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Após 20 anos, Ludovic lança novo disco e reflete sobre sobreviver no underground


Por:

Guilherme Espir

Fotos: Tauana Sofia/Divulgação

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Pessoalmente, fiz o caminho contrário da grande maioria dos fãs do Ludovic: primeiro conheci a carreira solo do Jair Naves. Lembro de ficar bastante impressionado com a caneta do vocalista e zerei sua discografia solo fulminantemente. E aí, eu ouvi o Ludovic. Depois disso, tudo fez sentido.

Servil (2004) e Idioma Morto (2006) viraram ícones do underground. Caso contrário, o grupo não retornaria mais de 20 após o segundo e último disco de estúdio para ser aclamado novamente por seu fiel público.

Este terceiro disco chama-se simplesmente Ludovic (2026), foi lançado em agosto pela Balaclava Records, foi mixado e masterizado por Fernando Sanches no Estúdio El Rocha. Eles se preparam para apresentá-lo ao vivo para os fãs no dia 26 de setembro, no Balaclava Fest.

Composta por Rodrigo Montorso na bateria (que já acompanhava a banda nos shows comemorativos de retorno), Jair Naves (baixo e voz), Eduardo Praça (guitarra) e Zeek Underwood (guitarra), essa formação do Ludovic trouxe novas paletas para o som do grupo. 

Produzido entre 2025 e 2026, esse novo dsico contou com certa experimentação sonora, diferente do approach-kamikaze dos primórdios. A composição é assinada de forma coletiva pelos integrantes, ao contrário dos discos anteriores, que contavam com a caneta solitária de Jair.

Passaram-se mais de 20 anos, mas os fãs mostram que tem muita gente fluente no Idioma Morto. Faz pouco tempo que o disco saiu, mas seu impacto foi imediato. Para aproveitar o embalo, destrinchamos Ludovic (2026) com a ajuda luxuosa de Jair Naves. Confira abaixo:

Lembro de uma declaração sua pra Amanda Cavalcanti na Vice, em que você dizia: “Não consigo colocar em palavras o quanto me emociona vocês não terem nos esquecido.” Várias passagens da faixa “Desde Que Eu Morri” me remeteram à permanência do Ludovic no imaginário de um público fiel, mesmo após duas décadas sem inéditas. A faixa me soa quase como um acerto de contas com a própria trajetória, uma forma de passar a vida a limpo. Faz sentido?

É uma leitura bem condizente com o que se passava na minha cabeça ao tentar escrever as primeiras canções de um novo disco do Ludovic. Sem dúvida alguma, eu lidei com a responsabilidade e o risco de adicionar um novo título a uma discografia tão estimada pelas pessoas. Não tinha percebido que essa sensação havia vazado para o conteúdo dos versos em si, mas não descarto essa interpretação.

“Desde que eu morri” é uma das letras mais corajosas e diretas que já escrevi. Abordo da forma mais franca questões sobre as quais não é fácil falar: problemas de saúde mental, questionamentos a respeito da vida, a dificuldade de se manter vivo em determinados momentos, a importância de valorizar as pequenas coisas do cotidiano (o trecho “a chuva leve me encoraja com um beijo”, por exemplo).

A princípio, a música se chamaria “Corre sob a pele”, fazendo referência a esses tormentos que nos habitam e que são de difícil compreensão, diagnóstico. Mas me parecia um título meio frio, distante, quase clínico. Hesitei muito em decidir por “Desde que eu morri”, tinha receio de que pudesse parecer sensacionalista ou expressivo demais. Fico feliz em notar que consegui me fazer compreender pelos ouvintes, com um título que oferece tantas interpretações possíveis.

O Ludovic sempre teve essa veia visceral como essência do próprio som — no instrumental, na interpretação e nas letras. Esses três pilares já estavam bem amarrados desde as primeiras gravações e continuam únicos hoje. Talvez a maior diferença esteja na forma como o público recebe esse trabalho. Como é continuar falando esse “idioma” por tantos anos e perceber que ele parece mais atual do que nunca?

Vejo esses elementos em todos os meus trabalhos, provavelmente só de forma diferente conforme eu fui avançando enquanto compositor e experimentando com outros formatos. Na minha maneira de escrever, essa busca por profundidade emocional, por algo que realmente me toque e traduza o que se passa dentro de mim, é parte fundamental do processo.

Percebi muito cedo que essa entrega realmente era o que atraía as pessoas que gostavam da gente. Mais do que qualquer aspecto musical ou imagético, a forma até inconsequentemente honesta de nos doarmos às canções certamente era a nossa característica mais única.

E esse aspecto atemporal vem muito daí, acredito. Permanece tendo apelo porque são questões universais, percursos no nosso crescimento e na nossa existência que são comuns a todos nós.

Em “Pedestal”, fiquei pensando em como vocês transformam vulnerabilidade em força. Como foi equilibrar a intensidade instrumental com as letras em fluxo de consciência do Jair?

Temos uma forma um tanto incomum de desenvolver as composições. Toda vez que colaboro com um novo músico ou produtor, noto o quanto meu método de trabalho é diferente do habitual.

Geralmente passamos um tempão lapidando os arranjos em conjunto — somente o instrumental, sem letra e muitas vezes até sem melodia de voz. Na minha mente, determino o espaço que o vocal ocupará, o que será estrofe, refrão, ponte, etc. Uma vez que definimos esse aspecto estrutural, gravamos as faixas para que eu possa escrever em cima do que está ali.

Não sei explicar exatamente por que gosto de compor dessa forma. É como se as bases instrumentais me transmitissem certas imagens, cores, dissessem quais sentimentos e temas são condizentes com aquela atmosfera musical.

No caso de “Pedestal”, percebi uma delicadeza, uma melancolia ao mesmo tempo acelerada e conformada. Algo compatível com o tema que eu queria abordar: o amor que fica depois que o amor acaba. O reconhecimento da importância de alguém nas nossas vidas coexistindo com a percepção de que precisamos nos afastar dessa pessoa. O que resta da paixão e do encantamento uma vez que removemos os elementos de idealização. Algo por aí.

Falando sobre a trajetória do Ludovic, vocês nunca foram uma banda de grandes números ou de sucesso imediato, mas, com o passar dos anos, os discos ganharam um status quase cult e continuaram encontrando novas gerações. Como vocês lidam com isso?

Eu vejo reações distintas entre nós com relação ao nosso desempenho comercial ao longo dos anos. Talvez para alguns de nós tenha sido frustrante nunca termos um retorno financeiro expressivo ou mesmo uma popularidade maior. Ou talvez eu tenha interpretado de forma errada. Nunca chegamos a conversar abertamente sobre isso.

Percebo que todos nós temos orgulho enorme do que conseguimos juntos, das pequenas vitórias que tivemos, mesmo do duro aprendizado com as decepções, crises de relacionamento e desgaste de convívio que levaram ao fim da banda.

Da minha parte, embora estivéssemos cercados de conhecidos que chegaram com suas bandas a patamares mais altos no mercado musical, eu realmente nunca esperei nada nesse sentido.

Se eu tivesse qualquer tipo de ambição comercial, certamente a banda soaria totalmente diferente - para começo de conversa, eu não me colocaria no posto de vocalista. Não escreveria o que escrevi, não nos portaríamos nos shows da forma como nos portamos.

Seria muita ingenuidade fazer tudo da forma que fizemos e esperar que nos tornássemos os artistas mais populares do país.

Para mim, estamos lidando com algo muito maior, mais sério, mais significativo. Essa questão de construir um legado, de deixar algo de verdadeiro e bonito, de incentivar as pessoas a se expressarem, seja artisticamente, politicamente ou num âmbito pessoal.

Pensei muito sobre a responsabilidade de suceder dois álbuns que marcaram tanta gente. Em algum momento do processo vocês sentiram o peso dessa expectativa ou conseguiram se blindar completamente das comparações e dessa pressão?

Eu acho que essa pressão, até mais interna do que externa, foi o que nos impediu durante anos de tentar escrever um novo álbum. Talvez tenha sido presente também nos estágios iniciais, quando estávamos lutando para criar as primeiras composições que julgássemos à altura do repertório antigo.

Uma vez que entramos em estúdio, isso desapareceu. Nós nos vimos fazendo músicas para nós mesmos, como sempre foi.

Não sei exatamente o que esperar de uma nova fase do Ludovic. Todos temos outros trabalhos, outros projetos que merecem a mesma atenção. A ideia é circular com esse álbum e, com sorte, tocar em lugar onde ainda não estivemos. Por enquanto, estamos felizes com o resultado e a recepção desse novo álbum. Isso já é mais que suficiente.

Por:

Guilherme Espir

Fotos: Tauana Sofia/Divulgação

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