
Marina Sena deu muitas voltas até sentir a necessidade de se reconectar com suas raízes. Depois de trocar Minas Gerais por São Paulo e, por consequência, se jogar nas estradas do país e do mundo, ela criou o disco mais fiel ao seu momento atual.
Como boa libriana, do dia 26 de setembro – mesma data de Gal Costa –, ela está acostumada a transitar entre mundos e a trocar de pele a cada novo trabalho. Com Coisas Naturais foi a vez de olhar para trás, mas passando bem longe da nostalgia. Na sua busca por si mesma, por todas as Marinas que já existiram, ela encontrou o fogo do início da carreira.
“A Marina de Montes Claros, a minha Marina raiz, é a que não tem medo de ser, de se expor, de se permitir ser vulnerável. Ela tem uma ousadia que é quase descomplicada, como a vida no interior", comenta ela, sobre a inquietação que buscou traduzir nas 13 músicas do disco.
Como um mosaico de suas influências, o registro carrega a paixão pelos clássicos da música nacional, a sacanagem do funk e o experimentalismo do pop internacional. Para acompanhá-la nessa viagem para dentro de si, convidou o guitarrista Janluska para coproduzir e os músicos Matheus Bragança e André Oliva, amigos da Outra Banda da Lua.
Para além do exercício criativo, o álbum materializa a forma como ela enxerga a vida. Há o calor do amor romântico, claro, mas existe a demonstração da força de estar apaixonada por quem ela se tornou. Com tons solares, cada canção reafirma a sua fé no mundo através da leveza e da atitude despreocupada. Na dúvida, basta confiar no processo porque nada está garantido até que se prove o contrário.
Depois de fazer mais de 100 shows com a turnê do disco Vício Inerente (2023), a rotina de compromissos começou a cobrar caro e a desconexão do seu propósito, a arte, a levou a encontrar novas saídas para se expressar.
“Sou movida pela intersecção entre o mundo material e dos mistérios. Acho importante manter essa conexão porque, no cotidiano, somos pressionados a ter que racionalizar tudo. E, ao fazer isso, nos desconectamos do que é sensível, do que não pode ser tocado, mas que, ainda assim, nos toca profundamente. As coisas inexplicáveis são o que nos tornam humanos, o que nos faz sonhar, criar e, acima de tudo, viver.”
Cinemático, sensorial e adocicado, o álbum reflete a visão de sua criadora que, mesmo com a seriedade do papel conquistado – de destaque da cena nacional atual –, ainda vê espaço para brincadeira e evolução. Seja na faceta de compositora ou cantora, ela tem total domínio em campo. E que venham os próximos capítulos.
Em 2024, a gente conversou nos bastidores do festival capixaba Movimento Cidade. Na época, você antecipou que estava trabalhando no novo disco e disse que havia aprendido a “dosar o veneno". Escutando Coisas Naturais, fica evidente as nuances da sua voz em cada música. Como você trabalhou os arranjos vocais?
Acho que o “dosar o veneno” é algo muito pessoal. A minha voz sempre foi uma extensão da minha alma, mas eu nunca soube como usá-la completamente. Agora, com a técnica vocal, entendi que cada música exige uma abordagem diferente. A técnica não é sobre perfeição, mas sobre controle e entrega.
Eu precisava de mais técnica na minha voz, respeitar seus limites e, ao mesmo tempo, me deixar livre para fluir de maneira mais expressiva, mais crua. Em Coisas Naturais, eu queria que cada faixa tivesse uma voz diferente, como se cada uma fosse uma faceta minha, mas sem perder a verdade.
O mais importante era que minha voz se conectasse com o que cada música pedia, com o que a letra falava. Em “Anjo”, por exemplo, eu precisava de algo mais suave, enquanto em “Ouro de Tolo” eu queria algo marcante. Cada música tem sua respiração, seu tom, e eu precisava me entregar ao que ela me pedia, sem medo.
O disco carrega diferentes referências, ao mesmo tempo em que soa coeso. As músicas chegaram a ter diferentes versões? Ou, quando você compõe a letra, já sabe qual caminho a sonoridade deve percorrer?
Para mim, a música é como um ser vivo, que vai tomando formas diferentes à medida que vai sendo criada. Algumas músicas tiveram várias versões antes de chegarem ao resultado final. Às vezes, começo a compor e já sinto, de alguma forma, qual direção ela deve seguir, mas outras vezes a música vai me surpreendendo durante o processo. Eu gosto dessa imprevisibilidade. É como se a canção tivesse uma vida própria, e, quanto mais eu me permito ouvi-la sem pressa, mais ela se revela.
Isso foi muito presente em Coisas Naturais, porque o disco foi como uma jornada, e cada canção tinha algo a me ensinar. A sonoridade foi crescendo junto com a minha percepção sobre o que eu queria dizer, mas também com o que eu estava disposta a deixar acontecer organicamente. Acho que o álbum soa coeso porque a energia do projeto foi se consolidando, mas sem perder a liberdade de cada música ter seu próprio caminho.
Qual música foi a primeira a entrar no disco e qual foi a última a ficar pronta?
Compus “Ouro de Tolo” há um tempo, mas a primeira música a entrar foi “Numa Ilha” porque ela carregava uma sensação muito forte de tudo o que eu queria expressar naquele momento. Ela foi quase como uma chave para o restante do álbum. A última a ficar pronta foi “Carnaval”.
Algumas músicas ficaram de fora, mas não porque não tivessem seu valor. Algumas não entraram porque, de alguma forma, não estavam em sintonia com a vibe que eu queria passar nesse álbum. São músicas que, quem sabe, possam ganhar espaço em outra fase da minha jornada. Acontece de ter músicas que não entram no disco, mas que se tornam importantes de outra maneira, seja em outros projetos ou apenas no meu coração.
O final de “Ouro de Tolo” conta com a declamação de uma poesia. Por que incluir esses versos no final do disco?
A poesia no final de “Ouro de Tolo” é como um suspiro de tudo que foi vivido, uma necessidade de dar um toque de suavidade e delicadeza ao fim do álbum. Era como se eu estivesse encerrando uma etapa de maneira mais íntima e pessoal, quase como um sussurro de alma. Ela surgiu no meio do processo de composição do disco, mas de uma forma bem natural, como algo que eu não controlava. Às vezes, a música exige que a gente se entregue à poesia, e não é como se fosse um “acrescentar” de algo, mas uma conclusão.
“Ouro de Tolo” é uma reflexão sobre as coisas que nos cegam, sobre as promessas vazias da vida. No fim, eu precisava entender, na minha essência, o que é realmente “ouro” na vida.
Essa poesia apareceu como uma chave para fechar o ciclo, trazendo uma leveza que só a palavra dita pode trazer.
Como você enxerga as aproximações musicais entre você e os seus parceiros no disco?
Acho que o mais bonito é a liberdade que temos uns com os outros, a confiança. Janluska, Matheus, André... são pessoas que não têm medo de explorar, de se perder na música, de se deixar ser guiados por ela. Eles sabem que não há fórmulas e, juntos, conseguimos criar um universo sonoro que reflete exatamente quem somos. O que eu mais amo em cada um é a forma como eles me ajudam a encontrar a minha verdade.
Janluska, como meu diretor musical, me fez enxergar o disco de uma forma mais ampla, mais coesa. Ele entende de detalhes, sabe puxar de mim o melhor. Matheus e André, com suas raízes tão profundas na música, ajudaram a trazer essa mistura de elementos naturais com o urbano, trazendo ao álbum uma riqueza sonora que faz com que cada faixa tenha vida própria, como se respirasse. Eles são como parceiros de jornada, cada um com sua visão única, mas juntos formamos esse todo que é Coisas Naturais.
Durante a criação do trabalho, vocês fizeram uma imersão musical no interior. Como esse processo se assemelha à dinâmica de composição que você tinha na Outra Banda da Lua?
Foi como um retorno à minha essência, ao ponto de partida da minha música. Me lembrou muito a época da Outra Banda da Lua porque ali eu me sentia tão em casa, tão próxima dos outros, mas ainda assim muito centrada em mim mesma. Eu sou do interior, e essa energia de natureza, de silêncio, de conexão com o que é simples e puro, me leva a lugares de introspecção que eu jamais poderia alcançar em um cenário urbano.
A dinâmica de composição foi muito parecida com o que eu vivia na Outra Banda da Lua: a construção da música surge de forma orgânica. Era como se as músicas surgissem não porque nós as quiséssemos, mas porque elas precisavam nascer ali, naquele momento, com aquelas pessoas. Em Coisas Naturais, eu senti novamente a força dessa troca direta com os elementos ao meu redor. O lugar, o tempo, as pessoas – tudo isso se mistura e nos dá a chave para as criações.
Em algumas entrevistas, você mencionou ter cogitado formar uma banda paralela. Antes da carreira solo, integrou o Rosa Neon e A Outra Banda da Lua. O que você sente falta da dinâmica de banda?
Sou uma pessoa da troca, da energia, da coletiva. A construção dentro de uma banda é uma dança, uma entrega mútua, onde cada um tem seu papel e ao mesmo tempo se dissolve no todo. No passado, estive em duas bandas, e aquilo foi fundamental para minha formação. Cada momento, cada fase foi essencial para entender quem eu sou e o que minha música precisa dizer.
A banda traz algo mágico, algo vivo que a gente não pode controlar totalmente, e esse é o lugar onde a música, de fato, se encontra com o nosso ser. Claro que a minha carreira solo tem sua magia própria, mas existe uma vontade constante de reviver aquele “sentimento de banda”, de composição conjunta, onde as ideias se misturam e tudo se cria junto. Cheguei a pensar se este não era o momento de montar uma outra banda, mas estou numa fase em que ainda tenho muito o que dizer como Marina, mesmo cercada de outras pessoas, precisa ser ouvida sozinha. Quem sabe um dia? A estrada está aberta.
Como a Marina do Rosa Neon e da carreira solo são diferentes de quem você era na Outra Banda da Lua?
A Marina de Montes Claros, a minha Marina raiz, é a que não tem medo de ser, de se expor, de se permitir ser vulnerável. Ela tem uma ousadia que é quase descomplicada, como a vida no interior. Eu senti que, durante algum tempo, eu estava me afastando dessa ousadia, e isso me fez perder a leveza.
Com o tempo, fui entendendo que a Marina de Rosa Neon e da carreira solo precisava dessa reconexão. Ela precisava ser mais crua, mais forte, mais decidida, mas também com uma doçura e uma sensibilidade que só a Marina de Montes Claros tinha. A diferença entre aquela Marina e a Marina da Outra Banda da Lua é que eu era muito mais impulsiva e descomplicada antes. Hoje, estou mais madura, mais sensível ao mundo, mas com a mesma intensidade de antes. A ousadia agora vem de um lugar mais fundamentado.
Como a vida na cidade te afastou da sua essência?
A cidade grande tem uma energia que, se você não tomar cuidado, pode te consumir.
Eu sempre senti que a vida nas cidades me afastava de quem eu realmente sou, porque tudo é muito rápido, muito impessoal. Em algum momento, eu precisava respirar e voltar ao meu lugar de origem, à simplicidade que me fazia bem.
Para manter minha criatividade, preciso estar em sintonia com o meu interior. Eu me desconecto do ritmo frenético, busco momentos de solitude e paz. O autocuidado se tornou um processo constante, rotina, para manter meu corpo e minha alma alinhados. Cuidar de mim é essencial para continuar criando. A música vem de dentro, mas também depende de como eu estou me sentindo no mundo.
O disco tem músicas batizadas como “Mágico", “Anjo" e “Lua Cheia". Como você enxerga os mistérios da vida?
Sempre fui muito conectada com o que é místico. Para mim, a vida sem magia não tem a menor graça – é incompleta. Acredito que a magia está em tudo, na natureza, nos encontros, na arte… São essas coisas que a gente não consegue explicar, mas que sentimos profundamente. A música, para mim, é uma forma de magia. Quando componho, é como se eu estivesse conjurando algo invisível, que só ganha forma através dos sons.
As palavras, as notas, os ritmos... elas têm um poder inexplicável. Em Coisas Naturais, quis deixar esses elementos mais presentes. A música se relaciona com os mistérios da vida porque ela, por si só, é um mistério – ela nasce de algo que não está visível, mas que ressoa no nosso coração e na nossa alma. Magia é intenção.
Os seus discos carregam influências cinematográficas e sensoriais. Seja o espírito urbano de Vício Inerente ou o clima praieiro de Coisas Naturais. Como o ambiente influencia a sua composição?
O ambiente, para mim, é como um personagem que nunca aparece diretamente, mas está sempre ali, influenciando tudo. Em Vício Inerente, a cidade estava pulsando em mim – a noite, as luzes, o caos... tudo isso era a energia que eu sentia ao meu redor e que acabou entrando na minha música. Já em Coisas Naturais, a relação com a natureza foi uma busca por calma, por encontrar meu equilíbrio entre o urbano e o natural.
Eu sempre me deixo ser guiada pelo que estou vivendo e pelo que estou sentindo no ambiente. Cada disco tem seu cenário, e esse cenário sempre fala comigo de uma maneira profunda. No caso deste disco, a conexão com a natureza foi vital. A natureza, com seu silêncio e suas respostas sutis, me ensinou a desacelerar, a ouvir mais e a me entender melhor. Manter essa conexão é essencial para minha criação, porque é ali, no simples, no orgânico, que minha música respira e se expande.
Nos últimos anos, você fez feats com Pedro Sampaio e Japãozinho, ao mesmo tempo, trouxe o Fleezus no segundo disco, e agora Çantamarta, Gaia e Nenny. Por que é importante flutuar entre diferentes turmas?
Acho importante se apresentar para públicos diversos, mas ter noção da sua pesquisa. Entender qual característica sua tem que estar na música, independente do gênero. É um jeito bem interessante de entender o que te faz única. Sou uma artista que gosta de experimentar e brincar. Conquistar públicos diversos para trazê-los para minha viagem. Gosto de brincar com ritmos populares, pois também formam minha personalidade. Mas acho importante para todo artista ser experimental dentro da própria pesquisa. Porque é assim que você se entende.












