
A fama da Savassi dispensa apresentações. Ainda hoje, diferentes turmas convivem lado a lado no bairro. Na pressa rotineira de quem trabalha nos escritórios da região e na serenidade dos hippies que vendem artesanato na praça. O vai-e-vem dos estudantes se mistura ao passo lento dos turistas. Entre uma esquina e outra, moradores passeiam como se o bairro fosse extensão de casa.
A diversidade fez dali um local emblemático em Belo Horizonte. Mas essa história não começou ontem. A região surgiu dentro do bairro Funcionários, planejado para abrigar os servidores públicos estaduais, que tinham a Praça da Liberdade como endereço de trabalho. Com o crescimento da população, os arredores ganharam vida própria.
Entre uma fornada e outra de pães quentinhos, o padeiro italiano Amilcare Savassi dificilmente imaginou o que aconteceria ali. Instalou-se na Praça Diogo de Vasconcelos na década de 1930, ele viu a Padaria Savassi tomar proporções muito maiores. Tempos depois, a inauguração do Cine Pathé, na Avenida Cristóvão Colombo, consolidou a aptidão cultural da região.
Entre 1960 e 1970, a vida urbana prosperou. Mas foi nos anos 1980 que o bairro se transformou no que boa parte dos frequentadores reconhece. Trechos das ruas Pernambuco e Antônio de Albuquerque, por exemplo, foram fechados para os carros e entregues às pessoas. Os tradicionais cafés, bares, livrarias e restaurantes passaram a ocupar as calçadas.
Em 1990, a Savassi continuou sendo referência, mas já não tinha o mesmo protagonismo. Em 1991, foi reconhecida como região municipal. Anos mais tarde, ganhou uma data própria no calendário no dia 5 de janeiro. Até que, em 2009, a prefeitura oficializou a Savassi como bairro.
A virada do milênio deu impulso à novos empreendimentos, principalmente para a vida noturna. Em subsolos e residências antigas, surgiram espaços como Mary in Hell, inaugurada em 2006, onde antes funcionava uma copiadora.
O "inferninho" reunia um público eclético que curtia rock, pop e música eletrônica, mas fechou as portas em 2013. A dDuck, fundada em 2010, herdou parte desse espírito e conquistou o público LGBTQIA+. A Velvet, a Josephine e A Obra, esta última na Rua Rio Grande do Norte desde os anos 1990 e ainda em atividade, completam o mapa de uma região que educou gerações no indie, no grunge e no pós-punk.
A casa de shows Autêntica, inaugurada em 2015 na rua Alagoas, também é filha desse movimento. Mesmo após fechar durante a pandemia e ser reaberta no bairro Santa Efigênia, carrega na programação o compromisso de propagar a força da música brasileira independente.
É importante dizer que a atividade comercial nunca abandonou essa parte de BH. E foi nesse ambiente que circulava grupos de pessoas com diferentes interesses. Era ali que esse pessoal se encontrava para descobrir novos discos, trocar referências, paquerar, criar amizades e decidir qual seria o rolê do fim de semana. Foi engrossando esse caldo que o Pato Fu foi forjado.

Um dos locais mais importantes foi a extinta Guitar Shop, loja de instrumentos musicais, que funcionava por ali desde 1987. Fernanda Takai era uma cliente em busca de encordoamentos quando conheceu o proprietário John Ulhôa, e Ricardo Koctus, então vendedor. Da amizade deles nasceu o Pato Fu e, anos depois, a banda retornaria ao local para um pocket show comemorativo.
A Praça também testemunhou um dos capítulos mais importantes na carreira do grupo. Em 6 de junho de 1998, o local recebeu o lançamento do Televisão de Cachorro. Uma apresentação catártica reuniu os fãs e foi transmitida ao vivo pela Rede Minas e pela TV Cultura. Naquela noite, a banda subiu ao palco carregando a responsabilidade de apresentar um disco que ajudaria a projetar o Pato Fu Brasil afora. Deu certo. Na ocasião, os integrantes utilizaram as imagens captadas para o videoclipe de "Canção Pra Você Viver Mais".
Hoje, a antiga padaria já não existe, assim como o Cine Pathé. Muitas lojas também fecharam as portas ou mudaram de endereço. Todavia, o bairro continua pulsando a esfera cultural local. Nas manhãs de sábado, a vizinhança vai conferir exposições, garimpar objetos nos antiquários, tomar café e participar dos clubes de leitura.
Na rua Fernandes Tourinho, você encontra as livrarias Scriptum, Quixote e Jenipapo. Além dos livros, na rua também perdura a Acústica, loja de discos aberta em 1994. Para fechar o percurso, o Café Oop oferece um cardápio variado de cafés.

Atravessando a movimentada Avenida Getúlio Vargas, o próximo destino está na rua Alagoas, onde há mais de 40 anos, o Shopping 5ª Avenida faz parte da paisagem do bairro. Entre suas lojas, um endereço chama atenção: o Boca de Pito. Com café sempre fresco, objetos espalhados pelas vitrines e uma pegada setentista, o espaço continua reunindo uma clientela de diferentes idades.
Visitar as lojas de discos também é uma ótima pedida. Acervo, Disconave, Discomania e Estalo Stereo mantêm a tradição do garimpo. Já a rua Antônio de Albuquerque acolhe a Livraria da Rua, com suas coleções de encher os olhos, e o Café com Letras, onde o som do jazz e da música instrumental costuma escapar pelas portas e ocupar a calçada. Não por acaso, todos os anos a rua e seus arredores recebem o Savassi Festival, quando músicos, moradores e visitantes transformam praças, livrarias, cafés e esquinas em um grande palco a céu aberto.















