Luiz Melodia

Luiz Melodia: Toninho Vaz desvendou as histórias de cada faixa de “Pérola Negra”; relembre


Por:

Toninho Vaz

Fotos: Divulgação

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Poucas pessoas conhecem os mistérios de Luiz Melodia tão bem quanto Toninho Vaz conhecia. O jornalista e roteirista foi o responsável por escrever, entre outras biografias, Meu nome é ébano: a vida e a Obra de Luiz Melodia, publicado em 2020 pela editora Tordesilhas. Em memória do escritor, que faleceu em abril deste ano, publicamos o faixa a faixa escrito por ele especialmente para a edição 107 da Revista Noize, dedicada a um dos maiores clássicos da carreira do cantor e compositor carioca.

Lado A 

1. "Estácio, Eu e Você"

A primeira faixa do álbum Pérola Negra traz a música “Estácio, Eu e Você”, que acabaria se transformando num clássico do Luiz Melodia. Mas essa letra foi apresentada em primeira mão na coluna do poeta Torquato Neto, que é considerado um dos descobridores do Melodia. O outro é o poeta Waly Salomão. O Torquato apresentou a letra da música com exclusividade antes mesmo de o disco sair e chegar às lojas. E é aquela letra que diz assim: “Vamos passear na praça / Enquanto o lobo não vem / Enquanto sou de ninguém / Enquanto quero te ver”. 

2. "Vale Quanto Pesa"

“Vale Quanto Pesa” foi feita para uma, digamos, amiga ou namorada do Luiz Melodia, depende do ponto de vista, nos anos idos dos anos 60, começo dos anos 70. Essa moça chama-se Deda e era uma argentina, uma filha de cônsul, uma coisa assim. Ela andou circulando pelo Rio de Janeiro, mas desapareceu completamente da vida deles. Ela era amiga também do Renato Piau. Em “Vale Quanto Pesa”, ele diz: “Quanto você ganha pra me enganar / Quanto você paga pra me ver sofrer”. Poesia pura, ácida, de Luiz Melodia.

3. "Estácio Holly Estácio"

A terceira faixa do álbum traz um clássico de Luiz Melodia, “Estácio Holly Estácio”, que já tinha sido gravado anteriormente pela Maria Bethânia. Fez muito sucesso com a Bethânia, quando o Melodia gravou já era um caminho pavimentado para o ouvido dos ouvintes que apreciam a obra do menino do “Estácio Holly Estácio”. “Se alguém quer matar-me de amor”...

4. "Pra Aquietar"

É mais uma daquelas músicas oblíquas do Luiz Melodia, que fica meio estranho, mas no final acaba fazendo sentido. Mas você repare que estamos falando de um álbum em que todas as letras e todas as músicas são do Luiz Melodia, sem parceria. O que só ia acontecer depois do segundo álbum. “Pra Aquietar, pra aquietar”.

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5. "Abundantemente Morte"

A faixa 5 do álbum Pérola Negra é mais uma música oblíqua do Luiz Melodia. “Abundantemente Morte” foi feito para negar a morte, esse fenômeno natural, poeticamente. O Melodia fez alguma coisa do tipo. “Sou peroba / Sou a febre / Quem sou eu / Sou um morto que viveu”. Ele tinha essas quedas por umas letras que você não encontra facilidade pra entender. Mas a melodia ajuda muito no final. 

Lado B 

1. "Pérola Negra" 

“Pérola Negra” é um grande sucesso de Luiz Melodia, que dá nome ao disco e que foi primeiramente gravado por Gal Costa. Também sucesso na voz de Gal Costa, foi uma coisa que embalou a própria carreira da Gal. Então, o Melodia chega com uma gravação personalíssima dele, do autor. “Pérola Negra” é um clássico. 

2. "Magrelinha"

“Magrelinha” é também um grande sucesso do Melodia. É mais uma música em que ele se refere à mesma namoradinha ou amiga, que vinha a ser uma argentina, a Deda. Essa música também se refere a esse período, ele fez naqueles dias em que ele curtia com a Deda e o Renato Piau aqui no Rio de Janeiro. É um clássico do Luiz Melodia, aliás veja como tem clássicos esse tal de Melodia. “O pôr do sol / Vai renovar, brilhar de novo o seu sorriso / E libertar / Da areia preta e do arco-íris cor de sangue / Cor de sangue / Cor de sangue”.

3. "Farrapo Humano"

Essa música tem um histórico conturbado porque ela foi inicialmente vetada pela censura. Depois, com mudança na letra e recursos jurídicos, a música acabou sendo liberada. A letra original dizia mais ou menos assim: “Tocando seu corpo /  Castigo, não vivo contigo / Sou sano, sou franco / Enquanto eu não calo eu não brigo / Eu choro tanto / Escondo e não digo / Viro farrapo, tento suicídio  / Com caco de telha / Com caco de vidro”. Mais uma música, essa é a terceira da trilogia, que foi dedicada a Deda, a argentina misteriosa. 

4 "Objeto H" 

A penúltima faixa do disco Pérola Negra tem, como todas as outras, letra e melodia de Luiz Melodia, ou seja, é super autoral. E é uma música que compõe bem, fecha bem o disco, não fez aquele sucesso estrondoso que nem as clássicas, mas compõe bem o trabalho autoral de Luiz. “Um dia volto e digo você não foi comigo porque não leu o meu signo”... 

5. "Forró de Janeiro"

É a faixa que conclui essa obra do Luiz Melodia. É uma música longa,  com uma letra longa como um forró, então é preciso que você tenha mesmo essa leitura de forró pelo forró. “É veneno, suor e poeira, e a morte a flutuar, e ecoou lá do canto de lá, o forró pode continuar”.

Esta matéria foi publicada originalmente na Revista Noize que acompanhava o vinil de "Pérola Negra" (1973), lançado pelo Noize Record Club em 2020.

Por:

Toninho Vaz

Fotos: Divulgação

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