
Emicida com a mãe, Dona Jacira[/caption]
Quando "Mãe" acabou, fez-se um breve silêncio no qual um espectador soltou um grito ansioso. Emicida emendou um discurso sobre a importância de se ter calma, quase uma fábula sobre a lebre e a tartaruga transcrita para os dias - e a realidade - de hoje. Era difícil manter a calma quando a ansiedade pela próxima música gerava eletricidade estática no ambiente. Mas a calma é importante. E necessária. É um ensinamento quase cristão, como contraponto ao poder da frase "A sociedade vende Jesus, por que não ia vender o rap?", encontrada em "Hoje Cedo". Durante a música, Emicida recebeu um álbum de alguém da plateia e, com ele no peito, agradeceu. A música foi cantada por todos até o final, em mais uma explosão catártica. Foi um show emocional, visceral, por assim dizer.
Em mais um discurso, Emicida começa a falar sobre sua experiência na África, uma viagem que serviu para ele entender melhor suas raízes e si mesmo, e, principalmente, entender como jamais devemos nos esquecer de que não basta olhar o céu para encontrar estrelas, mas que precisamos entender que elas estão no olhar de cada um. E que dessas estrelas jamais devemos abrir mão. Olhando para a beirada do mundo que é a praia, Emicida viu a importância de nos mantermos irmanados. Começou, suave e bela como as praias de um Oceano Índico a banhar suas ilhas, "Madagascar".
Ao término dessa música, Emicida fica no centro do palco parado. Começa a falar dos amigos que está reencontrando ali na plateia, cumprimenta alguns pessoalmente. Tudo é muito bem construído e harmônico, o fluxo do show está redondinho. "Chapa" se inicia e, ao fim, mais um belo discurso, agora sobre a escandalosa chacina e dos 18 mortos de Osasco. O silêncio é o que mais incomoda. E o cavaco de Dony Jr. começa a chorar. Cavaco que vem do chorinho e do samba, das músicas africanas. Emicida busca retomar todas as raízes que se dividiram em vários gêneros e exprimir ali, naquele palco. É tão forte essa busca de encontrar as raízes e retomá-las que, com o início do cavaco, o cantor começa "Preciso me Encontrar", obra-prima do mestre Cartola, com uma batida típica de hip-hop ao fundo. Impressionante.
Após o cover, entrou "Baiana" e sua letra romântica sobre as bagunças que uma paixão fazem a uma pessoa. Nesse momento, Carlos Café e Silvanny Rodriguez, percussionistas, deram um show a parte, batendo lata seca como se fosse Olodum, levando on sons pulsionais das baterias e tambores a lugares que estavam a milhares de quilômetros do Sesc Pinheiros. Com essa música era o momento perfeito para homenagear também o nordestino, o povo baiano e suas tradições, e Emicida não poupou e falou sobre a ideia escrota que existe em muitos do Sudeste e Sul do país de que seria melhor se dividíssemos o Brasil em dois. Sabiamente, falou que os únicos que podem mandar a galera embora são os índios, como se quisesse deixar seu recado também para os vários metidos a neonazistas e skinheads que temos em São Paulo, que, com uma ideia xenófoba bizonha, acreditam serem melhores que outros por suas ascendências.
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A homenagem não parou em "Baiana", e um segundo cover apareceu na maravilhosa "Haiti", de Caetano Veloso. A luz verde a amarela brasileira voltou ao show, enquanto o refrão "O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui" entonava o ambiente. É curioso notar como uma música escrita há 40 anos, mais ou menos, ainda tem um contexto completamente atual e, na voz de um rapper, ganhou contornos ainda mais urgentes. Enquanto acontecia o encontro imperdível de Caetano e Gil em outra casa de shows, Emicida prestava homenagem também ao tropicalismo. Quando acaba a música, uma bateria num ritmo alucinado faz parecer que a próxima música seria uma explosão, mas não. Entra "Passarinhos", como um pequeno respiro mais pop ao show. Quase uma pausa necessária, a música romântica funciona como analogia a um momento de sonho no show diante da realidade dura e crua. Mesmo com a certeza da dureza da vida, não podemos nos esquecer do amor romântico.
Assim como não podemos nos esquecer de nosso passado escravagista. Com a força de dez megatons de bomba nuclear, Emicida declamou "Súplica", poema da moçambicana Noémia de Sousa, na qual ela relembra e reconta a história de nossos escravos, de todos os escravos que existem também hoje, sobre a importância de nos mantermos fortes e, através da música, existirmos como pessoas e como história. Ao fim da poesia, entra a poderosa "Mufete", com seus ritmos e tambores africanos lembrando que só é feliz quem realmente sabe que a África não é um país. Emicida desce na plateia e canta com o pessoal, é um momento de união.
O show seguiu com a banda se enfileirando e fazendo um belíssimo passinho em "Zica, Vai Lá", dando início a uma segunda metralhadora de rimas poderosas e músicas matadoras. "Nóiz" levantou a plateia inteira, todos cantavam e as luzes vermelhas e brancas acompanhavam o ritmo da percussão pesada e rápida, num jogo de luzes quase convulsivo, como se quisesse mostrar a necessidade de se vomitar e cantar tudo que era preciso vindo do cantor. Com "Mandume", Drik Barbosa, Muzzike, Raphão Alaafin e Amiri (não consigo lembrar agora se Rico Dalasam também estava presente, que vacilo!) entraram no palco e mandaram ver, mostrando que o movimento hip-hop é unido e necessário, que o sucesso de um é de todos que estão batalhando dia após dia para quem está querendo ser ouvido.
Com o fim de "Mandume", volta pesado o ritmo africano (não que ele tenha ido embora) com "Ubuntu Fristaile". Anna Tréa volta a dar um show de dança, agora com dois chocalhos fazendo uma dança quase tribal linda de morrer. A plateia cantando em uníssono impulsiona a transposição do Sesc para as margens do Rio Zambeze. Emicida joga pras meninas da plateia, os meninos e todos cantarem. Obedecemos facilmente enquanto o cantor tira foto com fã. O cantor está claramente muito feliz de estar ali. Nunca imaginou que os passos dele e sua música estremeceriam o mundo, mas que entende de certa forma sua importância. Começa "Crianças", música sinal de que devemos nos manter como elas, com curiosidade interminável e desbravando o mundo. Ao final dela, a banda sai.
Aos poucos, um a um volta, começando pela guitarrista. Emicida entra de leve cantando "Rinha (Já Ouviu Falar?)". Agradece as batalhas na Galeria Olido e Santa Cruz. Começa a falar de cada rinha e de como foi o seu processo. E desata a agradecer todos os nomes importantes da história do hip-hop e dele hoje: Racionais, Sabotage, Criolo, De Menos Crime e Rappin' Hood. Agradece a cultura hip-hop como um todo. E, ao fim dos agradecimentos, soltou um discurso maravilhoso sobre a importância de entendermos que o nosso sorriso não é crime.
Depois de "Rinha", entrou "Levanta e Anda" e sua letra encorajadora, para não perdermos a vontade de fazer e seguir nossos sonhos, por mais difíceis que possam parecer. Emicida é um conciliador. Conecta todos. Fala de Sérgio Vaz e da poesia marginal também. É um cantor urgente e necessário para os nossos dias de hoje. Com o fim dessa música, faz um freestyle agradecendo toda a plateia. Cada canto dela. A banda inteira vai para frente do palco e agradece mantendo a música. Só não nos levem a música, não é mesmo?
Saí do show completamente embasbacado com o que acabara de vir. Posso estar exagerando, talvez esteja, mas senti a força do Emicida nesse álbum e em seu show, impecável. Já dá pra cravar que ele é um cara imenso, em todos os sentidos, e um cantor completamente necessário para os dias de hoje. Se nos anos 60 o rock, através do Tropicalismo, lançou Caetano e Gil como pilares da música brasileira, acho que hoje é o hip-hop e a força de artistas como o Emicida, com suas letras e poder de palco, que poderão determinar os próximos passos de nossa música.














