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Guitarrada paraense: como a lambada deu origem a um gênero amazônico


Por:

Fabricio Araújo Araújo

Fotos: Victoria Leona

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A guitarrada, lambada tocada na guitarra elétrica, existe em Belém como a chuva no final das tardes, como as mangueiras nas calçadas, ela é animada, dançante e democrática. “Aqui no Norte, a guitarra toca lambada/ E lambada na guitarra é guitarrada”, dizem os versos de "A Gente Chama de Lambada", música do produtor musical Félix Robatto, presente no álbum Belemgue Banger (2016). 

Embalado pelos acordes desta música, chego para entrevistar Manoel Cordeiro, um dos mestres da guitarrada. A despeito do brilhantismo e da gigantesca contribuição para a cultura paraense, ele me recebe com muita humildade e disposição em compartilhar comigo seu conhecimento e vivências no mundo da música desde os 12 anos de idade. 

O artista comenta também a participação no álbum O Mundo Dá Voltas, até seu mais recente trabalho, intitulado Te Dou Um Norte (2026). Falando como nortista apaixonado pelo som regional, quando o dedilhado no violão aparece em “Palheiro”, parceria com a banda baiana, é como se o Seu Manoel carregasse um pouco (ou um muito) dos nossos bailes, da nossa regionalidade, que ainda precisa quebrar barreiras para ser difundida pelo país. 

Pra quem está mais abaixo no mapa, pode parecer mais um enfeite, um recurso em razão da criatividade, e irreverência, da banda, que convidou um mestre para se juntar à música, que aliás é curta e muito potente, tal qual uma cuia de tacacá ao sol da tarde. Mas engana-se quem for por tal caminho. 

A identidade sonora de Seu Manoel carrega o baile, a lambada, a beira do rio, o carimbó, o brega paraense, uma convergência cultural que em vários sentidos dá um norte. A respeito do BaianaSystem, o músico paraense fala com admiração: “acho legal o BaianaSystem porque vai para além do entretenimento. Os caras têm um entendimento, uma provocação, uma postura política e inteligente. E isso faz diferença. Quando você defende uma ideia coberta por um argumento cultural, você tem mais chance”. 

De fato, é como se a presença de Manoel ali tivesse o intuito de instigar a conhecer mais, aprender mais e apreciar, o que o Norte tem a oferecer. O nortista, de uma maneira geral, é uma criatura orgulhosa de suas origens e cultura; há uma vontade grande de mostrar pra quem quiser ver o que temos de melhor. E temos essa vontade porque, na mesma medida, temos a certeza de que o que é feito aqui pode conquistar o mundo. E que música é essa, tão paraense e tão mundial, que parece cantar mesmo quando ninguém abre a boca?

A resposta começa na guitarra elétrica. Mas não em qualquer guitarra. A guitarrada é uma música instrumental paraense, em que a guitarra conduz a melodia e ocupa o espaço que, em outros gêneros, seria da voz. Ao mesmo tempo, quando observamos o paraense dançando uma lambada na guitarra, vemos que, além dela, outros ritmos balançam o corpo:  o merengue, a cúmbia, o bolero, o brega. O Pará é uma miscelânea cultural que constitui uma identidade única, abundante, ao mesmo tempo que pitoresca.

Manoel Cordeiro explica isso sem transformar a coisa em tese. “A gente ouvia as rádios do Caribe, que tocavam mambo, rumba e boleros”, conta. “Quando a gente ia tocar, misturava. Uma das principais características da música da Amazônia, do Pará, é a sua capacidade de fusão". Dessa mistura, surgiu a lambada e depois a guitarrada: “uma expressão legítima do nosso povo”.

O nome incontornável dessa história é Mestre Vieira. Nascido como Joaquim de Lima Vieira, em Barcarena, ele é tratado como o seu criador. Antes da guitarra, o músico tocou bandolim, banjo, cavaquinho e violão. Quando levou esse repertório para a guitarra elétrica, abriu uma estrada. O disco Lambadas das Quebradas – Vol.1 (1978), costuma ser apontado como marco fundador.

Mas a história nunca é tão simples quanto uma certidão de nascimento. Bruno Rabelo, guitarrista do Cravo Carbono, um dos organizadores do Clube da Guitarrada e pesquisador musical, lembra que o que hoje reconhecemos como guitarrada nem sempre se chamava assim. 

“A guitarrada, nos anos 1990, ainda era lambada”, explica. Segundo Bruno, o termo já circulava popularmente, mas ganhou força quando Pio Lobato, em seu estudo pioneiro Guitarrada: um gênero do Pará (2001), ajudou a reorganizar essa memória e a afirmar aquilo como gênero.

É aí que entram os Mestres da Guitarrada. O projeto, criado nos anos 2000, reuniu Vieira, Aldo Sena e Mestre Curica, três figuras fundamentais para a consolidação dessa linguagem. Depois, outros nomes também entram nessa constelação: Mestre Solano, Oséas da Guitarra, Magalhães, Barata e Manoel Cordeiro.

Manoel, aliás, tem uma relação particular com a guitarrada. Ele não é apenas um guitarrista virtuoso. É produtor, arranjador, compositor, alguém que ajudou a dar forma a centenas de discos feitos na Amazônia. Ele começou a tocar em bandas de baile e passou um período como concursado pelo Banco do Brasil. Logo que saiu do banco, voltou para a música, montou equipe de gravação e produziu uma quantidade impressionante de trabalhos. “Produzi quase mil discos”, diz. Em outra passagem, lembra que só em uma fase da gravação em Belém foram quase 500 discos, muitos deles ligados à guitarrada.

Por isso, quando Manoel fala do BaianaSystem, o assunto não é apenas participação especial. É encontro de territórios. “Pará e Bahia são dois estados potentíssimos em estilos musicais e cultura. E quanto mais a gente se junta, mais potencializa resultados legais”, afirma. 

A ponte Pará-Bahia faz sentido porque a guitarrada nunca foi uma música fechada em si mesma. Ela nasceu ouvindo o mundo. Nasceu de rádios caribenhas, de bailes populares, de guitarras elétricas, de músicos autodidatas, de estúdios locais e de uma Belém que sempre misturou o que vinha de fora com o que já pulsava aqui dentro. A diferença é que, por muito tempo, o Brasil demorou a olhar para isso. 

Bruno Rabelo chama a música nortista de “a última fronteira” da descoberta musical brasileira. Não porque ela fosse nova, mas porque o país demorou a escutar. Enquanto os grandes centros organizavam a narrativa oficial da música brasileira, o Pará criava suas próprias modernidades: carimbó elétrico, brega, lambada, tecnobrega, guitarrada. Tudo isso circulava em bailes, aparelhagens, rádios, fitas, CDs e festas populares antes de virar assunto de festival, documentário ou playlist.

É nesse contexto que o Clube da Guitarrada aparece como um dos espaços mais importantes da cena atual. Criado em 2017, a partir de uma ideia de Félix Robatto, o projeto nasceu com uma pergunta simples: se existe Clube do Choro e Clube do Samba, por que não reunir a turma da guitarrada? Desde então, os encontros mensais no Apoena se tornaram uma espécie de templo informal do gênero.

Bruno está desde a primeira reunião. Ele conta que o Clube já teve 85 encontros, sempre com uma lógica aberta, horizontal e coletiva. Não é um show tradicional, com palco distante e plateia comportada. Quem sabe tocar, entra. Quem sabe uma música, toca uma música. Quem ainda não sabe, observa, aprende, volta. “É um espaço aberto”, diz Bruno. “As pessoas vão entrando no palco, quem quiser tocar pode tocar.” Para ele, o Clube funciona como “uma espécie de educação informal”, ainda que tudo aconteça de forma espontânea.

Manoel Cordeiro concorda. Para ele, o Clube é “uma das coisas mais inteligentes dos últimos tempos”, porque mantém a referência viva. “Você chega para ouvir os meninos tocando Vieira, Aldo Sena, e eles, quando se aproximam da sonoridade, se aproximam da forma de tocar, nos realimentam”, diz. A frase é bonita porque inverte a lógica comum da tradição. Não são apenas os mais novos que aprendem com os mestres. Os mestres também se realimentam quando veem a música seguir adiante.

Participação feminina

Essa continuidade, no entanto, não acontece sem mudanças importantes, que visam à pluralidade do gênero  musical. Uma das transformações mais visíveis está na presença das mulheres. Layse, baterista e cantora, chegou ao Clube tímida e lembra que era a única mulher naquele momento. Hoje, com outras frequentadoras, ela comemora que esse espaço já não é mais o mesmo.

Sua fala traz para a guitarrada uma camada que muitas vezes fica fora das matérias sobre mestres e guitarristas. Layse conta que foi desenvolvendo o tocar bateria e ritmos paraenses convivendo com os mestres. Aldo Sena, Curica, Solano, Manoel Cordeiro: cada um, de algum modo, indicava o tempo, o balanço, a intenção. “Eles têm a marcação do tempo tudo no pé”, diz. “Lidar com eles é realmente um grande aprendizado.”

Mas Layse também fala do peso de ocupar um lugar historicamente masculino. Para ela, mulheres em instrumentos “masculinizados” precisam sustentar olhares, atravessar intimidações e seguir tocando. A frase que fica é direta: “A gente não tem que tocar igual homem, a gente tem que tocar igual a gente". 

Talvez seja por isso que o Clube da Guitarrada pareça menos um projeto de nostalgia e mais uma máquina de continuidade. Ele preserva Vieira, Aldo, Curica e Solano, mas também abre caminho para jovens, para mulheres instrumentistas, para novas composições, EPs, documentários, clipes e discos que ainda virão.

A guitarrada ensina uma coisa que a música brasileira ainda precisa aprender melhor: a Amazônia é centro criativo. Afinal, não é porque a música é instrumental que ela não tem voz, muito pelo contrário. Manoel Cordeiro costuma dizer que a música feita na Amazônia tem força para ser considerada uma das mais importantes do mundo. Pode soar grandioso para quem ainda não ouviu com atenção. Mas basta prestar atenção na guitarra elétrica tocando lambada. Ela nos indica isto há décadas.

A guitarrada não parou. Ela saiu dos bailes, atravessou estúdios, foi nomeada, redescoberta, documentada, tocada por novas gerações e vem reaparecendo em novos cenários, conquistando cada vez mais admiradores. Mas talvez a palavra “reaparecendo” nem seja justa. Para quem é do Pará, ela nunca desapareceu. Estava e continua estando ali: nas festas, nos bares, nos discos de família, nos palcos pequenos, nas guitarras que cantam sem pedir licença e vão conquistando seu espaço no mundo todo.

Por:

Fabricio Araújo Araújo

Fotos: Victoria Leona

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