
Em janeiro de 1966, Baden Powell e Vinicius de Moraes gravaram o disco Os Afro-sambas, obra que une o universo afro-religioso do candomblé a elementos do jazz. O álbum representa um marco na música brasileira por apresentar uma inovação estética, notada nas levadas de violão de Baden Powell e na poesia das letras de Vinicius, misturadas com as representações religiosas dos orixás. Ele traz ainda os ritmos e instrumentos percussivos afro-brasileiros em primeiro plano. Em 2016, há exatos 10 anos, o Noize Record Club lançaria uma edição em vinil que até hoje é uma das mais queridas por nossos assinantes [saiba mais aqui].
Os Afro-sambas completa 60 anos em janeiro de 2026. Pensando nisso, a cantora, escritora e pesquisadora Luciana Oliveira propõe uma homenagem ao álbum: um show que será uma releitura do disco.
O projeto será apresentado na sexta-feira, 30 de janeiro, na JazzB, em São Paulo, e conta com a participação do violinista Igor Brasil. O show também terá Vinicius Sampaio no violão, Gisa Preta na percussão e a participação especial do músico e produtor Renato Gama.
Luciana está na estrada há 25 anos, sempre conectada à canção afro-brasileira. Lançou os álbuns O Verde do Mar (2008), com releituras de Jackson do Pandeiro e João Donato, Pura (2013) e Deusa do Rio Níger (2017). Já cantou com o Natiruts e com Guilherme Arantes. Seu trabalho também inclui a pesquisa - no ano passado, ela lançou o livro Catálogo de Cantoras Negras Brasileiras e falou um pouco à Noize sobre o projeto, que visa registrar e documentar o trabalho dessas artistas.
Batemos um papo com ela sobre as expectativas para o show em homenagem aos Afro-sambas. Confira abaixo:
Primeiro, conta pra gente sua relação com Os Afro-sambas.
Esse disco eu conheci há uns 20 anos. Por eu mergulhar muito nesse universo da música brasileira, pesquisava bastante coisa e me identificava muito com o repertório histórico que dialogava com isso.
Então eu gostava muito de ouvir as coisas do João Bosco, Clara Nunes. Depois veio a obra toda da Clementina de Jesus e aí conheci esse álbum dos Afro-Sambas. Comecei a conhecer a partir da música “Canto de Ossanha”, que eu acho que é a mais famosa. Ouvi o “Canto de Xangô” e “Canto de Iemanjá” e achei incrível.
Embora não seja exatamente da religião do candomblé, eu me identifico muito com essa musicalidade, com o tema, com os ritmos. Acho muito bonita toda a questão da religiosidade também.
Fiz uma pesquisa na minha graduação, inclusive, que se chama “Canto Sagrado”. Fui aos candomblés, conheci alguns terreiros, pesquisei sobre os seus cantos e me influenciei muito por essa musicalidade. Então, quando cheguei no Os Afro-Sambas, achei que era uma obra incrível, porque faz essa transposição do universo afro-religioso do candomblé, dos terreiros, principalmente, para a música brasileira. E eles fazem isso de uma forma muito assumida, muito forte, com uma percussão muito presente, fazendo uma referência direta mesmo a todos os orixás. Então foi um álbum que me impactou muito.
Na época que eu conheci o disco, quis montar já um show inspirado nele. Cheguei a fazer um show, meio afro-samba, samba-afro, misturando esse repertório. Agora, pesquisando, ouvindo de novo as coisas, eu falei: "Ah, o álbum vai completar 60 anos, é um disco tão marcante para mim na minha vida.” Foi muito forte mesmo.
O que você mais gosta nesse disco?
Eu conheci o álbum com a Elis Regina, depois que fui conhecer a gravação original do Baden e Vinicius. Gosto das referências que eles fazem. De cantar os orixás, mas de fazer essa transição para a música brasileira.
O violão do Baden, eu acho fenomenal. Se você vê esse diálogo, entre os ritmos do candomblé — que são colocados como protagonistas — e um violão dele, que é meio jazzístico, não tem igual. Ele traz a percussão muito para frente. Acho que até hoje não tem um violão igual ao do Baden, ninguém criou a mesma linguagem que ele.
E as letras me pegam muito também, principalmente as do “Canto de Iemanjá”. Eu sou muito das águas. Sou filha de Oxum, mas acho que eu também sou filha de Iemanjá de alguma forma; ela está muito presente aqui. No meu primeiro disco, O Verde do Mar, eu escolhi as músicas de artistas brasileiros para regravar e acabei também inserindo duas composições minhas. E, no final, quando vi o disco, falei: "Gente, é um álbum de água".
Mas não foi proposital, foi no final que cheguei à conclusão de que praticamente 80% do disco falava das águas. Então eu sempre tive essa relação muito forte, assim, no canto com as águas. Por uma razão espiritual, de gosto, não sei… Eu sou muito do mar e do rio.
Como você enxerga essa mistura de religião com jazz no disco?
É incrível como você pode fazer essas fusões e que, na verdade, têm muito a ver com a diáspora. O jazz é uma música essencialmente negra, e ela também tem algo quase religioso, porque quando acontecem os improvisos, os músicos entram ali numa coisa quase de um mantra. Acho que você consegue acessar um lugar quase espiritual tocando.
E vem o lado religioso mesmo, que tem a ver mais com o candomblé do Brasil — digo assim porque em outros países ele é reproduzido de outras maneiras — que é colocado no disco.
Então, parece que essa junção dessa musicalidade negra em um disco já é uma proposta afrodiaspórica. Falar: "Vamos juntar ali o afro-americano com o africano e o afro-brasileiro."
Você diria que o disco é uma forma de representatividade negra?
Com certeza. Lendo um pouquinho das histórias do disco, eles frequentaram roda de capoeira, terreiro de candomblé, ouviram outros compositores. E o Baden mesmo, ele foi aluno do Moacir Santos, um maestro pernambucano que já trazia muitas dessas referências nas canções dele. Então, eu acho que talvez na época eles não entendessem isso como esse lugar de que “estamos fazendo um álbum que é uma representatividade negra” e sim mais esse lado da musicalidade.
Hoje tem toda essa questão do preconceito com as religiões de matriz africana. Esse álbum também tem esse papel, dessa afirmação e valorização da religiosidade negra. Eu não sei se eles tinham essa dimensão na época, mas eles também, de alguma forma, estavam contribuindo para um olhar mais positivo e levando esse universo religioso para o grande público.
O Baden, por exemplo, é a pessoa que traz essa musicalidade do moço do Rio de Janeiro do subúrbio e da periferia. Ele que vem com essa essência da negritude. O Vinicius é um cara viajado, formado, diplomata. E que também tinha uma interação com o social muito grande, conhecia muita gente e era um curioso. Mas, para mim, a essência do disco tem muito do Baden. Dessa alma negra do disco e de, talvez, mais de vivência, de espiritualidade. Apesar de que depois o Baden negou Os Afros-Sambas, no final da vida, quando se converteu para igreja evangélica.
Como foi planejar esse show com o Igor Brasil?
Nós estávamos trabalhando juntos em outro show meu, o Canto Fundamento, inspirado no meu livro, o Catálogo das Cantoras Negras Brasileiras. O Igor está nesse projeto, e estávamos trocando muito muita figurinha musicalmente, e eu falei para ele: "Ah, vamos fazer esse show". Mas com a ideia de fazermos juntos.
Como o violão é um protagonista do disco, eu queria que ele estivesse realmente junto, pensando em arranjos e vestindo a camisa do trabalho também. E fomos pesquisando e ouvindo juntos, e gravamos “O Canto de Iemanjá”.
Ele vai fazer agora esse show de lançamento, mas, por conta de um contratempo, ele ficará um tempo fora do Brasil e volta daqui a uns meses. Então, alguém vai ter que substituí-lo por um tempo também.
A ideia do projeto é que nos adentraremos não só pelas canções do disco, mas também pelas referências dele do antes e do depois. Quem fez os arranjos do disco foi o Guerra Peixe, um maestro. Ele tem um dos prelúdios para violão e eu sugeri colocarmos algo relacionado a ele no show. Também tem o Moacir Santos, que foi professor do Baden e foi tipo uma referência para criar esses arranjos de violão que ele fez para o disco. Então, a ideia é trazer também algumas músicas do Moacir para o show.
Também quero pensar no desdobramento que esse disco teve na música brasileira. Imagino que a música do João Bosco foi muito influenciada por esse álbum. Aquele violão dele é tão ritmado de tocar e as referências dele são muito afro-brasileiras, então elas devem ter partido muito também do Os Afro-Sambas. Estamos brincando um pouco com o que pode ser essa continuidade dos Afro-Sambas dentro da música brasileira.
Eu conheço as músicas e já cantei tanto lá atrás em vários outros momentos. “Canto de Ossanha” e o “Canto de Iemanjá”, por exemplo, são faixas que me acompanham mesmo. Canto sempre em algum lugar, em algum show. Então, eu tenho uma certa intimidade com disco. Sobre o show em si, iremos fazer o lançamento em São Paulo e acho que em março vai ter Brasília. E quem sabe para o mundo também, porque ele é uma referência mundial.








