
A amizade entre FBC e Mac Júlia se confunde com a história recente do rap mineiro. Eles se conheceram no lendário Duelo de MC’s, que acontecia debaixo do viaduto Santa Tereza, na região central de Belo Horizonte — o mesmo viaduto que, décadas antes, servia de pico para Carlos Drummond de Andrade e seus amigos escalarem os arcos da construção no que ficou chamado como "alpinismo urbano". Esse mesmo Duelo revelou nomes como Djonga, Douglas Din e Orochi. Emicida, que hoje é o título do mês no NRC com Emicida Racional V.2, também já colou por lá.
Com o tempo, a amizade entre Fabrício e Júlia se estreitou, criando laços profissionais. Ele a convidou para ser seu feat no hit “Se Ta Solteira”, de O Baile (2021), de FBC e Vhoor. “A gente sempre sente quando a música tem algo especial. Ela tem uma energia muito forte, né? De pista, de identificação. E eu fico muito feliz de ver até onde ela chegou”, conta Mac Júlia.
Agora, em 2026, foi a vez de Mac Júlia chamar FBC para assinar a direção artística de seu novo disco, Segue o Baile, com produção do também mineiro Pepito. FBC ainda fez feats no single que abre o álbum, “Para Não”, e em “Vai Querer”. Também somam ao projeto Pluglip, Link do Zapp, MC Morena, Vini Joe e Davi Horta.
Maghaiver assina com ela a balada “Amor de Açúcar”, que eleva todo o potencial pop do canto de Mac Julia. Faz lembrar hits de Tati Quebra Barraco, Perlla e Anitta no longínquo tempo em que ela assinava como MC Anitta. Já Amabbi dá a liga perfeita com Mac Júlia na poderosíssima “Tropa da Onça”. Todas as faixas, vale dizer, contam com videoclipes.
Conexão Miami > Minas
Uma das coisas que unem O Baile, Segue o Baile e outras produções basilares do funk mineiro, como União Rap Funk, é a influência do miami bass Belo Horizonte tem um funk próprio, mais lentinho, que combina muito com a sonoridade vinda dos Estados Unidos no final dos anos 1980.
Enquanto o resto do Brasil estava se rendendo ao pancadão, os bailes da capital mineira seguiram tocando miami bass. "BH tem uma relação antiga com o miami,, muito impulsionada por espaços como a quadra da Vilarinho, que foram fundamentais para a difusão dessa sonoridade", conta FBC. Hoje, a capital mineira exporta um funk calcado nos bpms desacelerados, como os MTGs e o funk sombrio e "barroco" do DJ Anderson do Paraíso.
Segue o baile
No fim, é até injusto pincelar as melhores faixas do novo trabalho de Mac Júlia. Segue o Baile é como uma coletânea de hits, remetendo ao conceito de mixtape popularizado pelo próprio estilo musical. Segue a unidade sonora do miami, mas não deixa a peteca cair em nenhuma faixa. É um passo largo na carreira de Júlia, que saiu de Betim, região metropolitana de Minas Gerais, participou do Duelo, lançou a viral "Sofá, Breja e Netflix", e com quatro discos na bagagem, hoje é um dos talentos assinados pela Boogie Naipe, de Mano Brown.
Para entender um pouco do processo de criação do disco, batemos um papo com Mac Júlia e FBC para mergulhar no conceito do álbum, na amizade dos dois e na relação deles com o beat lentinho feito na capital mineira. Chega mais:
Mac, como foi idealizar esse álbum calcado no miami? Quais eram suas referências musicais, de letra/flow e o que você tinha em mente enquanto o idealizava?
Esse álbum nasceu muito mais de um processo vivido. Segue O Baile virou um conceito quando eu percebi que, independentemente das fases, a vida não para. E eu também não. Minhas referências passam pelo miami bass, pelo funk de BH, mas também por vivências pessoais, pela minha trajetória como mulher, mãe, artista independente.
Eu queria um som que fosse para a pista, mas que também fosse de verdade. Então, temos referências dos anos 90, do funk do Rio de Janeiro, de obras como a coletânea de So So Death que reúne inúmeros clássicos de miami. Esse estilo começou em Miami e chegou no Brasil fazendo o que fez na época, influenciando, por exemplo, o Furacão 2000.
E você, FBC? O que vislumbrou para este álbum?
Desde o início, soube que precisávamos seguir a proposta do miami bass. Um dos nossos maiores hits é nessa pegada, e existe uma identidade ali que faz sentido continuar explorando.
Acredito que a gente pode criar coisas autênticas e importantes pra cidade dentro desse caminho, algo que dialogue com a história, mas que também leve BH pra frente.
Mac, como foi a escolha pelos feats, como Amabbi, Maghaiver, MC Morena...?
Os feats aconteceram muito naturalmente. O Fabrício fez essa direção, ficou bem na mão dele essa montagem dos feats. Cada participação tem uma identidade diferente, mas eu acredito que todas conversam com o universo do álbum.

Agora, uma pergunta para os dois: como vocês se conheceram e o que mais admiram no trabalho um do outro?
MAC: A gente se encontrou dentro da música, de forma natural, com respeito e admiração. Eu admiro muito o Fabrício e, com o tempo, eu me tornei amiga da família, da Michelle, que é a esposa dele. Ele é um artista absurdo, que pensa na música além do som, tem um conceito muito foda, então, eu acredito que ele também se conecta com a minha verdade, com a forma que eu venho construindo a minha identidade no funk. É bem legal a nossa conexão.
FBC: A gente se conheceu no corre do hip hop, no Duelo de MCs e nos espaços onde a cultura realmente acontece. Desde então, foi natural criar uma conexão. O que mais admiro na Mac é a sagacidade dela, não só na escrita, mas na postura. Mesmo morando longe, ela está sempre presente, colando, se mantendo ativa dentro do sistema do hip hop. Isso mostra compromisso real com a cultura.
Qual a conexão de BH com o miami bass e qual a particularidade do flow mineiro em relação a outros lugares e outros beats?
MAC: BH sempre teve um jeito muito próprio de fazer funk. O Miami Bass conversa muito com isso porque é grave, é repetitivo, é de pista. E o mineiro tem um swing malemolente, mais conversado, mais cantado. Nosso flow não é corridão, a nossa música é mais hipnotizante, envolvente. Então essa conexão é quase natural.
FBC: BH tem uma relação antiga com o miami bass. Isso vem desde a chegada mais massiva do hip hop no começo dos anos 80, muito impulsionada por espaços como a quadra da Vilarinho, que foram fundamentais para a difusão dessa sonoridade. O que diferencia o flow mineiro é a combinação de boas rimas com uma musicalidade própria. Tem uma melodia diferente, um jeito de encaixar as palavras que é muito nosso, menos óbvio, mais swingado.
Quais lugares de BH vocês mais gostam de curtir?
MAC: BH é muito ampla e respira cultura. Eu amo comer, então adoro sair para almoçar, jantar, conhecer restaurantes. E também gosto muito de lugares onde tem música, que frequentei durante muito tempo, desde os bailes até os eventos maiores, com estrutura e sem discriminação.
A rua, pra mim, sempre foi um espaço de criação. Então, qualquer lugar onde tem troca real, energia, música boa, me conecta. Eu frequentei muito o viaduto Santa Tereza, as batalhas, que na época eram de sexta-feira, réu, os pichadores. Isso tudo fez parte da minha história.
E também o bar 2blackbeer que fica também debaixo do viaduto, na parte onde acontece a batalha clandestina, onde fica a galera do skate e tal. Pra mim é importante citar ele aqui porque fez muita parte da minha construção artística nessa temporada debaixo do Viaduto.
E tem as mascates. que são bares onde acontecem diversos eventos durante a semana. Na quarta-feira tem karaokê, na sexta-feira acontece o Baile da Uffé, que foi onde aconteceu a nossa audição do álbum essa última sexta-feira. Então, a Mascate é um bar da Xeque-Mate, tem uma comida deliciosa, almoço... vale a pena conferir.
FBC: Sinceramente? Minha casa. É onde a energia acontece de verdade, onde a gente cria, troca ideia e mantém tudo vivo.




