De volta ao país, Shawn James revela por que tatuou um símbolo brasileiro


Por:

Erick Tedesco

Fotos: Divulgação

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Um sabiá-laranjeira, uma das aves símbolo do Brasil e dona de um canto doce e afinado, atravessa fronteiras e roda o mundo com o músico norte-americano Shawn James. Está tatuado no braço do cantor, compositor e multi-instrumentista desde sua primeira visita ao país, em 2022, quando o canto persistente de um ou de vários sabiás despertou sua curiosidade. Em entrevista por vídeo, o músico conta que não sabia o nome do pássaro que ouvia repetidamente, mas decidiu levá-lo na pele depois que um tatuador presente em seu show se ofereceu para registrar uma lembrança daquela viagem.

“Lembro-me de quando fomos ao Brasil pela primeira vez. Aqueles pássaros estavam cantando constantemente, e eu me perguntava: ‘O que é isso? Que criatura é essa?’. Alguém me explicou. Depois, um tatuador foi ao show e disse que faria gratuitamente qualquer tatuagem que eu quisesse. Imediatamente pensei que precisava escolher o sabiá, porque aquilo representava uma experiência real.”

A ave ganhou um significado ainda maior quando Shawn pesquisou sobre ela e encontrou a esperança entre as simbologias associadas ao seu canto. “Ele está sempre cantando, nos dias difíceis e nos ensolarados. Isso criou uma conexão muito bonita com o que faço. Eu queria celebrar o sentimento que os brasileiros me proporcionaram e também a esperança que me deram: a possibilidade de viajar pelo mundo e encontrar pessoas que compreendam a música e se identifiquem com ela.”

Com o símbolo tatuado há quatro anos, seu novo giro pelo país começou na quinta (6/8) no Bar Opinião, em Porto Alegre, e segue na sexta-feira (7) para o Cine Joia, em São Paulo, e termina sábado (8), no Hard Rock Cafe, em Curitiba. Desta vez, ele ocupa casas maiores e traz no repertório sete ou oito faixas de Passage, álbum lançado em junho como registro de outra travessia: a que o levou a rever a carreira e a maneira como vinha conduzindo a própria vida.

Conexão com o Brasil

Antes de conhecer o país, Shawn via pela internet a insistência dos ouvintes que pediam sua presença. Com 530 mil ouvintes mensais no Spotify e 61 milhões de reproduções de “Through the Valley”, impulsionada por The Last of Us, admite que duvidou. “Pensava: ‘Isso é real?’. Anunciamos os shows, e eles se esgotaram em cinco minutos. Foi uma loucura.”

Na sua discografia, ainda constam Honor & Vengeance (2023), A Place In The Unknown (2022), The Dark & The Light (2019) e Shadows, em uma carreira prolífica de discos cheios em pouco mais de uma década.

Em 2023, a estreia nacional passou por Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital paulista, a apresentação no Fabrique Club esgotou e ganhou uma data extra, também com todos os ingressos vendidos. No ano seguinte, a rota cresceu para seis cidades. O terceiro giro é mais enxuto, mas ocupa casas maiores.

A intensidade do público alterou a dinâmica do espetáculo. “Nunca vou esquecer a primeira vez em São Paulo. Todos conheciam cada palavra. As pessoas se tornaram quase parte do show: a energia que dávamos voltava diretamente para nós. Foi uma das melhores apresentações que já fiz.”

Nesta etapa latino-americana, Shawn toca ainda no México, Chile e Argentina, mas o Brasil tornou-se prioridade. Depois dos shows, ele permanecia nos locais para ouvir quem havia encontrado amparo em suas músicas. “Algumas pessoas choravam, outras estavam felizes, e todas compartilhavam como a música as havia afetado. A comunidade que criei no Brasil é o que realmente importa.”

Embora reconheça a engrenagem comercial das turnês, ele procura impedir que os números substituam essa troca. “Se você se concentrar excessivamente nos negócios, perde o coração. Quero preservar a conexão com as pessoas e garantir que voltar ao Brasil continue sendo uma prioridade.”

Passagem, em muitos sentidos

Se as turnês representam a expansão externa da carreira, Passage registra um movimento na direção oposta. Lançado em 12 de junho, o álbum nasceu quando Shawn reconheceu o desgaste escondido atrás dos números. A transformação aparece em “Tired of Trying” e “Sometimes”, duas das dez faixas, e atravessa todo o trabalho.

“Eu estava esgotado com a pressão por mais: mais ingressos, seguidores, fãs e streams”, relata. Quando as conquistas deixaram de produzir satisfação, veio a depressão. “Estava vivendo o meu sonho, mas não me sentia bem. Lidei com muitas emoções enquanto escrevia Passage, e isso apareceu nas músicas.”

A revisão alcançou os hábitos da estrada.

“Eu bebia todos os dias, dormia três horas por noite e queimava a vela dos dois lados. Percebi que não era saudável. Hoje bebo menos e tento cuidar melhor do corpo. Você já não tem mais vinte e poucos anos.”

O disco separa duas etapas sem apagar o passado. “Foi um álbum de transição e amadurecimento. Estou mais feliz, meus relacionamentos estão ótimos e as turnês também.” A música alterna voz, violão e piano com blues sombrio, rock e arranjos orquestrais. “Burn” observa o cansaço diante de ciclos de destruição, enquanto “Let Me Go” encerra o trabalho com a ideia de seguir adiante.

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Um lar sem endereço

Nascido na zona sul de Chicago e criado entre a música gospel das igrejas, Shawn guarda uma relação ambivalente com a cidade. “Tive uma criação tumultuada. Amo Chicago, mas também tenho lembranças ruins e traumas. Por isso, nunca senti realmente que tivesse um lar.”

As mudanças pelos Estados Unidos e as viagens alteraram essa percepção. “Entendi que o lar é mais um estado de espírito, qualquer conforto que faça você se sentir seguro. Conforme envelheci, passei a encontrá-lo dentro de mim.”

Viver em movimento ampliou sua formação musical e pessoal. Nesse mapa afetivo, o Brasil ocupa posição singular: tornou-se comunidade, destino recorrente e, literalmente, parte de seu corpo.

A relação com a religião

As viagens ajudaram Shawn a reorganizar uma dimensão antes concentrada na igreja. Embora a formação gospel permaneça evidente em sua voz e nas narrativas sobre culpa, redenção e sobrevivência, ele já não segue uma religião.

“Se a religião proporciona conforto e tem papel positivo para alguém, ótimo. Minhas experiências não foram boas, não por causa da religião, mas por causa das pessoas associadas a ela.” O espaço da igreja foi preenchido pela natureza, pela música, pelas relações afetivas e pela capacidade de permanecer no presente.

No palco, a entrega remete aos coros gospel. “Existe o que sinto quando me perco na música e me conecto com as pessoas. Esse espaço também foi ocupado pelo amor da minha companheira. A apreciação pela vida e a capacidade de estar presente foram as maiores coisas que substituíram a religião para mim.”

Para a terceira turnê brasileira, Shawn reorganizou o repertório. Serão sete ou oito músicas de Passage, além de “Through the Valley” e composições antigas ausentes do último giro.

“Estou particularmente animado com ‘Burn’ e ‘Let Me Go’, porque combinam elementos diferentes”, afirma. A intenção é reconstruir a troca que o levou a tatuar o sabiá. “Preparamos uma montanha-russa emocional. Esperamos encontrar ainda mais coração, paixão e conexão com as pessoas.”

O reencontro era aguardado desde 2024. “Estamos prontos para chegar aí e colocar tudo no palco para vocês.”

Shawn James no Brasil

São Paulo

Data: 7 de agosto de 2026, sexta-feira
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 82, Sé
Abertura dos portões: 19h30
Show: 21h
Ingressos: a partir de R$ 180, conforme modalidade e lote disponível
Vendas: Livepass
Classificação: 16 anos desacompanhado; menores de 16 somente com os pais ou responsável legal
Realização: Move Concerts

Curitiba

Data: 8 de agosto de 2026, sábado
Local: Hard Rock Cafe Curitiba
Endereço: Rua Buenos Aires, 50, Batel
Abertura da casa: 19h30
Show: 21h
Ingressos: a partir de R$ 240, conforme modalidade e lote disponível
Vendas: Disk Ingressos
Classificação: 18 anos
Realização: Move Concerts e RW7 Production & Entertainment

Por:

Erick Tedesco

Fotos: Divulgação

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