base de aparelhos. Se é que já não morreu. Tá estranho, difícil e escasso. A gente fez porque era uma saída possível. Eu via na minha rede uma força que poderia chegar junto. E que chegou. A nossa meta foi audaciosa para o lugar em que eu estou agora, de primeiro disco. Afinal, tem uma política cultural que está morrendo asfixiada, tem o crowdfunding e tem mais o quê? Pra ser sincera, pra agora a gente não achou muita saída, não. Poderíamos bancar o disco com shows futuros, fazer um caixa e ir pagando. Mas entendo que a música é sempre uma roda do reinvestimento, então não dá pra comprometer um caixa futuro com a parada. E é resistência mesmo.

Quanto ao nome: Estranha Melodia?

É sobre estar em Salvador e ter o entendimento de ser um pouco estranha na sua própria terra. Então você vai pra outra cidade, onde você também é um pouco estranha. É meio estranho no ninho por um lado. Foi uma das músicas que depois saltou aos olhos porque esse nome é bem representativo. Também, pois esse disco é muito baseado em melodia. É um disco de canção brasileira, bem brasileirão, de canção, amparada na força da melodia. Estranha porque é isso. Tem estranheza nas cadências, nas melodias. Estranheza no fato de eu me sentir estranha no meu lugar de origem e no lugar onde eu estou agora. A zona não é de conforto. É um êxodo.


Estranha Melodia tem show de lançamento marcado em Salvador no próximo dia 18, na Sala Coro do Teatro Castro Alves. Siga a artista no Facebook e Instagram para saber das novas datas.

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07/06/2019

Em formação, Bruno pesquisa produção de conteúdo e cultural. Colabora pontualmente com a NOIZE (s.brunobarros@gmail.com)
Bruno Barros

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