
“Quintessência” é, segundo a alquimia, a substância com o grau mais elevado e puro. Foi assim que Zudizilla batizou seu quinto álbum de estúdio, Quintessência (2026) tomando como base esse e outros conceitos para atingir a excelência musical. Nós adiamos: ele conseguiu.
Em 16 faixas, o músico, acompanhado de seu fiel jazz trio (Júlio Lino no baixo, Gabriel Gaiardo no piano, Maurilio "Pé Beat" Santiago na bateria), segue explorando as afinidades entre o rap e o jazz, mas se permite também passear por estilos como o samba e ritmos tradicionais do sul do Brasil, evidenciando as influências da rota afro-açoriana do Rio Grande do Sul, estado natal do artista.
Para chegar nesse resultado, o artista buscou referências próprias. “Se acontece é muito porque parte do meu íntimo com o que tá acontecendo no universo,”
“Não escutei nada para fazer esse disco”, disse o artista, em conversa com a Noize. “Ele foi se construindo nas tentativas e erros. Um método absolutamente alquímico e científico. Fui adquirindo equipamentos novos, testando, trampando no disco da minha esposa e vendo o que funcionava.”
Zudizilla traz consigo nessa empreitada nomes de diversas gerações e origens: Catto, Cristal, Vitor Ramil, Renato Borghetti, Maestro Bira, Febem, Bruna Mendez e Luciana Mello.
“Esse é o momento mais importante da minha carreira. Tudo o que eu estudei e aprendi, entendi e vivi em todos os palcos, todas as pessoas que eu conheci, nesse momento, fazem sentido no disco.”
O número 5
De volta à alquimia, a quintessência seria um quinto elemento primordial na formação dos corpos celestiais. Para Zudizilla, o disco é o quinto da carreira. O número cinco, então, é um dos nortes para o conceito do disco.
“Geralmente, o universo me aponta o caminho para o qual eu vou, então, passo a levar as letras para esse lugar,” explica. “O Quintessência é naturalmente subjetiva. As letras se conectam com o número cinco, mas de outra forma. Assim, eu acho que a inteireza do projeto fala muito mais sobre o conceito e o contexto do número cinco do que propriamente eu falar do número cinco”, explica.
O número aqui tem várias funções: política, espiritual, filosófica e tantas outras, como ele explica. Como, por exemplo, o início de um novo ciclo — uma das simbologias associadas ao número. Ainda assim, ele prefere conservar parte do mistério. “Acho que é o momento da gente utilizar semiótica, esse subjetivo, é, para não ser tão panfletário, não entregar tão na cara assim as coisas.”
"Música de nerd"
Para o novo trabalho, além da alquimia, Zudizilla buscou inspiração em momentos históricos, como o renascimento negro..
Orgulhoso de ser um nerd — o rapper estava usando um boné com a palavra estampada no dia em que conversamos — ele explica que a ideia de buscar referências não utilizadas convencionalmente, vem da vontade de ser visto como um artista autêntico. “Quero ser um artista diferente daqueles que estão na mesma prateleira que eu”, explica.
Além disso, Zudi valoriza o processo de pesquisa que as músicas exigem e diz que se sentir conectado com o mundo, para ele, é como se sentir vivo. “E, para me sentir conectado com o mundo, eu preciso estudar, ler, viver e percebê-lo.”
O sul como norte
Natural de Pelotas , Zudizilla ressalta como a construção de seu caráter artístico está diretamente ligada ao lugar de origem. Neste disco, no entanto, o rapper leva a territorialidade a um novo patamar, trazendo consigo a musicalidade do estado e parcerias com diversos artistas da região.
“Tazer artistas do Rio Grande do Sul como Vitor Ramil, de Pelotas, Borghetti, a Catto e a Cristal, que são de Porto Alegre, é um marcador da minha territorialidade.”
Desprendido da obrigação de fazer da música um trabalho, o rapper chegou longe com a arte. Agora, com o olhar voltado para o caminho que percorreu, Zudizilla traça os próximos passos em direção ao futuro.














